ThorhammerFest: a segunda noite do festival em São Paulo

Resenha - ThorhammerFest (Clube Piratininga, São Paulo, 01/05/2018)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

As memórias continuam muito vivas. E é por isso que continuamos aqui a falar sobre o ThorHammerFest, que teve sua edição de 2018 acontecendo no Clube Piratininga, em São Paulo, nos dias 30 de abril e primeiro de maio. Não deixe de conferir como foi a primeira noite de festival no link abaixo. Todas as fotos são de Cláudio Higa.

ThorhammerFest: a primeira noite da roda de samba sueca em SP

FUTHARK

As atividades do segundo dia de ThorHammerFest começaram às 15h30, com a FUTHARK. Com a cultura escandinava até no nome [o conjunto de runas que constitui o alfabeto escandinavo] e muito estilo, a banda de Guarapuava, Paraná, fez um excelente trabalho de abrir as portas para tudo o que viria mais tarde, com um apanhado de canções próprias e covers de grandes nomes do folk metal e viking metal. Com relativamente pouco tempo de estrada, os paranaenses fizeram um bom trabalho, mesclando suas principais influências, tanto celtas quanto vikings (e prestando tributo a cada uma delas). Em termos de técnica, João Wünsch (Acordeon/Flautas/vocais), Pedro Wünsch (Guitarra/Backing vocals), Mateus Gechele (Guitarra/vocais), Maria Helena Wünsch (Baixo/Backing vocals) e Felipe Raul Rachelle (Bateria/vocais) mandaram muito bem.

Setlist:
1 - When The Trolls Leave The Stones
2 - Wanderer (Amon Amarth)
3 - Land of Freedom
4 - Thousandfold (Eluveitie)
5 - The Mad King
6 - Inis Mona (Eluveitie)
7 - Trollhammaren (Finntroll)
8 - In The Forest
9 - Vodka (Korpiklaani)

TAMUYA THRASH TRIBE

Bem humorados, os cariocas da TAMUYA THRASH TRIBE tinham a missão de mostrar o folk metal brasileiro em meio a tantas outras bandas que se baseiam no folk metal europeu. E não decepcionaram. O som, apesar de realmente não deixar de ser uma banda de Thrash Metal, tem forte influência indígena, com percussão na forma de atabaques e chocalhos . Ora, eles fizeram questão de lembrar que em terras tupiniquins, o Deus do Trovão atende pelo nome de Tupã. E Tupã, que estava na casa de Thor, que por sua vez estava no país de Tupã, se deram muito bem. E a confraternização, regada a cervejas no chifre ou cachaça no coco, foi geral. A banda carioca, formada por Luciano Vassan (guitarra e voz), Leonardo Emanoel (guitarra), João Paulo Mugrabi (baixo), Bruno Rabello (bateria) e Paula Perez (percussão) apresentou principalmente canções de "The last of the Guaranis", seu álbum mais recente. A canção que dá nome ao álbum é de arrepiar. A que dá nome à banda também é impactante.

Mas a TAMUYA não se restringe à mistura Thrash-Indígena. "Violence and Blood" remete ao Manguebeat de Chico Science e NAÇAO ZUMBI, enquanto "Senzala/Favela" alerta contra a intolerância a religões de matriz africana. E quem nunca acreditou que veria um solo de atabaque num festival de metal ou que o público bateria cabeça ao som de música com elementos indígenas ou africanos pode constatar que fizera um erro de avaliação.

O TTT Não chega a ser tão folk, no sentido da palavra, quanto ARANDU ARAKUAA ou THUPI NAMBA (as cores Thrash Metal ainda são muito fortes), tampouco são exatamente uma novidade (o SEPULTURA já fez há muito tempo) mas é uma ótima mescla da temática com o som e um grande acerto de escalação pela organização do festival para lembrar a pluralidade (e responsabilidade) que o nome folk dá ao metal. Enquanto bandas como a finlandesa TURISAS, listam o nosso SEPULTURA como uma das bandas pioneiras no Folk Metal (leia entrevista no link abaixo), já está mais que na hora de mais bandas como a TAMUYA THRASH TRIBE abraçarem o estilo e fortificarem o folk metal genuinamente brasileiro.

Turisas: Sepultura foi pioneiro do Folk-Metal

1 - The Voice of Nhanderú (VoN)
2 - Uti Possideti
3 - The Last of the Guaranis
4 - Tamuya
5 - Violence in Blood
6 - Senzala/Favela
7 - Imortal King

EINHER SKALD

Como nuestros hermanos de Argentina são o povo mais europeu das Américas, a EIHER SKALD parece e soa tanto com uma banda sueca quanto qualquer outra originária mesmo do Velho Mundo. O som que eles fazem é um metal brutal, mas com espaço para um violino. E é realmente incrível como eles conseguiram mesmo encaixar o violino na parede de som. O violinista Franco Filippi não apenas intervem pontualmente, mas participa ativamente da construção da melodia da banda.

