Dossiê Guns N' Roses: A versão de Slash para os fatos

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Dossiê Guns N' Roses: A versão de Slash para os fatos


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Dentre milhões dos fãs de Guns N’ Roses por todo o mundo, um dos assuntos mais controversos e que dividem opiniões é a falta de entendimento do frontman Axl Rose com o guitarrista-solo Slash, que em 1996 culminaria na separação, após 10 anos, daquela que é considerada uma das melhores dobradinhas musicais do rock de todos os tempos, do tipo Mick Jagger com Keith Richards (Rolling Stones) e Steven Tyler com Joe Perry (Aerosmith). A desunião dos dois é apontada, por muitos, como o "fim oficial" da era “romântica” do Guns N’ Roses. Isso porque, mesmo com a saída de alguns membros fundadores da banda ao longo dos anos, a dupla Axl/Slash ainda mantinha as esperanças da imensa maioria dos fãs. A saída do guitarrista é vista como uma espécie de "morte" do clássico grupo, ainda hoje conduzido solitariamente por Axl.

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Em 2008 foi lançada no Brasil, pela Ediouro, uma obra literária seminal que elucida várias questões envolvendo o Guns N’ Roses e principalmente a relação entre o vocalista e o guitarrista do grupo, que responde pelo nome de Saul Hudson. É o livro "Slash" (por Slash e Antony Bozza), que aborda do início de sua carreira musical até a última turnê mundial pelo Velvet Revolver. Nesta série de matérias alguns trechos do livro serão comentados.

O livro traz revelações do que foi chamado de “todas as lendas sobre sexo, drogas e rock and roll” a respeito de Slash, incluindo sua trajetória desde a infância até o fim de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos. Na orelha do livro Slash frisa que não se trata de um desabafo, mas sim da história como ele conheceu e vivenciou. E um brinde aos gunners é a riqueza de detalhes acerca de sua vida, incluindo o envolvimento com as drogas e o álcool, além do porquê de sua saída do Guns N’ Roses – este sendo o ponto principal deste texto.

Antes de qualquer coisa é preciso ressaltar que o próprio músico nascido em Stoke-on-Trent (Inglaterra) e crescido em Los Angeles admite que seus relatos parecem “exagerados”, mas isso não significa que não aconteceram. Em dado momento da obra é afirmado por Slash que Axl certamente possui outra visão/versão para os mesmos fatos vivenciados conjuntamente nos áureos tempos do GN’R.

A partir de agora serão esmiuçados os fatos que dizem respeito à relação de Slash com seus ex-companheiros de Guns N’ Roses, cheia de especulações por muitos dos fãs da banda.

Já no início do livro, Slash dá uma declaração que enaltece o baterista Steven Adler, expulso do grupo em 1990 em plena gravação do disco duplo "Use Your Illusion" por excesso de drogas. Slash afirma que deve tudo em sua carreira a Adler, que conheceu na escola aos 13 anos (1978). “É graças a ele que toco guitarra”, revela o músico, para quem o ex-baterista do GN’R “é o tipo de desajustado que apenas uma avó pode amar, mas com quem não pode conviver”. Ele conta que de início ouvia junto de Adler o grupo Van Halen, pelo qual ficou fascinado com os solos de guitarra de Eddie Van Halen, em “Eruption”.

Slash descreve as confusões colegiais tidas ao lado do colega que, segundo ele, dava muita importância principalmente aos grupos Kiss, Boston e Queen. Já para o guitarrista, os anos 60 e 70 foram a época “mais criativa do rock and roll”. Slash confessa que o disco "Rocks", do Aerosmith, o influenciaria sobremaneira, através das primeiras notas de “Back In The Saddle”.

Do apelido dado pelo ator Seymour Cassel, Slash admite não ter vocação para a liderança. “Basicamente, não tenho a personalidade para ser um líder de tipo algum”, entrega. Isso, obviamente, é suscitado porque anos depois muitas brigas de comando ocorreriam com o colega Axl Rose. Ele diz também que sempre procura ver o melhor das pessoas, não importando o defeito delas. No decorrer da obra, Slash afirma que tentou prosseguir com o GN’R mesmo "enfrentando" o polêmico vocalista.

