
Está certo que biografias autorizadas não são exatamente confiáveis; autobiografias, então, são ainda mais suspeitas. Pois a do Barão Vermelho foi escrita a seis mãos: pelo baterista e fundador Guto Goffi; pelo “descobridor”, produtor e mentor da banda, Ezequiel Neves; e pelo jornalista Rodrigo Pinto. Talvez não seja o caso de acusá-los de falta de isenção, até porque alguns temas-tabu (como drogas) são tratados abertamente no livro. Porém, a obra não traz muitas novidades – pelo menos para os seguidores mais fiéis do conjunto.
É sabido de todos, por exemplo, que os primeiros passos do Barão foram bem menos tortuosos que os das demais formações de sua geração, já que, desde o início, em 1981, o grupo era cercado de bons contatos – o pai do tecladista Maurício era gerente de promoções do jornal carioca O Globo e o pai de Cazuza era ninguém menos que João Araújo, presidente da Som Livre, braço fonográfico das organizações Globo (apesar de, segundo relato do livro, tal fator não ter influenciado a banda na hora de procurar o vocalista, indicado por Léo Jaime após um teste malsucedido para assumir o posto). Assim, o Barão Vermelho seria um dos primeiros nomes daquela safra a gravar um LP, autointitulado, em 1982.
Ao descrever os processos de criação e gravação de cada álbum, o livro suscita o debate sobre qual seria a melhor fase do conjunto, discussão antiga entre os fãs – divididos entre os que defendem que os registros com Cazuza representam o ápice criativo do Barão Vermelho e aqueles que acreditam que o grupo, com Frejat à frente, manteve (ou mesmo superou) o nível das composições e das performances ao vivo. No entanto, é inegável que a saída do vocalista original (que ainda contribuiu em trabalhos posteriores) denunciaria as deficiências de ambos os lados. Enquanto o Barão sempre teve de recorrer a vários parceiros, principalmente para escrever as letras, a carreira solo de Cazuza, apesar de bem sucedida, nunca teve a consistência musical de sua ex-banda, já que o forte do cantor, morto em 1990, era a poesia.
A obra é organizada de forma não muito linear, com narrativas paralelas – que abordam desde as turnês até a relação dos músicos com as drogas – inseridas no meio de cada capítulo, quebrando o ritmo da leitura, o que pode incomodar alguns. Mas o grande atrativo de “Barão Vermelho – Por que a gente é assim” é mesmo o CD que acompanha o livro, reunindo as duas demos gravadas pela banda antes de assinar com a Som Livre. A primeira tape trazia “Billy João” (depois rebatizada “Billy Negão”) e “Certo Dia na Cidade”; o segundo registro continha as faixas “Conto de Fadas”, “Ponto Fraco”, “Por Aí”, “Rock’n Geral”, “Você me Acende” – versão de Erasmo Carlos para “You Turn me On”, de Ian Whitcomb – e o reggae “Nós”, que ficou de fora do CD.
Conforme dito no começo do texto, não há grandes surpresas nessa retrospectiva do Barão, mas o livro – com prefácio de Ney Matogrosso e comentários do CD por Frejat – garante momentos de nostalgia e diversão, com fotos de todas as épocas do grupo e histórias que já ganharam status de lenda – como no dia em que os integrantes foram atrás de uma mãe de santo para desfazer um “trabalho” feito para a banda –, e o mais bacana, parte dos royalties vai para a Sociedade Viva Cazuza, que ajuda crianças e adolescentes portadoras do vírus HIV.
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Genilson Alves é jornalista e autor do blog Radio Sehnsucht.
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