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Amon Amarth: show quase não acontece, mas é um sucesso

Resenha - Amon Amarth (Complexo Armazém, Fortaleza, 03/06/2017)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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AMON AMARTH, um dos maiores nomes do metal extremo hoje, dedicou uma generosa turnê ao Brasil. Os Vikings fizeram em solo brasileiro nada menos que nove shows, invadindo cidades do norte ao sul do país, levando um pouco de toda a selvageria dos nórdicos para Limeira, Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Manaus e, finalmente, Fortaleza e Recife. E vieram acompanhados pelos vizinhos noruegueses da banda que leva o nome do ex-líder do IMMORTAL, o ABBATH. Em Fortaleza, o show foi no Complexo Armazém, casa normalmente dedicada ao forró, mas que já botou muito camisa preta pra balançar a cabeça ao som de bandas como OBITUARY, CANNIBAL CORPSE, TESTAMENT, CAVALERA CONSPIRACY e KRISIUN, só para citar os mais pesados. A produção do show foi da Liberation, com apoio local da Gallery Productions.

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ABBATH

15 minutos de atraso, o que é muito pouco quando compara-se a outros shows que acontecem em Fortaleza, foi o que provavelmente fez com que o show já começasse com a lenha queimando, sem música do Conan, nem marcha romana, como em outras praças. Primeiro posicionam-se, sob muitos gritos do público, King ov Hell (ex-GORGOROTH), empunhando seu baixo, o guitarrista Ole André Farstad e o baterista Creature e já começam "To War". Depois entra a figura mítica de Abbath Doom Occulta, com os gritos ecoando ainda mais alto. E no meio da música o público corresponde com heys, ao chamamento para a guerra. Os heys continuaram, enquanto o quarteto apresentava canções do auto-intitulado primeiro álbum do ABBATH, a banda, que recebe o nome de seu fundador e figura mais ilustre. Seguem-se "Winterbane" e "Ashes of The Damned". Em meio à grande parede sonora criada pelas guitarras de Abbath e Ole, o som do baixo de King ov Hell ainda conseguia ganhar destaque. Principalmente em "Warriors", do I, super grupo do qual tanto Abbath quanto King ov Hell fizeram parte.

No entanto, acostumados às gélidas regiões da Escandinávia, um aspecto presente também nas letras, os músicos encontraram uma Fortaleza em uma de suas noites mais quentes, tanto que o batera, Creature, dispensou a máscara a la Unnamed Ghoul que costuma usar e tocou apenas de corpse paint. É, Fortaleza não brinca.

Adiante, o público respondeu aos grunidos ininteligíveis de Abbath. Apenas chuto porque não dava mesmo pra entender, mas ele devia estar provavelmente perguntando se queríamos ouvir IMMORTAL. E começou o mini-"show" com canções da banda que o fez mais conhecido no mundo, representada ali por um de seus terços mais icônicos.

Para os padrões de um show de Black Metal, o som estava excelente. E o público ia à loucura com os sucessos do grupo norueguês. "In My Kingdom Cold", "Tyrants", para muitos, era um sonho sendo realizado. Com os heys do público, Abbath chegou a sinalizar para a banda para mantivesse os riffs cadenciados um pouco mais. E até para para reger o público. Gritos apaixonados receberam cada um dos clássicos do IMMORTAL, e não poderia ser diferente com "Nebular Ravens Winter", que termina com um "ensaio" da tal dancinha do siri.

A rápida "Count The Dead" destoou um pouco das demais. Não por ser ruim ou por ser da carreira solo, mas por ser um tanto mais direta que as outras e ficar mesmo meio perdida naquela parte do show que, aquela altura deixara de ser um show do ABBATH e transformara-se num show do IMMORTAL. No entanto, logo após "One by One", a seguinte, alguém da produção vai ao palco e fala algo no ouvido de Abbath. A banda inteira sai do palco sem se despedir, deixando o público incrédulo.