Em seguida diz que é “indigno de ouvir” o movimento punk de Los Angeles, ao contrário da cena vista em Londres e Nova Iorque. A partir dali descreve como conheceu Izzy Stradlin e Duff McKagan; este último com quem possui até hoje estreitos laços de amizade, ao ponto de ter formado o Velvet Revolver no começo dos anos 2000.

Na sequencia é mostrada a transição entre os grupos seminais L.A. Guns e Hollywood Rose, pelos quais os membros fundadores do GN’R passariam – Slash, Duff e Steven pelo primeiro e Axl e Izzy pelo segundo. Neste trecho da obra o guitarrista conta como conheceu “o melhor cantor de Hollywood naqueles tempos” (Axl).

No capítulo 5 (“Azarões”), Slash descreve uma peculiar característica do guitarrista-base Izzy Stradlin. Ao mencionar a mudança do segundo guitarrista do Hollywood Rose – a demissão de Chris Webber sem o consentimento de Izzy –, ele afirma entender a personalidade do futuro ex-colega de guitarras no GN’R. “Agora sei que sair em disparada é o mecanismo de defesa de Izzy quando acha que as coisas não estão muito bem: ele nunca faz estardalhaço em torno disso, apenas sai e não olha para trás”. Tais palavras de Slash explicariam a atitude de Stradlin ao deixar o Guns em 1991 sem maiores explicações.

Por sinal, a debandada de Izzy intriga e entristece até hoje os fãs ardorosos da formação clássica do GN’R. Nesta visão, pode-se concluir que no período em que o Guns mudou seus padrões com a saída de Steven e a inclusão de teclados e metais na banda, o então guitarrista-base abandonou o barco por discordar dos rumos ora tomados por todos.

Slash recorda que se tornou “realmente bom amigo” de Axl durante o período em que o vocalista morou com a família Hudson. Para ele, os traços típicos de Rose são de uma pessoa “sensível, introspectiva e que passava por acentuadas mudanças de humor”. Por esta descrição, Slash justificaria muitas atitudes futuras e consideradas por ele como erradas.

Para Slash, o traço de personalidade "baderneiro" de Axl os unia, “desde que não prejudicasse o profissionalismo”. Entretanto, a característica reincidente do vocalista em causar atrasos nos shows e discórdias quanto ao futuro da banda após o lançamento do disco de covers "The Spaguetti Incident" (em 1993) o descontentaria profundamente.

Entre tiradas ao grupo Poison e citações à grande influência do Hanoi Rocks e do New York Dolls, Slash lembra que Axl tivera envolvimento com uma ex-namorada sua de nome Yvonne possivelmente em 1984. “Durante um dos períodos em que resolvemos dar um tempo no relacionamento, Axl transou com ela. Fiquei contrariado à beça”, confidencia o guitarrista. Portanto, a futura ‘birra’ dos dois tem raízes mais profundas do que se imaginava.

Slash ainda conta como foi a entrada no Guns N’ Roses e que via na figura de Izzy um “amortecedor” em relação ao frontman da banda. “Axl e eu nos entendíamos bem de várias maneiras, mas tínhamos diferenças inatas de personalidade”, reforçou o guitarrista. Neste instante, ele reitera que o grupo era único em suas características e realizava um sonho profissional. “Não havia nem um pouco da típica atmosfera existente em Los Angeles, na qual a meta era obter um contrato para um disco. Não existia preocupação em relação às poses apropriadas ou refrões babacas de apelo comercial que poderiam levar ao sucesso nas paradas”, classificou.

O guitarrista explica que em seu início o Guns N’ Roses se assemelhava a uma gangue, pois se reunia para fins específicos e possuia comportamento delinquente e antissocial, ao ponto de não aceitar críticas de ninguém, nem dos próprios colegas. Muito da autodestruição da banda pode ser vista nesta menção à personalidade explosiva de cada um dos integrantes.

