Noturnall, Alírio Netto e LaBrie: um show que valeu por um festival

Resenha - Noturnall, Alírio Netto e LaBrie (Teatro Porto Seguro, São Paulo, 24/04/2018)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Fotos: Fábio Augusto

Logo que a NOTURNALL anunciou o show desta quarta-feira, 24, no Teatro Porto Seguro com Alírio Netto, os ingressos começaram a voar. E diante da confirmação de tantos convidados de peso (principalmente dos membros do ANGRA e do vocalista do DREAM THEATER James LaBrie) aí já não tinha mais jeito. Os músicos tiveram que marcar uma data extra em São Paulo, o sábado 21, no Manifesto pois os ingressos no Teatro Porto Seguro esgotaram. Fomos ao show e pudemos conferir o encontro de três grandes vocalistas, Thiago Biachi, da própria NOTURNALL, Alírio Netto (solo, QUEEN ESTRAVAGANZA, ex-KHALLICE e ex-AGE OF ARTEMIS) e James LaBrie (DREAM THEATER). Confira abaixo como foi o show.

Foi uma noite de encontros, mas foi também uma noite de celebração. Recém chamado por ninguém menos que Bryan May e Roger Taylor para comandar o QUEEN EXTRAVAGANZA (se vermos o QUEEN como uma empresa, a "extravagância da rainha" é como se fosse a mais importante de suas filiais, depois da matriz), o cantor resolveu gravar seu primeiro DVD, comemorando 25 anos de carreira e chamou amigos que participaram de toda sua trajetória. Acompanhado pelos instrumentistas da NOTURNALL, Juninho Carelli (teclados), Fernando Quesada (baixo), Henrique Pucci (bateria) e Bruno Henrique (guitarra), ele começou cantando uma da ópera rock "Jesus Cristo Superstar", ópera-rock de Andrew Lloyd Webber que reconta com muita música a Paixão de Cristo. Em seguida, o cantor-ator que já foi tanto Judas, quanto Jesus, em diferentes montagens completas da peça partiu para o single que lançou recentemente, "Back To The Light". Na música, além da voz de Alírio sobressaem-se os teclados de Carelli e o solo de guitarra.

Contando sobre o prazer de dividir o palco com os músicos do NOTURNALL, Alírio revelou que a ideia começou de uma brincadeira com Quesada, quem sabe fazendo um show acústico. Bem mais que isso, o show, apesar de ser em um ambiente extremamente controlado, tinha toda a potência de um show de rock. E continuando a celebração da carreira de Alírio, o próximo convidado é Giovanni Sena, para tocar "Thruth In Your Eyes", da AGE OF ARTEMIS. Outro convidado ilustre foi Marcelo Barbosa, do ALMAH e atualmente no posto de Kiko Loureiro no ANGRA. Chamado por Alírio de seu padrinho, mestre de aconselhamento e "irmão que eu escolhi", Marcelo participou de "Reasons", do KHALLICE.

O próximo momento é realmente mais intimista, mas agora com a cantora e atriz Lívia Dabarian, esposa de Alírio. Além dela, Leo Mancini, ex-guitarrista da NOTURNALL também participa. A canção é "Who Wants To Live Forever", do QUEEN e o público não se contém no "Why Love Must Die", quando o cantor mostra por que Adam Lambert tem que fazer muita hora-extra pra não perder o emprego. Lívia não deixa barato e, momentos depois, mostra quem manda em casa. E no palco.

Agora sozinho no piano, que prometeu um dia aprender a tocar ("enquanto eu não aprendo vocês vão ter que lidar com Isso aqui mesmo"), Alírio emocionou o público com "Take Me Home" (da AGE OF ARTEMIS), Retrato (de seu álbum solo "João de Deus" e fechou o medley com "Black Hole Sun", do SOUNDGARDEN, numa homenagem a Chris Cornell, arrancando gritos da plateia.

Mas um dos momentos mais esperados pelo público viria a seguir. "Queria agradecer ao Fábio Lionel que me cedeu a banda dele", brincou ALÍRIO. É a hora em que o ANGRA quase completo, sem Lione, mas com Carelli no teclado, toca "Make Believe". Por alguns poucos minutos, apresenta-se no palco do Teatro Porto Seguro a formação que todo mundo pensou que seria o ANGRA quando Edu Falaschi deixou a banda. O show, realmente curto para um DVD terminou recebendo Adriano Daga, da MALTA e novamente Marcelo Barbosa para mais uma do QUEEN, "The Show Must Go On".

