Anvil: banda em São Paulo mostra o que é paixão em tocar

Resenha - Anvil (Inferno Club, São Paulo, 01/11/2013)

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Por Durr Campos
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O ANVIL é uma banda diferente. Nem tanto por ter sido um dos nomes mais azarados da história, mas pelo fato de que sua música é de fato muito acima da média se comparada às bandas de sua geração. E nem estou a comentar sobre aquele fatídico episódio do evento no Japão, quando o Scorpions, Whitesnake, Bon Jovi, eles e outros tocaram juntos e na sequência conseguiram sucesso planetário. Bem, todos menos o Anvil. Daí nos perguntamos como um grupo responsável por, pelo menos, três álbuns essenciais do heavy rock mundial foi capaz de tal façanha. Se há uma resposta para tal questionamento não sei, porém, mais de 30 anos após ter editado sua estreia em vinil, o irretocável "Hard 'N' Heavy" (1981), o trio de Toronto liderado pelos folclóricos Steve "Lips" Kudlow e Robb Reiner, veio pelo segunda vez ao Brasil e novamente encontrou o que tem colecionado pelos quatro cantos desde sempre: afetos. Vamos ao resumo dos acontecimentos.

Texto: Durr Campos
Fotos: Fernando Yokota

A abertura com a banda SEVENTH SEAL mostrou-se adequada, mesmo os estilos sendo deveras distinto. Bem, nem tanto assim se nos ativermos que foram dois baitas shows de metal. Um tanto tímidos, o quinteto formado por Leandro Caçoilo (vocais), Victorio Prospero (baixo), Roberto Moratti (bateria), Tiago Claro e Thiago Oliveira (guitarra) pegaram o Inferno Club bem vazio, mas atento ao trampo deles. O início com "Mechanical Souls" foi acertado, em especial pelo dueto de guitarras. Os timbres estavam excelentes, em alguns momentos nos remetendo ao "Somewhere in Time" (1986), do Iron Maiden, pela sintetização nas seis cordas, ou pelo menos a forma como soou aos meus ouvidos. A bateria estava bastante clara também, o que neste caso era essencial devido à sincronia dos bumbos com o riff principal. "King of Lies", do "Days of Insanity" (2007) é um arregaço de linhas vocais rasgadas, mas talvez ela tivesse ficado mais adequada sendo a quarta ou quinta ali apresentada, pois Caçoilo ainda carecia aquecer mais suas cordas. Ficou bom, mas poderia ter ficado excelente! A canção que dá nome ao conjunto veio em seguida, trazendo aquele clima oitentista ao ambiente. Desde quando a ouvi pela primeira vez senti algo de Savatage da fase "Power of the Night" (1985), o que ao meu ver é um predicado e tanto. Já contando com uma galera maior levaram "Time To Go" e com ela obtiveram uma participação mais efetiva do público. A coisa ferveu com o cover da banda DIO para o hino "Stand Up and Shout", com Leandro encarnando Ronnie James no gogó, sua clara maior influência. "Beyond the Sun", que abre o mais recente álbum "Mechanical Souls" - com previsão de lançamento para o final de novembro - fez boa sequência com o clássico anterior, assim como ficou bonita a performance geral nas duas seguintes: "Dreams of Green" e "Pleasure of Sin". Em tempo, palmas para a postura extremamente humilde e grata do Seventh Seal por fazer parte do evento. Não foram poucos os agradecimentos de seus integrantes à produção, aos seus fãs e até ao Anvil.

Por falar neles, "Lips" já iniciou a festa no meio do povo. Isso mesmo, enquanto Reiner e o novo baixista Sal Italiano detonavam "March of the Crabs" do palco, o frontman divertia-se com seu público entregando que a noite seria especial. A emenda matadora com "666" foi de arrepiar. O headbangin' era geral e pairava um clima dos mais amigáveis por ali. Piro naquela parte que diz "I'd rather be a king below than a servant above/ I'd rather be free and hate than a prisoner of love/ You heard my warning but you didn't, didn't, didn't learn... 666!" (Nota do redator: "Eu prefiro ser um rei nas profundezas do que um servo nas alturas/ Eu prefiro ser livre e odiar do que um prisioneiro do amor/ Você ouviu meu aviso, mas você não, não, não aprendeu... 666!", em tradução livre do inglês). Lips pergunta: "Há aqui algum virgem de Anvil que nunca tenha nos visto antes?" Engraçado foi ver que ninguém levantou a mão. Ele ficou surpreso e emendou: "Vamos voltar a 1981 com Hard 'n' Heavy... School Love!" A primeira do mais recente de estúdio, "Hope in Hell", veio com "Badass Rock 'n' Roll", bem aceita. A pegada meio Kiss também ajudou na recepção.