“Eu nunca havia estado numa banda em que músicas que achava tão inspiradoras fluíam tão naturalmente”, enalteceu Slash, a respeito dos primeiros passos da banda, incluindo série de shows e composição. Algo relevante que se pode concluir pelas palavras do guitarrista – e que seria reforçado mais adiante no livro – é que a dissolução do GN’R está intimamente ligada ao rompimento do processo de criação/composição das músicas com o passar dos anos. Ou seja, cada vez mais os músicos se distanciaram com a expansão e descaracterização da banda iniciada em meados dos anos 80.

Após explicações sobre as negociações com empresários no início da carreira e de como odiavam as bandas chamadas de glam de Los Angeles, Slash cita que Axl começava a adquirir a reputação de “genioso” e que podia “subir nas tamancas a qualquer momento”. A seguir traz informações a respeito de como notou “algo diferente” em Steven, pelo uso de heroína, além da passagem em que Axl conhece Dizzy Reed, então integrante da banda Wild e que depois se juntaria ao GN’R para implantar teclados e maior complexidade ao grupo.

Fora a acusação conjunta com Axl de estupro de uma garota, Slash menciona o primeiro contrato com gravadora (Geffen Records), em 1986. A partir dali, com a entrada do empresário Tom Zutaut, o grupo começaria uma guinada, vindo a se autodestruir no decorrer do tempo. “Deixáramos de ser mais um bando de desordeiros sem nada a perder, passando a ser desordeiros com apoio corporativo”, considerou o guitarrista.

Além disso, Slash recorda como os membros da banda conheceram o músico West Arkeen, que os apresentou “as sutilezas da pureza da cocaína”. Por ironia do destino, depois de colaborações com o GN’R no começo dos anos 90, Arkeen morreria de overdose da mesma droga. A criatividade latente dos músicos era tão grande no período inicial, que a letra do petardo “Mr. Brownstone”, que fala de um dia da vida deles na época, foi escrita em um saco de papel de mercearia.

Depois Slash assumiria ter adotado uma postura “arrogante” com o músico Paul Stanley (do Kiss), durante um curto tempo em que o consagrado músico de cara pintada esteve metido com os bastidores da banda. Isso demonstra uma autocrítica do guitarrista, importante ao se contar histórias tão controversas e discutidas quanto as vividas no GN’R.

“O estilo de vida ligado às drogas era uma realidade dominante para nós e desempenhava papel principal em tudo o que fazíamos àquela altura”, detalha Slash, sobre o momento compreendido entre o fechamento de contrato com a Geffen e a gravação do álbum "Appetite For Destruction", que deu o ‘start’ para a primeira turnê da banda.

O guitarrista atribui os efeitos dos entorpecentes como ‘inspiradores’ para alguns dos membros do grupo. “Quando acontecia de conseguirmos a droga, Izzy e eu compúnhamos um bocado porque, naquela época, a heroína era um grande catalisador para nós”, relata. “Tão logo ficávamos altos, Izzy e eu começávamos a tocar de improviso e a trabalhar em nossas ideias, criando riffs para lá e para cá”, acrescenta Slash.

Dessa forma, depois que Stradlin deixou de utilizar drogas e houve a sua saída do Guns em 1991, a criatividade nas guitarras do GN’R nunca mais seria a mesma. Tanto é que nenhuma música inédita seria lançada pelo mesmo grupo após o lançamento dos discos "Use Your Illusion I" e "Use Your Illusion II". Nesse ponto, a falta de produção da banda quanto às guitarras nada tem a ver com Axl.

Depois viria a entrada do empresário Alan Niven, que tinha no currículo a intermediação do contrato dos Sex Pistols com a EMI. Em seguida, o GN’R lançaria o EP "Live Like a Suicide". Em tal época, Slash enfrentava o vício da heroína, extremamente mal visto por Axl. “Ela é o diabo. E tão atraente e sedutora que transforma uma pessoa num demônio desonesto e traiçoeiro. Ser um viciado é algo parecido com o que imaginamos que seja um vampiro”, descreve o guitarrista. O inconveniente das drogas e também do álcool, por parte de Slash, é sempre citado por Axl como um dos fatores de distanciamento dos dois.

