Ozzy Osbourne em SP: um relato descompromissado do show
Resenha - Ozzy Osbourne (Arena Anhembi, São Paulo, 02/04/2011)
Por Fabrício Kriger
Postado em 10 de abril de 2011
Era sábado de manhã, 10h, cara de chuva em São José dos Campos. O dia era 2 de abril, dia do show de OZZY OSBOURNE em São Paulo. Uns trocados no bolso e um pouco mais de R$100 no banco. Será que dá pra ir??? Mas é claaaro!!!
Até a noite anterior o site ainda vendia ingressos pela metade do preço para estudantes. R$100. Certinho com o que eu tinha! Liguei pra empresa que cuidou dos ingressos, a atendente falou que a bilheteria abria 12h mas não sabia informar se ainda havia meias. Arrisquei!
Era umas 3h da tarde quando cheguei no terminal do Tietê em São Paulo. R$20 mais pobre, mas pertinho do Anhembi, onde seria o show. Primeira cerveja ali mesmo, ainda com um preço justo...
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No Anhembi a fila pra entrar já ia se formando e aumentando bem rápido. Felizmente na bilheteria não tinha fila. Tudo certo? Não! Minha carteirinha de estudante tinha vencido em março, e o infeliz não quis me vender a meia. Falei com o supervisor, mas não deu em nada. Fingi que ia embora, mas fui pro guichê mais longe que tinha. "Me vê uma meia por favor!", "Tá vencido aqui... mas eu vou fazer pra você!". Pronto! Ingresso na mão! Agora sim!
Fiquei puto na fila porque tinha mais gente vendendo capa de chuva do que gelada. Arranjei uma sacola pra colocar minha camisa caso chovesse, o dinheiro da capa de chuva dava pra comprar duas cervejas, e a situação financeira estava tensa!
Pra mim a fila num show desses já é um evento. Cara de felicidade estampada na galera, gente falando que música queria escutar, e a mulherada de parabéns! Uma galera gente boa que tinha vindo de Pato Branco, no Paraná, chegou na fila. Ir em show sozinho não tem tanta graça, colei neles até o final.
Ao entrar na arena Anhembi uma chuvinha já anunciava o que ia rolar... um pé d’água! Coloquei a camisa na sacola logo. A cerveja lá dentro absurdamente cara me deu uma tristeza. Com certeza meu dinheiro ia acabar rápido.
Tempos depois, já encharcado e chapado, parecia que o SEPULTURA ia subir no palco. Eu acho um bando de chato quem fica falando isso e aquilo da formação nova. Não gosta não escuta! A galera ali manda bem demais! Mas eu não estava na vibe do SEPULTURA. Eu fui num show deles ano passado em Vitória-ES, na hora de ir embora eu estava exausto, a pancadaria rolou solta do começo ao fim. Mas nesse sábado eu não queria me quebrar, o negócio era o OZZY. Fiquei de longe mesmo, só curtindo com a cabeça. Embora "Refuse/Resist" logo no começo foi difícil de não sair se quebrando. Eu tenho 2m de altura, e talvez a maior vantagem de ser alto assim é conseguir ver qualquer ponto do palco e boa parte da plateia em qualquer lugar que esteja num show. É camarote natural! E eu acho que no geral a galera também não estava na pegada do SEPULTURA mesmo. Não lembro de ter visto nenhuma roda de "mosh" grande durante o show. Mas era de se esperar. O público era bem variado.
Acabaram o show! Repertório massa, pra ninguém botar defeito! De parabéns! Mas agora sim... OZZY! OZZY! A essa altura eu já estava bem louco. Tocou Changes do BLACK SABBATH nos alto-falantes. Eu lembro direitinho. Todo mundo cantou como se o OZZY estivesse cantando ao vivo lá no palco. No dia posterior eu tive que consultar o set-list do show na internet pra retificar minha memória danificada pelo álcool. Não, ele não tocou "Changes" em nenhum momento. Mas que a galera curtiu igual, curtiu! Bom, pelo menos eu!
Por falar na música que tocou nos alto-falantes, quem foi o infeliz que fez aquela lista??? Que que é isso. Até KAISER CHIEFS rolou. Tava tenso... Por mim eles colocavam o "Vol.4" do BLACK SABBATH inteiro que a galera ia ao delírio!
Era chegada a hora. O maluco-mor apareceu no palco e gritou alguma coisa com aquela voz arrastada e cuspida que ele tem. Pronto, agora o bicho ia pegar! Gostei, sem introduçãozinha nenhuma, só o riff inicial autoexplicativo de "Bark At The Moon". A partir dali era só alegria. Antes do show eu já tinha visto o set-list da turnê um milhão de vezes, mas não sei se pela empolgação ou mais provavelmente pelo álcool, cada música que começava eu ficava surpreso.
