Resenha - Rock em Concerto (Teatro Guaíra, Curitiba, 21/09/2007)

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Por André Molina e Silvia Valim
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

A parceria entre a banda de rock Blindagem e a Orquestra Sinfônica do Paraná agradou o público que presenciou o espetáculo "Rock em Concerto" no Teatro Guaíra. Em muitos momentos a platéia se levantou para aplaudir os arranjos de orquestra para as canções da banda curitibana. A fusão entre música erudita e rock 'n' roll ocorreu de maneira equilibrada.

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A apresentação teve início com a canção pesada "Blindagem". O arranjo do músico Ricardo Petracca não descaracterizou o estilo Hard Rock e enriqueceu a sonoridade da banda. Outras canções que merecem destaque pela nova roupagem são "Lá vai o trem" e "Loba da estepe". As introduções criadas pelo arranjador Davi Sartori valorizaram as composições.

Um dos momentos que mais surpreendeu o público roqueiro foi a execução da 5ª Sinfonia de Beethoven. Os solos de guitarra de Paulo Teixeira e as viradas de bateria de Pato Romero ficaram em primeiro plano. Com a levada rock 'n' roll da banda, a canção se tornou mais pesada, sem comprometer a originalidade.

O desafio de unir uma orquestra e uma banda de rock em um mesmo palco foi inédito no Paraná. A inspiração veio das experiências de bandas internacionais como Kiss, Deep Purple e Scorpions.

O Maestro da Orquestra Sinfônica do Paraná, Alessandro Sangiorgi, afirma que o principal obstáculo da parceria é o equilíbrio do som. "É gratificante porque acredito que seja a primeira experiência brasileira. Dei liberdade para o Blindagem escolher as canções. A sonoridade deles e a nossa aparecem no mesmo nível. Nas canções mais lentas, priorizamos os ambientes mais clássicos e nas pesadas deixamos para a banda", diz Sangiorgi.

O Maestro ainda mencionou que o resultado foi muito positivo e que a parceria terá continuidade. Segundo ele, os ensaios surpreenderam os músicos. "Ensaiamos juntos durante uma semana, o que é normal para esse tipo de espetáculo. Pretendemos viajar pelo Paraná e pelo Brasil", afirmou.

A iniciativa do Teatro Guaíra de unir a Blindagem e a Orquestra Sinfônica do Paraná também agradou bastante os roqueiros. O guitarrista Paulo Teixeira disse que o espetáculo é uma troca de experiências entre os instrumentistas em que os admiradores de rock e de música clássica podem presenciar no mesmo ambiente. "É uma forma encontrada para popularizar a orquestra, que está muito elitizada. Eles estavam procurando alguém do Paraná para a parceria. Foi unanimidade, o maestro tinha referência. Ele conhece as músicas", argumenta.

O guitarrista também mencionou que a banda escolheu as canções mais conhecidas. As composições de Ivo Rodrigues e do poeta curitibano Paulo Leminski tiveram prioridade no critério de escolha. As clássicas "Oração de um suicida", "Não posso ver" e "Sou legal", do primeiro disco da banda, não deixaram de ser incluídas. "Tocamos canções, que são importantes para nossa história. A surpresa é a versão Vida Gozada, do italiano Vasco Rossi. Ele é uma espécie de Raul Seixas da Itália. Encaixou super bem". Vale mencionar que a música teve participação especial de Alessandro Sangiorgi nos vocais. O maestro fez questão de cantar porque é fã do músico italiano. "Escutava essa canção nos anos 80 e aproveitei a oportunidade para cantar", disse Sangiorgi durante a apresentação.

As demais canções também tiveram boa receptividade. O rock ambientalista de "Gaivota", "Volto na primavera", "O homem e a natureza" e "Cheiro do mato" foi lembrado pelo grupo em arranjos que transparecem o cenário das composições. Na canção "Miragem", a banda deixou a platéia cantar o refrão.