Em determinado momento, Slash conta que ele, Duff e Izzy eram os “ratos de esgoto”, porque saíam para inúmeros clubes e bares ,ao contrário de Axl, que sempre foi mais “sofisticado” e não costumava “apagar” como os três durantes as baladas devido à mistura explosiva de álcool e drogas.

Também em várias partes do livro, Slash desmistifica algo aparente para muitas pessoas, que acreditam que após o tecladista Dizzy Reed ingressar na banda e Steven dar lugar à bateria de Matt Sorum, o Guns produziu músicas menos pesadas, registradas nos álbuns duplos "Use Your Illusion". Canções como “Dont Cry” e “November Rain”, entre outras, começaram a ser compostas e ensaiadas ainda na época do seminal "Appetite For Destruction". “You Could Be Mine”, “Dead Horse” e a cover para “Knockin’ On Heaven’s Door” são também do mesmo periodo, apenas para se ter ideia da complexidade da história e da sonoridade do GN’R.

Em seguida Slash explica a passagem trágica em que viu o melhor amigo morrer em seus braços devido a uma overdose de drogas. O guitarrista narra que mesmo sendo a pessoa que tentou salvar o camarada, acabou se tornando vilão na visão da família do jovem falecido.

O lançamento de "Appetite For Destruction", no dia 21 de julho de 1987, é um marco no livro. Slash descreve como a banda passou de uma incógnita adorada pelo underground de Los Angeles a um sucesso internacional. Da turnê com o The Cult à rápida relação com o Metallica, Slash conta que a “camaradagem” era grande quando o álbum começou a ser assimilado pela crítica e o público. Ele credita a falta do companheirismo ao término da formação clássica da banda.

Aí vieram os shows de abertura para o Aerosmith na Europa e finalmente o grupo se tornou o principal de uma turnê. Mesmo aparentando apego a Izzy, Slash não deixa de, em dado instante, criticar o colega de guitarra. “Izzy era o Grande Instigador. Era capaz de semear a discórdia sem se envolver”, dispara, citando desentendimentos com uma pessoa com a qual conviveram na época. Tudo isso no capítulo “Com o Pé na Estrada”.

Em outubro de 87 a banda encerrara a turnê de AFD e, na visão de Slash, estava se solidificando cada vez mais. A razão era a sintonia com Izzy nas guitarras, a de Duff e Steven compondo a dupla do ritmo e Axl com sua grande energia. Na sequencia vieram as primeiras aparições na recém-criada MTV.

“Foi a nossa primeira exposição de verdade, penetrando lentamente na consciência coletiva”, classifica o guitarrista. A seguir a trajetória do Guns inclui shows de abertura nos Estados Unidos para o grupo Mötley Crue, que Slash considera como “a única banda de Los Angeles que surgiu do cenário do glam rock que era 100% autêntica”. Aliás, muita farra seria registrada na companhia de Nikki e Tommy.

E haveria ainda apresentações na companhia de ninguém menos que Alice Cooper. Entretanto, é nesta ocasião que Axl causaria um imenso constrangimento aos quatro colegas de banda. O vocalista optou por ir depois dos companheiros em um carro com a namorada, ignorando a opinião contrária do empresário e dos músicos da banda. Slash, Izzy, Duff e Steven esperaram até o último instante e tiveram de subir ao palco sem a presença de Axl. Além de terem de improvisar músicas cover enquanto o vocalista não aparecia, os componentes do GN’R chegaram ao ponto de perguntar se havia algum cantor disponível na plateia. “Acabamos insultando o público e atirando coisas nele. Foi ridículo”, avaliou o guitarrista, sem ‘meias palavras’. Depois que Axl não apareceu, os demais músicos do grupo deixaram o palco e voltaram para Hollywood. “Tão putos da vida que só falávamos em chutar Axl da banda ainda naquela noite e procurar outro vocalista”, conta Slash. Ele faz alusão, surpreendentemente, ao tanto de vezes que a possível expulsão do vocalista foi cogitada.

