Muse encerra Porão do Rock atendendo às expectativas

Resenha - Muse (Estádio Mané Garrincha, Brasília, 01/08/2008)

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+Compartilhar no WhatsApp

Por Maurício Gomes Angelo
Enviar correções  |  Comentários  | 

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.











O segundo dia do Porão do Rock prometia não só uma programação mais variada, como bandas melhores, mesclando medalhões com novos nomes da cena independente que renovaram a música alternativa brasileira, provando que é possível ser “indie” sem prejuízo de sonoridade, organização, relacionamento com o público, etc.

No Palco Pílulas, às 17h, ainda com quase ninguém na arena, o – temos um nome engraçadinho – GILBERTOS COME BACON abriu os trabalhos apresentando um som que ainda não se decidiu o que quer ser: hardcore, reggae, hip-hop, rock, pop, música latina... sobrando energia e, na maioria das vezes, pedindo alguns ajustes.

O público ainda começava a chegar quando o VAI THOMAZ NO ACAJU, combo entre Gabriel Thomaz, vocalista do AUTORAMAS e parte dos integrantes do MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU, uma das melhores bandas do Brasil atualmente, subiram no Palco Principal. Difícil imaginar uma abertura melhor. Junto a Gabriel, André Gonzáles (voz), BC (guitarra), Beto Mejía (flauta transversal), Eduardo Borém (gaita cromática, escaleta e teclados), Esdras Nogueira (sax barítono), Fabio Pedroza (baixo), Leonardo Bursztyn (guitarra), Paulo Rogério (sax tenor), Renato Rojas (bateria) e Xande Bursztyn (trombone) tocaram músicas do seu compacto em vinil lançado em 2007, auto-intitulado, como “Família Que Briga Unida Permanece Unida”, “O Sol Eu Não Sei” e “Stock Car Theme” – uma divertida brincadeira vocal. Diversão, aliás, foi o tom do show, com o ótimo naipe de metais em “alta voltagem” do Móveis e participações de convidados especiais da cena de Brasília. Uma das mais empolgantes e suculentas apresentações do Porão.

Colocado em seqüência não à toa, o mesmo pode ser dito sobre os cariocas do CANASTRA, big band um pouco mais enxuta e com uma deliciosa mistura de samba, mpb, rock, jazz, surf music e todo um swing bem particular, demonstrado também nas ótimas letras. Com músicas de seus dois discos, “Traz A Pessoa Amada Em Três Dias” (2004) e “Chega De Falsas Promessas” (2007), o CANASTRA provou porque é um dos nomes mais adorados da cena atual. Som redondo, banda entrosada e músicas que já são cantadas pela platéia, como “Motivo De Chacota”, “Chevette Vermelho”, “Meu Capuccino”, “Miss Simpatia” e “Quando Sim Quer Dizer Não”. Destaque para a presença notável do baixo acústico de Edu Vilamaior. E se a abertura foi com uma maravilhosa versão instrumental do Hino Nacional, o fim ficou com a execução do riff de “Back In Black”, do AC/DC. Algo como “um dos melhores shows nacionais que se pode querer”.

Depois, os locais do SAPATOS BICOLORES trouxeram seu rock genérico que não empolgou muita gente. Enquanto isso, no Pílulas, o SUPER STEREO SURF mostrou que pode ir um pouco mais longe com seu som gostoso de ouvir e melodias bem construídas. E aí tivemos o eletrônico de LUCY AND THE POPSONICS, o sempre bom “rrrrrrock” do AUTORAMAS, muito bem recebido pelo público, a mistura do MUNDO LIVRE S/A, o “hyper rock” pretensioso do SUPERGALO e a baiana PITTY, com uma banda já acostumada ao palco que se saiu melhor do que o esperado, assim como a própria demonstrou que é dona do público e manda muito bem naquilo que se propõe a fazer.

Mas todos queriam mesmo era os britânicos do MUSE. Camarote lotado – ao contrário do dia anterior – e público num frisson assombroso para quem até dois anos atrás só era conhecido no Brasil pelo círculo diminuto dos indies anglófilos doentios.

Felizmente, todo o reconhecimento da imprensa e o oba-oba dos fãs justifica-se pela discografia do grupo. Se já se convencionou considerá-los de “difícil classificação” (não por acaso), resta atestar que, de fato, Mathew Bellamy (voz/guitarra), Christopher Wolstenholme (baixo) e Dominic Howard (bateria) são um corpo estranho no mainstream do pop mundial. Altas doses de progressivo e metal, falsetes descarados que funcionam, o paradoxo da grandiloqüência expressa por um power trio afinado cobertos por um invólucro de pop e toques eletrônicos. Alcançaram o topo sem praticar o óbvio, construindo uma identidade musical singular, trazendo a mente um pouco do melhor produzido nas décadas de 70, 80 e 90, com músicos completos, técnicos e intensos ao vivo, ajudados pela estrutura gigante e extremamente profissional por trás.

Sendo impossível trazer ao Brasil todo o aparato demonstrado no recém-lançado CD/DVD H.A.A.R.P, ao vivo em Wembley, o telão, balões gigantes, confetes e foguetes de CO2 foram o suficiente para encantar a platéia. Mas fora o hi-tech e o espetáculo, a música se destaca por si. Considerados o melhor grupo ao vivo do mundo pela imprensa inglesa, o posto pelo menos está em boas mãos - independente de ser questionável. Não fazem apenas um show, mas um verdadeiro concerto neo-prog/pop/metal tecnológico cheio de improvisos, com um espírito notável de uma autêntica banda ao vivo, ao inverso de 90% da cena, indo além do básico para embolsar alguns milhares de dólares.

