Shaman: Histórico e emocionante no show de São Paulo

Resenha - Shaman (Audio, São Paulo, 22/09/2018)

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Por Hugo Alves
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Histórico e emocionante! Essas duas palavras definem com exatidão o show realizado pelo Shaman, reunido com sua formação original pela primeira vez em doze anos, no dia 22 de Setembro de 2018, um Sábado a ser guardado com carinho e olhos marejados por todos os presentes - incluindo (e, talvez, principalmente) os próprios membros da banda.

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Foi lindo ver o engajamento do público, num misto de nostalgia por parte dos muito presentes que tiveram a oportunidade de acompanhar a banda de perto entre 2001 e 2006 e realização por parte dos muitos outros que, assim como eu, por um motivo ou por outro, não tiveram a mesma sorte. O Audio estava lotado até a boca por uma plateia barulhenta e comportada (não houve indícios ou notícias de qualquer tipo de problema entre o público), além de muito atenta a tudo. Aliás, eu não me lembrava da qualidade deste lugar - a única vez que eu pisei lá foi em 2014 -, mas foi lindo ver um palco grande, espaçoso para toda a parafernalha técnica da banda (incluindo um muito bem-vindo piano de cauda), com um telão que apresentou vídeos introdutórios nas duas partes do show, fora que o som da casa é absurdamente bom (apesar de estar demasiadamente alto em alguns momentos - mas é melhor muito alto do que muito baixo, não é mesmo?).

A banda foi pontual e, após um vídeo mostrando imagens das eras pré-Ritual e Ritual, a banda entrou arrebentando tudo às 21 horas com "Turn Away" e, ali, os fãs mais xiitas já sabiam que o segundo disco da banda seria tocado primeiro e em sua totalidade. Veio o primeiro momento emocionante do show com a faixa-título deste disco - "Reason" - e não há quem não se emocione com a melodia da guitarra e da voz desse número. Inclusive esse foi um show de arrancar muitas, mas muitas lágrimas de vários presentes (incluindo este que vós escreve, fã confesso de toda a banda e pupilo declarado e indireto de Andre Matos como cantor). O famoso cover que a banda fez para The Sisters of Mercy, "More" foi o terceiro número, seguindo à risca a cartilha e fazendo todos os presentes cantarem com vontade e punhos erguidos. Mas o Shaman sempre foi uma banda que misturou peso e emotividade em suas canções em doses inacreditavelmente certeiras, e foi estarrecedor - no melhor sentido da palavra - ver e ouvir tanta gente cantar "Innocence" tão alto. Ali, já era muito fácil começar a se perguntar se eles ficaram realmente tanto tempo sem tocar juntos, tamanho o entrosamento. Mas é claro, estamos falando de músicos competentíssimos e que não alcançaram a fama e a importância no Metal mundial à toa, e "Scarred Forever" foi mais uma prova disso - pra mim, um dos refrões mais deliciosos do catálogo total de cada músico ali presente!

A segunda metade do "Reason" tem canções um pouco mais reflexivas e o show deu uma acalmada - mas que fique bem claro que, em nenhum momento, isso significou queda de qualidade. Inclusive foi bom acalmar um pouco, aquele momento no qual você para e presta atenção, fotografa o momento com a memória e comprova que os membros deram tudo o que tinham neste show e pra trazer aquele que foi seguramente o maior fenômeno do Metal nacional (prevejo detratores e reclamões nos comentários) de volta para eles mesmos e para nós, fãs saudosistas e emocionados. "In the Night" e "Rough Stone" foram os momentos mais introspectivos de todo o show, mas não menos emocionantes - os mais xiitas que o digam: cantamos tais refrões tão fortemente quanto todas as outras. "Iron Soul", por sua vez, trouxe de volta o peso e a velocidade tão característicos do gênero praticado por toda a banda, quer seja juntos, quer seja em outras empreitadas. "Trail of Tears" deve ser a canção mais Power do "Reason" e a casa voltou a pegar fogo, somente para dar lugar à canção menos executada ao vivo por esta formação do Shaman, e que considero como a mais progressiva deles: "Born to be", preferida de muitos e executada à beira da perfeição, dando encerramento à primeira parte do show que, por sinal, não teve nenhuma comunicação da banda para com os fãs, foi bastante reta e competente, acredito que até pelo clima mais intimista do álbum executado.