“O assunto de demitirmos Axl surgiu umas seis vezes, completamente a sério, durante o ciclo de vida da banda”, revelou Slash. Na sequencia ele relata que, no caso citado acima, o vocalista ainda agiu como se nada de errado tivesse provocado. “O espantoso em Axl é que ele não entendia, em situações como aquela, que havia feito algo errado, não se mancava”, criticou.

Slash ainda filosofa ao tentar descrever o controverso colega de banda. “Existem certos protocolos que Axl não segue. Uma vez que não habita o mesmo espaço mental que as outras pessoas, as normas aceitáveis não lhe ocorrem”, aponta o guitarrista. “Axl é super-inteligente e, ainda assim, vive num lugar onde a lógica que governa outras pessoas não se aplica. Não se dá conta do inconveniente que suas escolhas podem ser para os outros”, emenda Slash. Tal consideração pelo colega explicaria muito dali em diante...

O percurso do Guns N’ Roses traria a seguir shows de abertura para o Iron Maiden em 1988. O próprio Slash comentaria sobre o inusitado: “Não ficamos assim tão empolgados com a ideia, uma vez que não achávamos que formávamos a combinação perfeita”, admite. O guitarrista mostrou respeito aos ingleses, mas não os isentou de críticas. Ao dizer que o álbum "Seventh Son f a Seventh Son" fora um grande sucesso, Slash ridiculariza a apresentação de palco do Maiden. E ainda lembra de um ‘chilique’ de Axl que culminaria em uma “inquietante tensão” entre as bandas.

O guitarrista passa então a citar novos deslizes do vocalista, como ausências propositais em shows e reuniões da banda. Slash não perdoou o colega: “Falta de consideração de Axl”. Em seguida, após o cancelamento de parte da turnê em que estavam, os membros do GN’R partiriam para abrir apresentações do então renascido Aerosmith.

O poderio alcançado pelo Guns, mesmo com as intempéries de Axl, pode ser medido por algumas palavras de Slash. “Estava claro que, apesar dos sucessos do Aerosmith nas rádios, logo nós nos tornamos a atração principal. Aconteceu muito depressa, graças à exibição constante da MTV de “Sweet Child O’ Mine”, disse o guitarrista, sem falsa modéstia. Tanto é verdade que um jornalista da Rolling Stone havia sido designado para fazer uma reportagem de capa sobre o Aerosmith, mas depois de observar a reação do público e vendo o GN’R tocar ao vivo, optou por colocá-los no lugar do grupo de Tyler e Perry.

Foi nesta turnê de 1988 que o Guns assistiria a duas pessoas morrerem pisoteadas no festival Monsters Of Rock, em Castle Donnington (Inglaterra). “Axl parou o show algumas vezes num esforço para controlar a multidão, mas não havia como acalmá-la”, descreveu o guitarrista.

O ponto a que o GN’R chegara assustava Slash. “A verdade é que o que sempre quisemos fazer foi ficar acima das bandas idiotas de ‘hair metal’, que desfrutam sucesso não merecido por sua existência medíocre”, atacou. “Mas, antes que me desse conta, foi onde aterrissamos quase da noite para o dia”, ponderou. O sucesso alcançava países como Austrália, Nova Zelândia e até o Japão, onde Slash disse ter tido um “tremendo choque cultural”.

A fama beirava o auge, tanto que Slash contou ter realizado um sonho: comprou uma guitarra Les Paul de 1959 de Joe Perry, a mesma que o guitarrista do Aerosmith usava em um pôster que ele tinha na parede de seu quarto quando criança. Depois o músico ainda relataria que a Les Paul faria uma guitarra em sua homenagem – a “Slash Signature” –, réplica de uma comprada por ele, modelo Standard, em 1988. “Levando em conta que fizeram o mesmo por Jimmy Page (do Led Zeppelin), sinto-me honrado”, considerou.