Uma coisa é você ler num site: "Ah! Legal! A terceira música é ‘Mr. Crowley’!", outra é você estar lá naquela escuridão no meio de 30 mil pessoas e de repente aquele órgão brutal te soca o ouvido. Eu me arrepiei durante a música inteira. Muito bom! Jogaram uma bandeira do Brasil no palco. Massa! Um pouco depois rolou "Fairies Wear Boots". Escutar ao vivo uma música do BLACK SABBATH na voz de OZZY OSBOURNE vai ser uma coisa que eu vou ter orgulho de falar pra próxima geração que vai nascer quando ídolos como esse já estarão aposentados ou sem condição de fazer shows. Não adianta o quanto as músicas da carreira solo dele são boas, e eu gosto bastante, mas as músicas do BLACK SABBATH são os grandes momentos do show, pra mim foi mitológico.
Junto com "Road to Nowhere" veio uma chuva de molhar até o osso. Mas ninguém estava nem aí! O público de um show de rock’n’roll é um espetáculo a parte. Quem precisa de backing vocal quando 30 mil malucos cantam todos os refrões em uníssono? O solo dessa música foi muito bem executado pelo guitarrista fanfarrão GUS G. O cara tem um ventilador apontando pra ele pra poder ficar com o cabelão balançando! Vai fazer propaganda de shampoo rapá!
Uma sirene dolorosa anunciava a clássica "War Pigs". Eu disse que a galera cantava só os refrões? Desconsidere! Desde o "General gathered in their masseeeees..." até o "Oh Lord! Yeah!", tudo com aquela empolgação de quem está vendo um momento histórico.
"Rat Salad" foi estragada por um solo interminável do baterista. Acho que o único baterista que tem o direito de fazer um solo daquele tamanho é o NEIL PEART do RUSH, os outros que me perdoem. É chato demais! O GUS G também fez as suas firulas com sua guitarra em outro momento. Essas coisas a gente faz no banheiro meu amigo! Mas enfim, perdoados. Porque voltaram com "Iron Man", outro clássico. Sabe aquela vontade de escutar uma música que você tem quase certeza que a banda não vai tocar, a minha era "Supernaut" do antológico Vol.4! Todas as músicas que ele tocou do BLACK SABBATH são do segundo albúm, o "Paranoid". "Podia ter rolar pelo menos uma fora desse né?" eu pensava. "Por que não ‘Supernaut’?".
A empolgação da galera foi só aumentando e só coisa boa vinha do palco. A essa altura do show minha memória já não tem o luxo de enumerar a ordem das últimas músicas. Mas OZZY cantando o refrão de "Crazy Train" é uma coisa difícil de esquecer!
Depois de "Mamma I’m Coming Home" o riff mais manjado do heavy metal botou neguinho pra pular que nem louco na Arena Anhembi. "Paranoid" tava comendo solto. E ao final, uma galera sedenta por mais clamava o doidão. "OZZY! OZZY! OZZY!"
O show acabava ali. Sem "Supernaut", mas sensacional. Um pouco mais de uma hora e meia. Muito curto, mas se você tiver 62 anos e conseguir passar mais que isso cantando e pulando você tá de parabéns!
Todo mundo encharcado e feliz. Na saída fiz o que todo bêbado deve fazer se não tiver ideia de onde ir: Seguir o fluxo. Me despedi da galera de Pato Branco e o fluxo me levou até um posto de gasolina. Ótimo! Muita gente! Zero de dinheiro no bolso, mas deu pra sacar alguma coisa num caixa. Ir andando pro Tietê não era uma boa. Pensei: "Vou beber mais e ficar aqui que pelo menos tem gente. De manhã eu chego no Tietê e vou embora!". Só que esse "tem gente" durou uns vinte minutos. De repente todo mundo foi embora. Lá estava eu sozinho no posto. A moça da loja de conveniência me perguntou: "Só sobrou você da festa moço?", "Foi. Só eu!".
Domingo de manhã lá estava eu chegando de novo em São José dos Campos. Sem dinheiro, ainda molhado, sem dormir, mas com o show do OZZY no currículo e um sorrisão estampado na cara. Pra mim show de rock tem que ser assim. Um evento. Marcante! Que graça tem chegar dez minutos antes de começar, entrar na Pista Premium e depois voltar pra casa como se você tivesse ido ao shopping? Acho que nem se eu tivesse dinheiro eu faria assim. Falaram aí que essa talvez seja a última turnê mundial dele. Tomara que não seja, mas se for, só vai valorizar ainda mais essa experiência alucinante que todas aquelas pessoas compartilharam.
Set List do Show (Claro que eu peguei de outra resenha. Não ia lembrar nunca!)
1. Bark At The Moon
2. Let Me Hear You Scream
3. Mr. Crowley
4. I Don't Know
5. Faires Wear Boots (BLACK SABBATH)
6. Suicide Solution
7. Road To Nowhere
8. War Pigs (BLACK SABBATH)
9. Shot In The Dark
10. Rat Salad (BLACK SABBATH)
11. Iron Man (BLACK SABBATH)
12. I Don't Want To Change The World
13. Crazy Train
14. Mama I'm Coming Home
15. Paranoid (BLACK SABBATH)
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