Embora o entra e sai de convidados tenha sido extremamente ágil, mesmo quando havia troca de bateristas (e foram três trocas), o intervalo entre os dois momentos do show, quando Alírio passou o bastão para a própria NOTURNAL bem que poderia ser melhor. Os sons de zumbis não combinam muito com o fogo que "queimava" projetado na cortina do palco. Era visível que o público já estava se cansando.

Mas tudo isso deixou de ter importância quando a NOTURNAL oficialmente esteve no palco (com Thiago Bianchi e não apenas como banda de apoio de Alírio). Mais teatral, com pole dancers no palco, a banda começou com "No Turn At All". Quesada até parecia mais animado, afinal, agora estava mais em casa. E enquanto Tiago impressiona com a voz, as meninas impressionam com a performance. É também a hora do primeiro número de mágica dos que foram prometidos para a noite, com uma enorme estrutura metálica e Carelli amarrado (imagino que a estrutura só possa ter sido usada naquele show e em outros teatros na própria São Paulo - não é possível que viagem com aquilo). Não convém dar muitos detalhes, pois vai estar no DVD, mas dá para adiantar que Carelli disse "quase morri nessa porra". Então vocês podem ir imaginando como foi.

"Tá rolando um belo show de boteco hoje. Foi bom ver esses convidados com o Alírio, uma estrela em ascensão no mundo", declarou Thiago. E explicou sobre as performances de contorcionismo das "zumbis" e números de mágica. "É uma celebração não só de música, mas da arte. Quisemos botar todo tipo de arte". E completou: "É o primeiro show de metal desse teatro. Quero que vocês gritem o mais alto que puderem porque não é pra eles nunca mais esquecerem o que é um show de Heavy Metal".

Depois das duas "Zombies", de "Wake Up" e "Fight the System", Thiago revelou que começou a escrever uma carta de despedida quando achou que ia morrer (em 2016 o cantor chegou a ficar em coma induzido em uma UTI com um grave problema de saúde). "A letra da música é o que estava escrito na carta", concluiu antes de começar a marcante "Moving On".

Carelli com sanfona e Quesada no violão preparam-se para o próximo momento. "Quero que vocês recebam esse cara que nós amamos de coração. Uma pena que por conflitos de agenda não possamos tocar sempre juntos, mas sempre que a gente puder a gente quer tocar com ele". O convidado é Leo Mancini, também com violão e muito aplaudido.

Dedicada às crianças do GRAACC, "Hearts As One" é uma das melhores canções da NOTURNAL e, por isso, não foi surpresa o público ter cantado junto. O beijo na careca de Mancini dá a certeza de que a saída do guitarrista foi mesmo na completa amizade.

Mais números de mágica (uma menina só com a cintura pra baixo andando antecedem "Mysterious", Quesada com um casaco que lhe permitiu cair a cabeça - mas não deu muito certo e ele teve que correr pra tirar), mais contorcionismo e "Sugar Pill". Mas o que realmente conta é o progmetal da banda, os incríveis solos de Carelli, as quebradas, as viradas...

Mais um momento de mágica lembra o Kuato, do Vingador do Futuro. E, claro, Henrique Pucci é muito melhor como baterista do que como ator. As invenções de Aquiles Priester em "Noturnall Human Side" são reproduzidas com perfeição. A força do que o Aquiles criou continua presente na bateria. E mais uma surpresa: Alírio Netto sai de uma jaula pra fazer o papel que, em estúdio, foi desempenhado por Russel Allen (ADRENALINE MOB/SYMPHONY X).

Mas ainda faltava algo para coroar a noite. A entrada de James LaBrie também teria que ser impactando. E ele chega vestido de, sei lá, monstro marinho. Logo tira a fantasia e divide "Hey" com Bianchi. Claro, a NOTURNAL é bem mais recente que o DREAM THEATER, com uma menor discografia e muito mais caminho a percorrer, mas, para aquela noite, os caras não ficaram atrás dos músicos que normalmente acompanham o canadense.