Já em 1989, Slash se dera conta de que aquela motivação incentivadora do Guns N’ Roses em se tornar “a banda mais perigosa do planeta” não existia mais. “A necessidade de sobreviver não era mais uma motivação”, afirmou. A monotonia da cena de Hollywood ‘forçou’ Slash a se refugiar mais intensamente na heroína, por exatos dois anos – até 1991. “Eu buscava algum lugar obscuro”, confidenciou.

Os efeitos, para ele, ‘nocivos’ da fama, seriam sentidos cada vez mais. “Não tinha aspirações materiais em absoluto. Nunca me importara com posses. De repente, porém, todos à minha volta começaram a se preocupar muito com isso”, assinalou Slash.

Àquela altura, os componentes do grupo estavam se distanciando, tanto pelo cansaço das excêntricas turnês quanto pelo acirramento das diferenças sobre os rumos. “As únicas mensagens que recebi deles chegaram oficialmente através da direção na pessoa de Doug Goldstein, que falava sempre com Axl”, detalhou Slash.

O guitarrista aponta que teria de compor e despertar o interesse de Axl para atraí-lo caso todos quisessem ser uma banda outra vez. Mas na ocasião, Slash e principalmente Izzy estavam muito envolvidos com drogas. Só que, com a intervenção de Axl e Slash, o guitarrista-base foi resgatado pelo próprio pai e desde então ficou ‘limpo’ – tem estado até hoje.

De acordo com o guitarrista, ainda assim os integrantes da banda deram um jeito de se reunirem para compor as músicas do álbum sucessor de G N’ R Lies, lançado em 29 de novembro de 1989 com gravações acústicas somadas às do EP "Live ! Like a Suicide". “Estávamos conseguindo compor alguma coisa, criando alguns riffs daqui e algumas partes de músicas dali. Quando estávamos trabalhando, nós nos concentrávamos, mas nunca conseguíamos completar nenhuma de nossas ideias sem todos os integrantes da banda juntos”, descreve Slash.

Conforme explicou o guitarrista, naquele momento todos voltaram a estar concentrados, mas lhes faltara habilidade no que se refere a trabalhar em equipe – até mesmo por não mais viverem e andarem sempre juntos, como nos primórdios do grupo, quando todos se interdependiam para a própria sobrevivência. “Havia a vontade, mas faltava disciplina”, resume Slash.

Os excessos com álcool por parte de Slash e Duff incomodavam Izzy naquele instante. “Tenho certeza de que Axl tinha seus motivos para fazer as coisas a seu jeito também”, admite o guitarrista-solo. “Mas não existia diálogo sobre todas essas questões e, como consequencia, havia sérios mal-entendidos”, ponderou Slash. “Em vez de elaborarmos um método novo para resolvermos nossas questões, todos os problemas foram virando uma grande bola de neve”, acrescentou. Isso sim, como o leitor virá até o final, ocasionaria o fim da banda como o mundo conheceu.

Slash explica que o grupo se tornara “disperso” e a dinâmica foi embora. “Não era culpa de ninguém, fizemos o melhor que pudemos”, isentou. “Éramos uma banda fora de controle com algum resquício de inteireza que perdera a habilidade de canalizar tudo de maneira adequada. Simplesmente não falávamos a mesma língua”, sintetizou o guitarrista. Por sinal, tal explicação é mais adequada do que alguns meramente dizerem que Axl deliberadamente ‘acabou’ com a banda. “Todos acabamos sendo omissos”, acusa Slash, para quem faltava comunicação entre os integrantes.

O guitarrista descreve que o cenário de rock de Chicago – onde vivia àquele instante junto de Duff – era bem diferente do de Los Angeles. “Era 1990 e o lugar girava em torno do estilo de música metal industrial de bandas como Ministry e Nine Inch Nails”, abreviou. Como vários anos mais tarde ficaria evidente, Axl captaria tais influências para tentar produzir o ‘novo som’ do GN’R – depois da saída de todos os “originais”, só ocorreria em novembro de 2008 o lançamento do tão esperado "Chinese Democracy".