E tanto o baixista Francisco Spina (codinome: Gunnar Gunthwulf) canta, quanto os guitarristas Lucas Esteban Pampin (codinome: Hrothgar Langurskegg) e Roderick Radulfrson. Estes, vez ou outra, cantam partes significativas das letras, cada um com sua voz, uma mais gutural, outra mais gritada. A banda foi uma grande surpresa com canções que pareciam hinos vikings, empolgando com seu material. Uma pena que não tenham trazido merchandising.

Setlist:
1 - Burning Shore
2 - Battle at Midgard
3 -The last howl of the Wyrd
4 - Fylfot
5 - Mud and Blood
6 - Raise your Horns
7 - Drinking in Valhalla

ARMORED DAWN

Unica banda paulistana do cast, a "aurora de armadura" ocupou lugar de destaque no festival. Formada por Eduardo Parras (vocal), Timo Kaarkoski e Tiago de Moura (guitarra), Tiago Giovanetti (baixo), Rodrigo Oliveira (bateria) e Rafael Agostino (teclado) a banda já chega empunhando a espada e fazendo o público acompanhar os heys de "Bloodstone". Eduardo Parras conseguiu reunir uma turma de músicos fenomenais e o conjunto até foi capaz de fomentar a primeira roda de mosh do festival, ao som de "Chance to Live Again", que também tem um belíssimo solo de guitarra. Temos que lembrar que o trabalho de iluminação do palco também estava muito bonito.

Eduardo fez questão de ressaltar que estavam voltando da Europa, onde tinham ido divulgar o metal brasileiro. E uma das canções que deve ter tocado por lá foi "Men of Odin". Os oooo da canção parecem mesmo ter sido feitos de propósito pra fazer o povo cantar em coro. "Sail Away", que foi cantada junto pelo público, foi dedicada a um produtor que falecera recentemente num acidente de moto. "Essa vai em homenagem a ele e a quem perdeu pessoas queridas", disse Eduardo.

Como não poderia deixar de ser, "Barbarians in Black", que batiza o segundo álbum da banda, lançado pela gravadora alemã AFM, é outro ponto alto da apresentação, enquanto "Beware of The Dragon", uma das melhores composições da banda, foi a responsável por fechar o show.

Setlist:
1 - Bloodstone
2 - Chance to Live Again
3 - Eyes Behind the Crow
4 - Men of Odin
5 - Survivor
6 - Sail Away
7 - Gods of Metal
8 - Barbarians in Black
9 - Beware of the Dragon

BLOT

Quem via Ruben Gentékos e Bengt Orstad (guitarra), Jan Åge Lindeland (vocal), Stig Reinhardtsen (bateria) ou Osvald Egeland (baixo) circulando pelo salão do Piratininga até poderia sacar que eram alguns dos gringos que tocariam no festival, mas talvez jamais pudesse ter noção da poderosa carga dramática que eles apresentariam no palco. A norueguesa BLOT só tem um álbum na carreira, o seminal "Ilddyrking", nenhum EP e está trabalhando em seu segundo disco. Logo, este álbum foi o que mais forneceu canções para o repertório do show. E sua canção título é também a que abre a apresentação.

Com muita energia e belo trabalho de guitarras, eles chegam manchados de vermelho, como se tivessem acabado uma batalha. E durante o show, eles passam a força da ancestralidade nórdica, crescem no palco. E até a conversa de Jan com o público entre uma canção e outra é em gutural. "Vocês estão prontos para mais Black Metal". Apesar de serem frequentemente classificados como Black Metal e usarem muitas das características do Black Metal em suas canções, principalmente no gritado da voz e nas guitarras, eles não usam corpse paint. Não precisam. Os guerreiros vindos da pequena comuna de Kristiansand estão mais vivos do que nunca. Mortos estão aqueles que eles deixaram esfolados no chão.

Quem esteve no show também teve a oportunidade de conferir canções novas, como "I takt", que tem um belo solo. E na de riffs rápidos, quase Thrash, "Fimbulwinter", Jan orgulhosamente fala do SEPULTURA, confessando ser tão fã da banda brasileira que tem até uma tatuagem.

E o ThorHammerFest também é oportunidade para aprender e saber mais sobre a cultura do mundo. Rapidamente pudemos reconhecer os sons diferentes em "God of War" como vindos de uma "gaita judia" (ou berimbau de boca, que lá pela Noruega talvez receba outros nomes), apresentada na noite anterior pelo VILSEVIND. Jan também contou que esta foi a primeira canção que escreveram. Se foi a primeira que escreveram e já saiu assim, estão de parabéns.