"Esta semana eu tenho ficado com esses caras e ganhei cinco novos irmãos. Estou muito feliz de ter sido chamado", declarou LaBrie antes de explicar que cantaria uma canção inspirada no filme "Um Sonho de Liberdade", "Jekyll and Hyde". Engraçado que, apesar de ser da carreira solo de LaBrie, a canção tem elementos que a fariam caber perfeitamente na discografia do DT. Tem peso, muito teclado e guitarras.

Sobre a seguinte, LaBrie avisou que queria tocar uma do "Scenes From a Memory" que o DREAM THEATER não tem tocado. E realmente, desde dezembro de 2005, quando tocava o SFAM na íntegra, a banda não toca esta canção. LaBrie propôs como desafio à NOTURNAL e eles aceitaram.

O momento final do show foi realmente a cereja do bolo, com os três vocalistas cantando o clássico dos clássicos do DREAM THEATER, "Pull Me Under". É um daqueles momentos que acontecem uma vez na vida e ficamos felizes de poder presenciar. Claro que é sempre bom ouvir LaBrie cantando a canção, mas os dois brasileiros disputaram com ele de igual pra igual. E se depender de Alírio Netto, pelo menos, não é só o Adam Lambert que tem que cuidar muito bem do próprio emprego.

O conjunto de apresentações, com números de mágica e outros elementos de freak-show a la ALICE COOPER certamente resultarão em uma obra tão agradável de se ver no sofá da sala (de preferência com uma boa cerveja do lado), quanto foi no luxuoso Teatro Porto Seguro. Thiago Bianchi, vocalista da NOTURNALL, não precisava provar que estava em pé de igualdade com o já mundialmente famoso LaBrie, nem com o conterrâneo Alírio. Mas tanto na parte do show apenas da NOTURNALL quanto quando recebeu a participação dos colegas, sua atuação empolgou os fãs. E como a banda tem fãs em São Paulo. Afinal, não é qualquer banda que lota um teatro em plena região central em plena terça-feira à noite. De fato, é realmente o maior nome do prog metal brasileiro na atualidade.

O show terminou um pouco antes da meia-noite, o que é muito importante, principalmente numa terça-feira. Talvez pudesse ter sido abreviado (os números de mágica impressionavam às vezes, mas outras vezes acabavam quebrando o ritmo do show), talvez LaBrie pudesse ter cantado mais alguma (em Campo Grande, por exemplo, ele cantou mais uma da carreira solo e outras duas do "Scenes..."), mas ficará na memória pela quantidade incomum de grandes nomes que passaram pelo palco, algo difícil de se repetir, a não ser em um grande festival. Também ficará marcado pelo extremo profissionalismo da banda (o mundo podia estar acabando no backstage, mas no palco o que eles queriam fazer - e faziam - era levar alegria e emoção a quem lotou o teatro para vê-los). O resultado desse trabalho, os dois DVDs gravados, serão duas obras imperdíveis. Já estamos ansiosos pra ver.

Agradecimentos:
Thiago Rahal Mauro, TRM Press, pela atenção e credenciamento.
Fábio Augusto, pelas imagens que ilustram essa matéria.

Setlist

Alirio Netto

1. Jesus Christ Superstar suite
2. Back to the Light
3. Truth In Your Eyes (Age of Artemis cover)
4. Spiritual Jorney (Khallice)
5. Who Wants to Live Forever (Queen, com Lívia Dabarian)
6. Take Me Home (Age of Artemis) / Retrato / Black Hole Sun (Soundgarden)
7. Make Believe (Angra, com o ANGRA, sem Fabio Lione)
8. The Show Must Go On (Queen, com Lívia Dabarian)

Noturnall

1. No Turn At All
2. Zombies / Zombies (The Holy Trinity)
3. Wake Up
4. Fight The System
5. Moving On
6. Hearts As One (com Leo Mancini)
7. Mysterious
8. Sugar Pill
9. Nocturnal Human Side (com Alirio Netto)
10. Hey! (com James LaBrie)

James LaBrie (com Noturnall)

1. Jekyll or Hyde
2. Through Her Eyes (Dream Theater)
3. Pull Me Under (Dream Theater, também com Alírio Netto)

Confira abaixo mais fotos do show (todas de Fábio Augusto):




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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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