“O clima entre nós era sombrio demais e não conduzia à verdadeira criatividade”, analisou Slash, sobre o período de composição que antecedeu os álbuns "Illusions". O guitarrista contou que Axl tivera ataques de quebradeira, que descontentaram a Izzy. Mesmo assim Slash admite falha na época: “Quem sabe se tivéssemos ouvido o que ele queria fazer e sido um pouco mais cooperativos Axl não tivesse entrado em parafuso daquele jeito”, reflete.

Slash descreve Axl como portador de um “ar amargurado” aparentemente oriundo de um estado depressivo. Mas o guitarrista frisou que estava mais preocupado com Steven naquele momento. “Andava abusando demais da cocaína e seu desempenho pagava o pato”, elucidou o colega dos tempos de escola. “Compreendi que o caso de Steven se tornava cada vez mais irremediável”, delineou Slash.

O estado de tensão do grupo era grande. “O Guns era uma banda que poderia romper a qualquer segundo”, analisou Slash. O próprio guitarrista destaca no livro que o nível criativo do GN’R caiu drasticamente. “Até Use Your Illusions I e II, o Guns escreveu músicas de uma maneira: a banda começava com uma ideia que qualquer um de nós podia ter tido e, então, todos colaboravam”, esmiuçou o guitarrista. Para Slash, em 1990 o grupo já havia perdido essa inspiração coletiva para produzir. E pelos anos seguintes apenas se arrastou para chegar ao próprio fim.

“Axl e eu tínhamos uma interessante espécie de relação de amor e ódio, sempre tivemos”, especificou Slash. O modus operandi do Guns N’ Roses ruiu e não mais retornou, com Axl mais e mais distante dos demais membros, que também não se confraternizavam da mesma forma que antes. “A tendência de Axl de se comunicar através da direção prosseguiu quando ele retornou de Chicago (para Los Angeles) até os meus últimos dias na banda”, expôs Slash.

Até mesmo a relação com Izzy não ia bem para o guitarrista-solo. Slash o deixou furioso ao passar pelo apartamento do colega e deixar marcas de sangue quando injetou drogas antes de ir para o velório da própria avó, que morrera e o deixou emocionalmente abalado. “(Izzy) Tinha toda razão para estar possesso”, admitiu Slash. “Hoje, analisando esses acontecimentos, percebo como eu era insano e autodestrutivo, mas naqueles tempos não me dava conta disso”, emendou.

O guitarrista ilustra que não fossem alguns shows agendados para abrir para o Rolling Stones o Guns talvez tivesse sido morto pela ‘inércia’. Mas naquele instante Slash teve um pico do uso de drogas, obrigando a própria mãe a orientá-lo a ligar para David Bowie – um antigo conhecido dela – para receber conselhos do experiente músico. A situação se agravou quando Axl implicou com os colegas Steven e Slash pelo uso de heroína. “Há gente demais entre nós dançando com ‘Mr. Brownstone’”, disse o vocalista durante o primeiro show de abertura aos Stones.

Ainda assim Axl aceitou realizar os demais shows, que foram um lampejo de felicidade aos californianos de criação. “Os Stones nos assistiram as quatro noites, segundo eu soube, porque nós os fazíamos lembrar de si mesmos no começo da carreira”, enalteceu Slash. Entretanto, o guitarrista e o baterista da banda se encontravam, segundo o próprio Slash, ‘no fundo do poço’. “Axl teve toda a razão de impor suas condições. Aquele tipo de existência simplesmente não podia dar certo no nível em que estávamos. Quando se é prisioneiro da heroína, a vida não gira mais em torno da música. Eu me esquecera disso”, lastima.

Slash menciona que, devido à empolgação em cantar junto dos Stones, Adler até se sentiu motivado a querer a recuperação do vício em drogas. O próprio guitarrista foi aconselhado a se afastar da badalação da banda em Los Angeles e ficar num resort de golfe no Arizona para melhorar. No entanto, houve apenas o isolamento, porque Slash levaria coca e heroína suficientes para alguns dias.