Apenas uma música foi cortada do set, "All Shall Fall", que já seria curto (muito curto mesmo para abranger material de três bandas, IMMORTAL, I e do próprio ABBATH), mas a forma abrupta como o show terminou deixou um gosto amargo na boca dos fãs. Esperar que músicas como "Solarfall" ou a longa "Withstand the Fall of Time", do IMMORTAL, ou até mesmo "Fenrir Hunts", do disco do ABBATH fizessem parte do repertório da noite seria esperar demais, mas uma despedida mais calorosa pra quem os tinha recebido tão bem soaria melhor. Quem foi ao Armazém principalmente para ver o IMMORTAL (mesmo sabendo de antemão que seria apenas um show pequeno) ficou decepcionado. Nos resta esperar que Olve Eikemo volte a Fortaleza para shows de no mínimo hora e meia.

Nota: a situação, como soubemos depois, era muito mais grave. Felizmente, ambas as produtoras, Liberation e Gallery, conseguiram contornar o problema e evitar um prejuízo ainda mais amargo. Saiba mais na matéria abaixo.

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AMON AMARTH

Durante a intro, o backdrop fica vermelho, um efeito criado com as luzes, também vermelhas, dos holofotes incidindo sobre ele. É o vermelho do sangue da batalha que vai começar. Os nórdicos Olavi Mikkonen, Ted Lundström, Johan Söderberg, Jocke Wallgren invadem o palco. E logo o seu líder, Johan Hegg, de chifre na cintura, também chega. Ainda sobre o backdrop, infelizmente o palco do Armazém não é tão alto, o que fez com que a imensa figura do jomsviking ficasse quase escondida atrás do baterista Jocke.

E se o primeiro show foi mais contemplativo, agora todo mundo pula ao som de "The Pursuit of Vikings". E com todos pulando na plateia, a banda inteira bangueia.

O show prossegue com "As Loke Falls". É impressionante como a canção, do penúltimo disco apenas, já é um clássico, com seus lindos riffs e melodias.

E o gigante Johan, alto até diante de seu bando, fica sozinho no palco e começa seu discurso em bom e claro português. "Boa noite, Fortaleza. Bem vindos à nossa festa viking". De tanto falar o discurso (esta é penúltima apresentação de uma longuíssima incursão em terras brasileiras), Johan já fala quase sem sotaque. Daqui a pouco ele solta um "e aí, magote de felas da gaita", dá pra pensar. Óbvio que quando as palavras que decorara acabaram ele foi pro inglês. "Vocês estão preparados para "First Kill"? É a deixa para uma das canções mais NWOBHM do Death Metal. Uma canção que parece também, por sua letra, um episódio da série Vikings, do History Channel. "O primeiro homem que eu matei, era o braço direito do 'earl'", diz a letra.

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A empolgante canção é seguida de outra não menos empolgante "The Way of Vikings", que traz na letra a citação aos Jomsvikings, os vikings mercenários de Jomsborg, que dão nome ao disco novo. Ainda desse álbum vem a belíssima "At Dawn's First Light", cuja letra foi cantada por todos.

De repente, tudo fica escuro e a banda sai do palco. Os sons dos corvos anunciam que a próxima seria "Cry of the Black Birds". E em "Deceiver of the Gods" registrou-se a maior quantidade de punhos pro ar por metro quatrado da história do Armazém, ou melhor, da história dos shows de metal em Fortaleza.

O Complexo Armazém estava com uma boa lotação embora não estivesse completamente lotado. Em "Tattered Banners and Bloody Flags" uma boa quantidade de bangers acharam lugar para uma roda, enquanto outros se rendiam aos gritos de "olê olê Amon Amon".
Johan agradece e começa a contar uma história sobre o fim do mundo. "Contemplem o poderoso Surtur que se levanta", anuncia ele para que comece "Destroyer of the Universe", a canção que conta a história do gigante de fogo que lançará suas chamas nos nove mundos durante seu confronto com Freyr, no Ragnarök. E a roda, que já tinha achado seu canto, além de crescer, fica mais violenta.