“Knights Of Cydonia”, uma das mais prog do repertório, abriu a noite para êxtase dos 17 mil presentes. E se em estúdio eles já mais que flertam nitidamente com o metal, no palco o peso é assombroso, sendo um convite ao headbanging, a exemplo do que o próprio Bellamy faz às vezes. E se o vocalista vai do falsete extremo ao mais grave e natural com facilidade – e convencendo – na guitarra coloca muita (mas muita) distorção e efeitos, complementado por um pad exclusivo acoplado à guitarra, além de sintetizadores e todo um leque de opções muito bem utilizadas, que encontram nos teclados de Morgan Nichols (músico contratado), o suporte ideal.

“Black Holes & Revelations”, o último trabalho, de 2006, foi a base do show, indo desde a ampla “Map Of The Problematique” até a dance “Supermassive Black Hole”, que ao vivo é aceitável apesar de contar pouco com a minha simpatia. Do álbum, baladas como “Invincible”, que tem um refrão tão piegas que chega a ser corajoso e a ótima “Starlight” foram os momentos ideais para o “vamos cantar todos juntos”.

Na verdade, a maioria das composições têm espaço e apelo para que o público se una a voz de Bellamy: poucas vezes a música pop foi tão bem costurada com o peso e quebradeiras típicas do prog e do metal, como comprovaram “Butterflies & Hurricane”, “Stockholm Syndrome” – estupenda – e “Hysteria”.

Da tríade de intocáveis vieram “New Born”, “Time Is Running Out” e “Plug In Baby”, não só algumas das melhores como três das minhas preferidas da banda, exemplos perfeitos que de certa forma resumem o que é o MUSE. Junte a estas “Feeling Good” e seu piano marcante, contando com uma atuação inesquecível do vocalista.

O fim, com “Take A Bow”, deixou a sensação de que poderíamos ficar ali por pelo menos mais uma hora e conferir ausências sentidas como “Apocalypse Please”, “Sing For Absolution”, “Bliss”, “Space Dementia” e “Muscle Museum”, dentre outras. Mas tudo bem, na certa voltarão ao país e com um novo CD pra divulgar. Em 4 trabalhos sólidos o MUSE alcançou o topo do mundo com uma música bem menos comercial que a maioria dos que costumam ocupá-lo. O único pecado é, às vezes, cair na megalomania sonora desmedida. Mas de um jeito que até eventuais deslizes dão motivos para serem perdoados. A banda é muito (muito) boa, e nada indica que deixará de sê-la. Mesmo para qualquer um com má-vontade, o show fez mais que cumprir as expectativas.

E o saldo final do Porão do Rock foi um festival muito bem organizado, com dois palcos principais revezando-se sem atrasos nas apresentações (uma raridade), um lounge interessante entre eles no camarote, ingressos baratos, estrutura adequada para quem estava na pista e uma seleção de bandas brasileiras que, apesar de boa, pode melhorar bastante. O evento cresceu a ponto de investir em atrações internacionais de peso (e portanto mais caras), trazendo ao país um grupo no auge, não na entre-safra ou já esquecido (outra raridade). Longe da perfeição, óbvio, mas o suficiente para estar entre os principais eventos do calendário nacional. Que venha a edição 2009!

Links:

Oficial: www.poraodorock.com.br

Nacionais:

www.myspace.com/gilbertoscomebacon
www.moveiscoloniaisdeacaju.com.br
www.myspace.com/canastra
www.sapatosbicolores.com.br
www.myspace.com/superstereosurf
www.myspace.com/lucyandthepopsonics
www.myspace.com/autoramas
www.myspace.com/mundolivresa
www.myspace.com/supergalo
www.pitty.com.br

Muse: www.myspace.com/muse

5000 acessosQuer ficar atualizado? Siga no Facebook, Twitter, G+, Newsletter, etc

GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+Compartilhar no WhatsApp

0 acessosTodas as matérias e notícias sobre "Muse"

Total GuitarTotal Guitar
Enquete com os melhores riffs do século 21

Já ouviu antes?Já ouviu antes?
New York Times elege os melhores covers

MusicRadarMusicRadar
Leitores escolhem os 40 shows mais disputados do mundo

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato.

Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Trolls e chatos que quebram estas regras podem ser banidos. Denuncie e ajude a manter este espaço limpo.

0 acessosTodas as matérias da seção Resenhas de Shows0 acessosTodas as matérias sobre "Muse"

Planno DPlanno D
10 coisas que metaleiro faz mas quase ninguém sabe

Sharon OsbourneSharon Osbourne
"Pensei em pagar por sexo"

ExcessosExcessos
Como os rockstars gastam os seus milhões

5000 acessosGuns N' Roses: mãe de Steven Adler comenta a emoção do filho5000 acessosTrujillo sobre Zakk Wylde: "ele é uma máquina de beber"5000 acessosFalência: Sete Rock Stars que foram à bancarrota5000 acessosSlash: Comentários sobre Guns, pornstars e Michael Jackson5000 acessosGuns N' Roses: mini-reuniões ao longo da história5000 acessosSupernatural: ouça 10 músicas que marcaram a série

Sobre Maurício Gomes Angelo

Jornalista. Escreve sobre cultura pop (e não pop), política, economia, literatura e artigos em várias áreas desde 2003. Fundador da Revista Movin' Up (www.revistamovinup.com) e da revrbr (www.revrbr.com), agência de comunicação digital. Começou a escrever para o Whiplash! em 2004 e passou também pela revista Roadie Crew.

Mais matérias de Maurício Gomes Angelo no Whiplash.Net.

Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria, e não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será removido. Conheça a nossa Política de Privacidade.

Em fevereiro: 1.218.643 visitantes, 2.740.135 visitas, 6.216.850 pageviews.

Usuários online