Uma segunda leva de vídeos, desta vez focando no processo de composição e gravação do "Reason" foi exibido no telão de fundo - e é claro que todos adoramos isso! Mas a catarse da longa intro "Ancient Winds" foi não menos que absurda! Os "ô ô ô" acompanhando a melodia suave e sentimental desta peça não deixaram absolutamente nada a dever ao DVD "RituAlive" (muitos, incluindo eu mesmo, se sentiram meio que dentro daquele show histórico a partir dali). Sou um defensor explícito do segundo disco do Shaman (que nem todo mundo curtiu na época e alguns ainda hoje o atacam), mas tenho o bom senso de saber que o que realmente fez o Shaman significar o que significa para tantos foi mesmo seu disco de estreia, então é meio que chover no molhado dizer que a segunda parte do show foi consideravelmente mais incendiária que a primeira - e foi uma decisão muitíssimo acertada da banda inverter a ordem dos discos, eles amam seus trabalhos mas sabem medir a força e o apelo de cada um. Obviamente, "Here I Am" veio e a "destruição" começou em suas vias de fato. O volume das vozes de quase 3.000 pessoas que lotaram a casa era muito absurdo a partir dali, e ficou ainda mais louco com a chegada de "Distant Thunder" - minha música favorita em todo o catálogo do Shaman, e forte candidata a canção mais cativante dentre as mais pesadas. Eu sempre vou destacar Hugo Mariutti aqui. Já ouvi muito fã xiita de outros guitarristas brasileiros deturparem drasticamente a imagem e o talento dele, mas a verdade é que eu nunca ouvi no Metal nacional bases tão sólidas e solos tão técnicos sem em nenhum momento perder a carga pesadíssima de feeling que ele sempre emprega naquilo que faz, e esta canção, pra mim, é a prova máxima disso!

Mas nem só de peso e feeling vive o já mais que clássico primeiro disco do Shaman - existem ali verdadeiros hinos do Metal nacional, e Andre Matos sacou de uma flauta ainda mais bonita que a usada no DVD para a execução de "For Tomorrow". Jesus, não ouvi a voz do cara (mentira, nos agudos ela se fez bastante audível mas, no geral, os vocalistas foram mesmo os fãs que encobriram a banda). Que momento, meus amigos, que momento! E, mesmo com o fim da canção, o coração de cada um ali não parava de ser posto à prova, pois só aquela introdução maravilhosa de "Time Will Come" já faz muitos olhos lacrimejarem fortemente. Que refrão, caros headbangers, que refrão! Bem, passada a primeira metade do disco, o coraçãozinho já começava a ficar do tamanho de um amendoim, pois todos sabíamos que o show já começava a se encaminhar para seu último quarto e, portanto, logo terminaria. Mas havia ainda muito o que tocar e emocionar, e Ricardo Confessori e Luis Mariutti provaram - se é que ainda precisam provar alguma coisa - porque foram e ainda são considerados como uma das melhores "cozinhas" do Metal mundial, já que "Over Your Head" é o tipo de música pra se mostrar mesmo.

Mas me digam, caros leitores: quem estava preparado para ver Andre Matos sentar ao piano, executar um solo de piano (que até poderia ter durado um pouco mais), dar lugar ao canto lírico mais marcante do Metal nacional e executar "Fairy Tale"? Claro que todos sabíamos que isso viria, mas essa canção é simplesmente a cereja em cima do bolo que foi o momento mais bonito do Metal nacional, ela tem uma representatividade enorme e marcou a vida de pelo menos duas gerações: a que já era fã dos músicos antes que a banda fosse formada e a que se tornou fã a partir dali. Nem preciso dizer o que foi esse momento - na verdade, simplesmente não há palavras suficientes pra dizer o que foi esse momento. Se eu chorei? Nossa, eu chorei muito. Eu estava extremamente feliz. Eu queria tanto que isso acontecesse e, de repente, eu era de novo um menino de 13 anos e estava ali, realizando meu sonho de ver o Shaman tocando todas as canções de seus dois discos. Isso não é pouca coisa, não!