Já em "Death in Fire", o gigante sueco desafiou o público: "Apesar de ser a primeira vez em Fortaleza, já vi que vocês conhecem bem nosso material. Quero lembrá-los que tocamos em Manaus ontem. E amanhã vamos tocar em Recife. Quero ver vocês provarem que são melhores". Desafio aceito e cumprido pelo público.

Apesar do nome, que significa Montanha da Perdição, no sindarin, criado por Tolkien, é da fonte da mitologia nórdica que o AMON AMARTH mais bebe. Uma das canções mais esperadas, "Father of the Wolf", que começa com uma narração - "Irmão, é você?" também toca no assunto. E é um dos (muitos) pontos altos do show. "Runes to My Memory" e "War of the Gods" com seu magnífico solo (e que solo) dão fim à primeira parte da batalha, digo, do show.

No bis, quase imediato, Johan fala novamente com os cearenses (e potiguares, piauienses, maranhenses...): "Eu sei que é uma noite quente, mas vocês querem mais? Todos temos que dar uma parada de vez em quando, não é mesmo? É hora de levantarmos os chifres pra vocês, Fortaleza". E todos na banda enchem as barbas de cerveja, bebida diretamente dos chifres que serviam de copos. E o clássico automático "Raise Your Horns", com um refrão que gruda no cérebro, cria o clima de taberna. Mas tudo o que é bom dura pouco. "Guardians of Asgaard" e "Twilight of the Thunder God" seriam as últimas. Então, quem se acovardou e não entrou na roda ainda tratou logo de entrar. E ela se transformou em uma verdadeira batalha Viking. Não haviam ali soldados ingleses, nem francos, muito menos freis, apenas vikings, nortenhos do nordeste, furiosos, batendo-se uns contra os outros. E teve até wall of death (e nem foi Hegg quem comandou).

Sob os gritos de "olê, olê, AMON, AMON, o vocalista mostrou-se, por uns instantes, incapaz de deixar o palco ao fim do show. Admirava a multidão. "Espero que não seja a última vez aqui. Nos encontraremos outra vez. Enquanto isso, levantem seus chifres e mantenham-se seguros. Boa noite", despediu-se finalmente.

Com iluminação perfeita, som bem equalizado (principalmente na hora da atração principal, mas em nível aceitável para o ato de abertura - lembremos, uma certa sujeira é característica do Black Metal). horários cumpridos (quase) à risca (os atrasos foram pequenos, apesar do desconforto notável quando o ABBATH saiu do palco), a noite aconteceu com muita tranquilidade e ficará por anos na memória dos bangers de Fortaleza (principalmente daqueles que não foram e se arrependerão até a hora de entrar pelos salões de Valhalla). Esperamos que a Liberation, com o apoio das produtoras locais, como a Gallery, continue investindo na cidade e trazendo atrações do peso do AMON AMARTH. Afinal, se não somos nórdicos, somos nordestinos, o que também é sinônimo de força.

Agradecimentos:
Liberation, Gallery e The Ultimate Music, pela atenção e credenciamento.
Chris Machado, pelas lindas imagens que ilustram esta matéria.

Setlist Abbath
01.To War!
02.Winterbane
03.Ashes of the Damned
04.Warriors (I)
05.In My Kingdom Cold (IMMORTAL)

06.Tyrants (IMMORTAL)

07.Nebular Ravens Winter (IMMORTAL)
08.Count the Dead

09.One by One (IMMORTAL)
Setlist Amon Amarth
01.The Pursuit of Vikings
02.As Loke Falls
03.First Kill
04.The Way of Vikings
05.At Dawn’s First Light
06.Cry of the Black Birds
07.Deceiver of the Gods
08.Tattered Banners and Bloody Flags
09.Destroyer of the Universe
10.Death in Fire
11.Father of the Wolf
12.Runes to My Memory
13.War of the Gods
14.Raise Your Horns
15.Guardians of Asgaard

16.Twilight of the Thunder God

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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