O resultado não poderia ser outro; acabou causando um grande tumulto ao esmurrar um espelho na busca por atingir ‘animais’ que o perseguiam, em pura alucinação. Slash acabara pisando nos cacos e, sangrando, correu nu pelo estabelecimento de recreação, ocasionando um verdadeiro alvoroço. O episódio quase custou uma prisão ao guitarrista, que regressou à Califórnia.

Assim que voltou, Slash sofreu uma “intervenção” por um ‘comitê’ formado por várias pessoas envolvidas com o GN’R. No entanto, o guitarrista se disse irado com a presença de Adler no mesmo grupo, porque ele também estava extremamente viciado. “Era ridículo que Steven fizesse parte do comitê, porque ele precisava de reabilitação tanto quanto eu, senão mais. Encarei-o com um único pensamento: hipócrita”, disparou Slash. O que se sucedeu foi uma internação mal-sucedida numa clínica em Tucson.

No decorrer do livro Slash reitera que a fragmentação da amizade dos integrantes do Guns ocasionou o fim do grupo como todos conheciam. “Quando começamos a banda, nosso futuro dependia de nossa união forte e espontânea. Nossa atitude gerou uma leal camaradagem entre nós que é muito rara de se ver por aí. O sucesso acabou por fragmentar esse elo ao nos dar aquilo que queríamos e muito do que não precisávamos – tudo de uma só vez”, filosofou o guitarrista. “A sensação era de que havíamos nos esquecido de como fora divertido sermos nós”, completou. Frases como estas resumem muito da razão para o término do GN’R.

A história da banda traria ainda fatos como Slash substituir a heroína pela bebida alcoólica. Ele se unira intimamente ao baixista Duff para compor, mas continuava com preocupação a respeito de Adler. “Nosso caro Steven tornara-se um viciado compulsivo em drogas e achava-se num estado de completa negação. Ele nunca amadureceu para além daquelas fantasias do primeiro grau em torno do rock and roll, nem mesmo quando o risco de perdê-las estava bem diante de si”, analisa Slash.

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O guitarrista garante que os membros da banda tentaram auxiliar o baterista a deixar os entorpecentes. “Fizemos o que pudemos para tentar colocá-lo de volta nos eixos, mas não se podia dizer nada a Steven”, explica. Izzy, Slash e Steven tiveram problemas sérios com cocaína e heroína, mas a diferença é que os dois primeiros conseguiram se recuperar. Seguidas internações do baterista não deram certo. “Steven escapou de clínicas de reabilitação 22 vezes”, enumerou Slash, para se ter noção do esforço feito.

À exceção do baterista, o Guns N’ Roses se uniu novamente, por um breve instante, suficiente para criar novas canções e trabalhar em composições existentes que iriam para os Illusions. “Naqueles momentos, a antiga energia voltava e tudo ficava excitante, elétrico”, lembra Slash. O guitarrista enumera como quase todas as músicas do álbum duplo de 1991 foram trabalhadas, num verdadeiro deleite aos gunners.

Naquele instante houve um lampejo de união dos membros da banda. “Ficou claro que, tão logo reservamos um minuto e deixamos toda a besteira de lado, que nos reunimos sem hostilidade, recobramos a vibração, a química da banda”, descreveu Slash, em um tom também de autocrítica. É na gravação dos "Illusions" que se reforçariam as diferenças depois irremediáveis entre os integrantes da banda. O guitarrista mostra descontentamento com a conduta de Axl em todo o processo.

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Sobre Igor Hidalgo

Igor Hidalgo, 26, é jornalista em Nova Odessa, região de Campinas/SP.

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3Metallica
4Black Sabbath
5Megadeth
6Ozzy Osbourne
7Kiss
8Led Zeppelin
9Slayer
10AC/DC
11Angra
12Sepultura
13Dream Theater
14Judas Priest
15Van Halen

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