Logo veio "Blind Spell", que foi bastante curtida e celebrada, mas não mais que "Ritual", e ali Andre Matos deu aula. Eu mesmo confesso que fui ao show consciente de que não veria o cara conseguir cantar tudo do jeito que foi gravado - até porque ele deve ser o vocalista que mais vezes eu vi cantar, que tenha sido com o Viper ou (mais quantitativamente) em sua carreira solo, e já o vi em dias não tão bons assim, o que é normal, o instrumento do cara está no corpo dele e a idade vai chegando e desafiando, normal -, mas mordi a língua e nem liguei: ele cantou tudo com uma competência absurda, e em nada deveu às gravações e performances da época. É lógico que havia muita vontade, felicidade e emoção em sua performance, mas havia também o cara que ostentou por anos - talvez ainda ostente - o título de maior vocalista brasileiro. Não é pra qualquer um.

A setlist do show cumpriu o prometido e não trouxe nenhuma novidade - e, a despeito de ter uma parcela meio "sem-noção" que começou a pedir "Carry on", pedido graças a Deus não atendido e nem mesmo comentado pela banda - mas "Pride" é uma canção gravada em dueto. Andre disse à plateia que Tobias Sammet mandou um telegrama (?!) dizendo que não poderia comparecer e, para surpresa geral, trouxe Bruno Sutter (o Detonator do Massacration e uma das grandes vozes do nosso país) para ter a honra de coroar este momento ímpar e dividir os vocais nesta canção - a surpresa se deu porque, originalmente, Sutter participaria somente do show no dia seguinte. Foi peso, foi melodia, foi pedal duplo, foi baixo cavalgado, foi solo rápido, tudo junto e misturado ao mesmo tempo naqueles quase quatro minutos que encerraram uma apresentação espetacular.

Finalmente, ver os caras se abraçando ao fim do show, rindo e interagindo com tanta leveza demonstrou ter havido mesmo muita humildade e perdão entre eles e, sem isso, certamente o Shaman não teria feito este show nem teria outras datas marcadas até o final do ano. Andre Matos fez, inclusive, um discurso diferente daquele oriundo de outra reunião em sua carreira: foi algo no sentido de "nunca diga nunca". É fato que ele - nem a banda - quis se comprometer com promessas a longo prazo mas, na verdade, ficou claro que as portas para um retorno definitivo, com direito a gravações de novas canções/ novos discos e uma solidificação desse renascimento da formação clássica da banda estão praticamente escancaradas. É difícil para um fã apaixonado, ainda que tentando manter os pés no chão, não criar expectativas, então explicito: aposto minhas fichas que o Shaman voltou para ficar. Seja como for, foi um show incrível, emocionante e que deve ser assistido pelo máximo de pessoas possível (e vou "puxar a sardinha" pra minha cidade: tragam este show para Sorocaba/ SP, pelo amor de Deus!). Mais do que nunca, terminarei esta resenha com o jargão com o qual costumeiramente finalizo minhas resenhas de shows, e acho que nunca antes eu disse isso com tanta vontade: VIDA LONGA AO SHAMAN!!!

Shaman é:

Andre Matos (voz, piano, teclado, flauta)
Hugo Mariutti (guitarra, violão, voz de apoio)
Fabio Ribeiro (teclados)
Luis Mariutti (baixo)
Ricardo Confessori (bateria)

Setlist:

01. Turn Away
02. Reason
03. More (cover de The Sisters of Mercy)
04. Innocence
05. Scarred Forever
06. In the Night
07. Rough Stone
08. Iron Soul
09. Trail of Tears
10. Born to be
Ancient Winds
11. Here I Am
12. Distant Thunder
13. For Tomorrow
14. Time Will Come
15. Over Your Head
Solo de piano
16. Fairy Tale
17. Blind Spell
18. Ritual
19. Pride


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Sobre Hugo Alves

Hugo Alves é formado em Letras (Português and Inglês) pela UNISO - Universidade de Sorocaba e futuro mestrando em Literatura ou Semiótica. Começou a escutar Rock aos 11 anos com "Bring Me to Life" do Evanescence, mas o que o tomou para sempre para o Rock and Roll foi "Fear of the Dark" (versão ao vivo no Rock in Rio), do Iron Maiden, banda que, ao lado de The Beatles, considera como favorita, amando quase que igualmente os sons de Viper, Angra, Shaman, Andre Matos, Rush, Black Sabbath, Metallica, etc. Foi vocalista das bandas Holygator e Bad Trip, iniciantes em Sorocaba/ SP, e também toca guitarra e baixo. Outra de suas paixões é a Literatura, pela qual desenvolveu o gosto pela escrita e comunicação.

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