"Vocês vão amar a próxima, tenho certeza", disse Lips. E como não? Era hora de "Winged Assassins", certamente uma das mais legais deles e minha favorita em "Forged In Fire" (1983). Eu já sairia dali feliz depois dessa, mas ainda havia mais alguns coringas por vir. Como a coisa literalmente esquentou no Inferno, o álbum "Juggernaut of Justice" (2011) foi a escolha óbvia e sua representante, "On Fire", caiu como uma luva. Na verdade está tudo certo nela: belas melodias de voz, riff matadores e solo de guitarra memorável. Impossível não estampar um sorrido de canto a canto no rosto. E o que dizer da felicidade daquele senhor empostando sua voz perante fieis seguidores de longa data e uma molecada que provavelmente os conhecemos a menos tempo, mas não menos se empolga? Desculpem a crueza nas palavras, mas Lips é foda! "This Is Thirteen", do disco homônimo, levou-me até o famoso filme da banda, o "Anvil: A História de Anvil", lançado em 2008 e dirigido pelo jornalista britânico vencedor do Emmy Sacha Gervasi. Quem ainda não assistiu precisa fazer isso assim que terminar a leitura deste texto, pois se trata de um documento único sobre uma banda honesta e sem receios em expor suas fraquezas perante as câmeras. A época eles gravavam o disco supracitado, por isso a conexão óbvia. Posso assistir mil vezes e mesmo assim irei me emocionar com a película.

E o que é esse Robb Reiner? Chover no molhado ficar aqui enumerando seus predicados como instrumentista, mas sua pegada é realmente ímpar. O Anvil não seria muito do que é sem este dileto e discreto baterista, eterno comparsa de Lips. Mesmo que por vezes o reverb tenha embolado algumas coisas aqui e ali, adorei seu solo (o qual veio mais a frente), aliás, a tempestade causada pela velocidade e precisão com que castiga seus tambores. A continuação do espetáculo com "Mothra" só melhorou tudo! É nesta que Lips pega seu famoso dildo e começa a tocar a guitarra com ele. Show do Anvil sem isso não dá, certo? Pois o homem estava inspirado e aprontou (quase) tudo com o falo em mãos, até "slide guitar" tocou utilizando-se do dito cujo. As gargalhadas eram gerais, inclusive por parte do baixista Sal, uma simpatia em cena. "Thumb Hang", uma das mais velhas canções deles mesmo que tardiamente registrada em estúdio, não só provocou o balançar de cabelos na plateia como um coro bem sincronizado entre ela e a banda. A letra fala da tortura da igreja católica nos tempos da Inquisição e possui um apelo "comercial" irresistível, eu diria. As linhas de voz são ótimas! A nova "Through With You" trouxe enxertos de "Smoke On the Water" do Deep Purple e por consequência uma pegada mais setentista e rock and roll. O já citado por mim solo de Reiner veio após outra bem bacana, "Swing Thing". Fica bacana observar Lips assistindo-o com total atenção mesmo já tendo visto aquilo um trilhão de vezes na vida. A amizade entre os dois é das mais sinceras neste meio, sem dúvidas.

Lips: "Quando se tem um baterista como este aqui, há esperança no inferno", disse em alusão ao título do seu mais novo trabalho, "Hope in Hell". Tocaram a que dá nome a ele, uma bela faixa, bem típica. Coladinha veio "Eat Your Words", uma das mais conhecidas deste derradeiro disco, pois já vinha sendo divulgada pelo soundcloud da banda desde maio deste ano. Gosto bastante dela. O set regular finalizou com a obrigatória "Metal on Metal", detentora do trono de maior "hit" do Anvil. Quem resiste a não entoar junto com os caras "Metal on metal, It's what I crave. The louder the better, I'll turn in my grave./ Metal on metal, Ears start to bleed. Cranking it up, fulfilling my need..." e por aí seguir? Saíram por uns instantes, mas regressaram mandando ver em outro hino, "Forged In Fire". A massa não parecia a fim de sair dali sem mais um mimo, portanto ainda reservaram "Running" como grand finale. Eles curtem encerrar com esta e de fato tem cara de "até logo". Que assim queiram os deuses do metal!

Set-list Anvil
March of the Crabs
666
School Love
Badass Rock 'n' Roll
Winged Assassins
On Fire
This Is Thirteen
Mothra
Thumb Hang
Through With You
Swing Thing
Hope in Hell
Eat Your Words
Metal on Metal
Forged in Fire
Running

Set-list Seventh Seal
Mechanical Souls
King of Lies
Seventh Seal
Time To Go
Stand Pp and Shout (cover Dio)
Beyond The Sun
Dreams of Green
Pleasure of Sin



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Sobre Durr Campos

Graduado em Jornalismo, o autor já atuou em diversos segmentos de sua área, mas a paixão pela música que tanto ama sempre falou mais alto e lá foi ele se aventurar pela Europa, onde reside atualmente e possui família. Lendo seus diversos artigos, reviews e traduções publicados aqui no site, pode-se ter uma ideia do leque de estilos que fazem sua cabeça. Como costuma dizer, não vê problema algum em colocar para tocar Napalm Death, seguido de algo do New Order ou Depeche Mode, daí viajar com Deep Purple, bailar com Journey, dar um tapa na Bay Area e finalizar o dia com alguma coisa do ABBA ou Impetigo.

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