Na canção que dá nome à banda, "Blot", o vocalista também brincou um pouco. Viemos da Noruega, 20 horas de vôo pra tocar pra vocês. Mas está muito quente. Precisamos de mais neve". E reconheceu que a plateia também estava enérgica. Ora, mesmo sem jamais ter ouvido as duas últimas canções (afinal, eram novas e ainda não tinham sido lançadas oficialmente), o público respondia ou com hey, hey, heys ou com punhos para o ar. Tudo espontaneamente. Nesta noite, o número de fãs da BLOT certamente aumentou.

Setlist:
1 - Ilddyrking
2 - Chains Forever Unbound
3 - Sound of the Horde
4 - I Takt
4 - Fimbulwinter
5 - God of War
6 - Death to All
7 - Blot
8 - Dead
9 - Skull of Ruslende

MANEGARM

A hora do segundo encontro com o MANEGARM chegou. Mais uma vez, Erik Grawsio (vocal e baixo), Jakob Hallegren (bateria), Markus Andé e Tobias Rydsheim (guitarras) e Martin Bjorklund (violino) subiram ao palco do THORHAMMERFEST, desta vez para um show mais, digamos, convencional. Agora nada de clima de roda em volta da fogueira sob a luz da fria suécia, agora o metal é quem comandaria. E a batalha começou com a emocionante "Blodhorn". Aí todo cansaço se acaba. Todo o público parece rejuvenescido ao som do metal viking. Lembremos que, apesar da pontualidade e até mesmo da agilidade da organização do festival (haviam até duas baterias no palco, o que agilizava as trocas de banda), festival é festival. E no segundo dia, na última banda, já era de se esperar que o público desse uma amornada. Que nada. Todo mundo cantava junto, mesmo em sueco, canções como "Tagen av Daga" e "Fimbultrollet".

Erik, sempre simpático ainda brincou falando sobre a cerveja grátis que tem nas companhias aéreas britânicas. "O que é uma viagem sem cerveja de graça?. E se eu falei que o público cantava junto com a banda, corrijo aqui a afirmação. O público cantava junto até depois da banda. Mesmo depois do fim de "Sons of War", o pessoal continuava cantando, o que deixou Erik bastante contente. "Vocês aprenderam mesmo minhas letras". E, claro, como estão lançando sua própria cerveja, não titubearam e fizeram merchandise da dita.

"I Evig Tid" também botou o povo pra pular, mas o destaque aqui é o violino tocado lindamente por Martin Bjornklund. A toalha usada e jogada ao público causou um princípio de invasão de Lindesfarm no meio do Piratining. E enquanto ajeitava alguma coisa um dos guitarrista brincou: "sei falar português: água com gás". No melhor estilo Viking Metal como AMON AMARTH, vem a ótima "Call of the Runes", seguida de "Odin Owns Ye All". Esta música é uma verdadeira jam. Por isso ocupa lugar de destaque.

No entanto, tudo tem que acabar. E resta esperar a edição 2019 do ThorHammerFest, mas não sem antes ouvir a linda "Hemfard". Com parte calma e oooo. Se o MANEGARM fosse banda de estádio poderia ser essa a hora da "noite estrelada", quando os fãs ligam as lanternas de seus celulares e o show é mais nas arquibancadas que no próprio palco. "Vocês foram realmente maravilhosos", exclama Erik, "mas, depois dessa não adianta gritar one more song [mais uma música] porque não temos mais, mas podemos tomar uma cerveja com vocês". O quinteto até extendeu o final. Não queriam sair do palco. E os fãs não querem ir embora.

É provável que o MANEGARM não volte para o THF2019. Há muitas outras bandas na Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca para a Berserker buscar para o Brasil e um revezamento é sempre saudável. Mas se alguém for louco o suficiente de reclamar da overdose de MANEGARM em 2018, já pode ser jogado ao mar.

E pra quem não aguentar esperar até 2019, em breve publicaremos aqui as nossas entrevistas com BLOT e MANEGARM.

Setlist:
1 - Blodorn
2 - Tagen av daga
3 - Fimbultrollet
4 - Kraft
5 - Sons of war
6 - Nattsjal Dromsjal
7 - Hordes od Hell
8 - Vedergallningens Tid
9 - I Evig Tid
10 - Call of the Runes
11 - Odin Owns Ye All
12 - Hemfard

Errata:

Na matéria sobre o primeiro dia, chamamos o DUO ARCANUM várias vezes de Duo Arkanum. Que fique clara a grafia correta do nome da banda.

Agradecimentos:

Novamente à Berserker Produções, especialmente Cecil Berserker, pela atenção e credenciamento.
Cláudio Higa, pelas imagens que ilustram esta matéria.
Marialva Lima (OnStage) e Jani Santana (Imprensa do Rock) pela parceria na cobertura do evento.




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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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