John Mayer: a busca por tudo em São Paulo
Resenha - John Mayer (Allianz Parque, São Paulo, 18/10/2017)
Por Fernando Yokota
Postado em 20 de outubro de 2017
Em recente entrevista para a revista Rolling Stone, JOHN MAYER disse que teve 31 anos por oito anos e de repente se viu com 39 (Mayer acabou de completar 40 anos). Não é difícil ver como isso transborda em seu álbum novo, The Search For Everything, e consequentemente em seu show ao vivo.
Mesmo após dois verões excursionando com o Dead & Company (a banda dos ex-integrantes do GRATEFUL DEAD), o show do americano pouco tem de um set de jam band, pois é planejado e executado com precisão, ao contrário do jeitão laissez faire dos lendários veteranos.
Um episódio de câncer na garganta, os benefícios da cultura canábica (incorporados pelo músico há algum tempo), turnês com o Dead e o odômetro virando para a casa dos 40 trazem ao Brasil um JOHN MAYER que aparenta estar mais sereno e menos "vida loka". Na mesma entrevsista à Rolling Stone, ele diz não se sentir mais na obrigação de virar os potenciômetros no talo e esmerilhar a escala da guitarra, mas é só vê-lo ao vivo que se constata que o prazer de fritar as válvulas e fazer a guitarra gritar sobreviveram à nova fase do cantor.
Helpless, do trabalho novo, abre a noite com a banda completa de Mayer, e já em Moving On Getting Over é perceptível como as músicas de The Search For Everything se aproveitam do elemento orgânico da execução ao vivo, ganhando o corpo extra que talvez falte na versão de estúdio. A segunda parte do show, acústica, tem como destaque o sucesso Daughters e a primeira execução de Free Fallin' por parte de Mayer desde o falecimento de Tom Petty.
No entanto, é no terceiro capítulo da apresentação que as coisas ficam realmente interessantes, com o set do John Mayer Trio, completado pela pesada cozinha formada pelos fabulosos Pino Palladino (a quem, por vários anos, coube a tarefa de substituir John Entwistle no THE WHO) e Steve Jordan (que já trabalhou com meio mundo, incluindo Keith Richards, Eric Clapton e Buddy Guy, para citar apenas três).
Mayer, o popstar, se transforma num evangelizador da palavra do blues e solta standards como Everyday I Have The Blues e Crossroads Blues de ROBERT JOHNSON, quase como os pais que mandam os filhos comerem verdura caso queiram o sorvete de sobremesa. Com uma guitarra Charvel meio surrada nas mãos, o cantor e compositor encarna o guitarrista de forma integral e por quatro ou cinco músicas põe para fora o fanboy de STEVIE RAY VAUGHAN, ERIC CLAPTON e JIMI HENDRIX que existe dentro dele. Os timbres cristalinos e comportados das baladas radiofônicas dão lugar ao urro nasalado da parede de centenas de milhares de dólares em amplificadores que o acompanha. Flertando com a heresia, a mera imagem de ver uma Fender Stratocaster sunburst toda ralada sendo fritada num estádio de futebol é tentação demais para não ver Mayer/Palladino/Jordan e pensar no que seria Vaughan/Shannon/Layton naquele palco.
O subversivo cavalo de Troia do delta do Mississippi no repertório do show parece ainda servir como um respiro para Mayer, um momento em que ele pode simplesmente ser o moleque que resolveu largar os estudos em Berklee para tocar guitarra na Georgia. Ao invés de se expor nas letras geralmente autobiográficas, os velhos e gastos blues batidos servem de descarrego emocional e também como momento de descontração performática por se tratar de uma situação em trio, em que as peças podem se mover musicalmente mais soltas. Definitivamente, de todas as versões de si que apresenta no show, a blueseira ainda é a que lhe cai melhor e mais naturalmente.
A apresentação ainda conta com um quarto momento, provavelmente o mais aguardado pelos fãs, em que a banda completa volta ao palco e é reservado para grandes sucessos, com destaque para Waiting On The World To Change e o ápice em Gravity (carregada de influência de Lenny de STEVIE RAY VAUGHAN) , num belo momento em que as luzes do palco são apagadas para que o estádio seja iluminado por milhares de telefones celulares.
Acompanhado por músicos talentosíssimos e do timbre de guitarra mais bonito de 2017 em solo brasileiro, JOHN MAYER mostrou em duas horas como ele tenta equilibrar lados diferentes de uma carreira atirando para os dois lados. Entre o caminho atual da discografia, mais comercial, e o legado "guitarreiro", Mayer se vê desobrigado da escolha de Sofia e abraça ambos. A busca, diria ele mesmo, é por tudo.
A banda:
John Mayer: voz, guitarra, violão, gaita
Steve Jordan: bateria, percussão
Pino Palladino: baixo
David Ryan Harris: guitarra, violão, voz em Slow Dancing In A Burning Room
Isaiah Sharkey: guitarra
Larry Goldings: teclados
Tiffany Palmer: voz
Carlos Ricketts: voz
Setlist:
Capítulo 1: banda completa
Helpless
Moving On Getting Over
Something Like Olivia
Changing
Why Georgia / No Such Thing
Capítulo 2: acústico
Emoji Of A Wave
Daughters
Free Fallin'
Chapter 3: John Mayer Trio
Everyday I Have The Blues
Who Did You Think I Was
Crossrodas
Vultures
Parte 4:: banda completa
Queen Of California (com direito a uma bizarra tentativa de sarrada)
In The Blood
Slow Dancing
Who Says
Dear Marie
Bis:
Waiting On The World To Change
Gravity










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