O baixista Paulo Juk ficou surpreso com a apresentação. "As canções passaram por um processo de renovação. Os arranjadores foram muito felizes", declarou.

As bases sutis executadas pelo violonista Alberto Rodriguez deram mais liberdade para o instrumentista cantar. Em "Operário Padrão", Alberto cantou boa parte da música, que originalmente tem a voz de Ivo Rodrigues.

O próximo passo

O satisfatório resultado da parceria poderá gerar o primeiro DVD/CD de uma banda de rock brasileira ao lado de uma orquestra sinfônica. O vocalista do Blindagem, Ivo Rodrigues, disse que a banda deseja transformar a experiência em obra. "O nosso plano agora é lançar. Gravamos a grosso modo para arrumar as vozes e os instrumentais no estúdio. Os arranjos combinaram com o nosso peso", disse.

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Por Silvia Valim

O sino toca e o trem desemboca no final dos anos 70 mostrando em um clipe de fotos toda a carreira do grupo. Ao invés do apito, o trem tem como fundo musical "operário padrão". Quando finalmente chegamos em 2007, os cinco integrantes do Blindagem e o Maestro Alessandro Sangiorgi ficam gigantes na tela de tecido que projetam suas sombras da noite. E lá vai o trem...

Enquanto Paulo Teixeira interrompia a execução de uma das suas três guitarras (mais precisamente a "do tempo em que ele tocava no Kiss", como brincou o vocal) para admirar os violinos destacando o som das rodas deslizando sobre os trilhos, Ivo Rodrigues cantava com os olhos tão brilhantes que pareciam ter acumulado lágrimas de seus 30 anos de carreira. Ele cantava com a alma verde e branca de um paranaense. E eu, mesmo sendo uma fiel mineira, me rendi à alma das cores da bandeira do Estado das Araucárias, assim como a música clássica se rendeu no dia 21 de setembro aos encantos do Rock'n roll.

No meio do espetáculo, o vocalista sentou-se em um banco em frente a harpa e ouviu, como um gato à espreita de sua presa, a Orquestra Sinfônica do Paraná executar junto à banda mais antiga de rock paranaense a 5ª sinfonia de Beethoven. Um ineditismo que só comprovou que o rock consegue, sem esforços, se aproximar até da essência dos clássicos.

Quem assistiu a imponente apresentação e não conhece de perto a Banda Blindagem não imagina a simplicidade do grupo. Os músicos são como a gaivota de seu repertório, que fazem parte do vento.

"Entra, toma uma cerveja. Quer tirar uma foto?" Quando, no camarim, eu respondi, consecutivamente, "não obrigada" e "sim, eu quero", Ruben "Pato" Romero solicitou preocupado: "Você espera só um pouco que tá faltando um". "Cadê o teu pai? Chama o teu pai pra tirar uma foto!" Disse ele para o filho de Paulo Teixeira. Muito simples e muito acessíveis. Raridade em um Brasil de elevada arrogância e de busca incessante por poder.

No palco, Paulo Leminski parecia estar presente. A poesia sem rima da música 'Oração de um suicida', composta por ele e seu irmão, Pedro, parecia guiar a voz do vocalista como se a alma dos três fosse uma só. E talvez fosse.

O Maestro Sangiorgi realizava um sonho e estava tão dividido entre sua regência e a música do Blindagem, que parecia estar, ali mesmo, no palco, tentando compreender suas duas paixões - a música erudita e o rock'n roll - que agora estavam juntos em uma mesma sintonia.

A apresentação histórica mostrou o corpo da Orquestra Sinfônica do Paraná se entregando ao rock, como a alma do Blindagem se entregou há anos à Loba da Estepe. Enquanto Sangiorgi regia sua orquestra, seus bastonetes dançavam no ar como se cantassem à banda "minha alma é sua".




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Sobre André Molina

André Molina é jornalista, economista e começou a ouvir heavy metal ainda quando era criança. Tem 30 anos de idade e Rock 'n' Roll é sua religião.

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Sobre Silvia Valim

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