Resenha - Cartoon (Palácio das Artes, Belo Horizonte, 17/11/2002)
Por Thiago Sarkis
Postado em 17 de novembro de 2002
Domingo, véspera daquela famosa segunda-feira, na qual se tira força, sabe-se lá de onde, para trabalhar, estudar e até dormir. Num desses dias, um dos mais conceituados espaços culturais do Brasil e da América Latina, o Palácio das Artes, localizado em Belo Horizonte, Minas Gerais, se encontrava altamente movimentado, com forte ritmo de vendas, conversas animadas para todos os lados e um clima de expectativa máxima.
Na verdade, o Grande Teatro, local de maior capacidade dentro do Centro Cultural, estava prestes a alcançar sua lotação, com cerca de 1.700 (mil e setecentas) pessoas. Um desinformado cruzando a Avenida Afonso Pena, certamente acreditaria que algum cantor, banda, artista, orquestra, balé, ou qualquer outro espetáculo famoso, e provavelmente internacional, se apresentaria ali em instantes. Ele teria razão, afinal faltavam horas para a jornada de labuta semanal se iniciar e, ora bolas, era dia de jogo, última rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol 2002, com Atlético-MG e Cruzeiro finalizando suas batalhas, entre outras coisas.
Pergunta óbvia: que diabos essa cambada de gente fazia ali? Resposta inesperada: todos esperando para ver o show de lançamento do segundo álbum do Cartoon, conjunto nacional de rock progressivo, cujo primeiro disco saiu em 1999. Difícil de acreditar? Sim, antes do espetáculo. Depois... bem, ficou amplamente compreensível, pois firmou-se ali a melhor banda do cenário prog brasileiro na atualidade. Vou além, e sem titubear, afirmo que os espectadores vislumbraram um dos grandes nomes do estilo em termos mundiais.
Vlad partiu rumo a outros projetos, mas Khadhu (Vocais, baixo, esraj, cítara e gaita), Boxexa (Teclados, vocais e piano) e Bhydhu (Bateria, percussão e flauta) permaneceram, e nos trazem um novo companheiro, o excelente Kiko (Guitarras e vocais). Além disso, para as gravações de "Bigorna", o trabalho recém-lançado, os integrantes fixos tiveram uma extensa lista de convidados especiais para apoiá-los: Lincoln Meirelles (Piano, órgão Eminet 650 e teclados), Kristoff Silva (Violões de seis e doze cordas, e vocais), Robson Fonseca Ferreira (Violoncelo), Lúcio Gomes (Baixo acústico), Antônio Carlos Magalhães (não o picareta – Cravo), Chico Amaral (Saxofone) e Anor Luciano Júnior (Trompete). Uma verdadeira mini-orquestra (mini?) de rock, quase toda presente no palco principal do Palácio, e pronta para embasbacar a audiência.
Sem muito atraso e num horário quase britânico, dá-se início numa introdução narrativa que intera os fãs da história tratada no disco conceitual. Durante todo a apresentação, há partes intermediadas por um locutor, facilitando a compreensão do tema abordado, o qual consiste numa variante cômica e, ao mesmo tempo, bem reflexiva sobre os tempos atuais, à lenda do "Rei Arthur e os cavaleiros da távola redonda".
Dezoito músicas tocadas e interpretadas (existe um lado teatral e performático fortíssimo) em cerca de uma hora e quinze minutos compõem a ópera rock, uma iniciativa ousada e simplesmente grandiosa, de músicos maduros, os quais provaram conseguir superar ao vivo, aquilo que já é impressionante nas gravações de estúdio.
"From The Hands Of God", "King’s Fugue", "March Of Despair", "The Last Battle", entre outras, cativaram os presentes logo de cara. Nunca haviam escutado as canções, contudo prontamente agiam como se conhecem-nas, envolvidos e participando delas. Incessantes séries de aplausos de pé acompanhavam-nas.
O que se viu nascer ali foi um Cartoon mais firme, com som definido e próprio, apesar de bem inspirado por Queen, rock progressivo setentista em geral, as partes mais trabalhadas dos Beatles, e semelhanças, em algumas passagens, a Pendragon, Discipline & cia. Como disse Neal Morse (Spock’s Beard) "não é nada fácil ser original". Porém, eles conseguiram dar seus próprios contornos e fazer seus desenhos singulares, ao redor de uma rica conjuntura de influências... Hoje constituem uma unidade. É fácil distinguir os toques marcantes da banda. A quilômetros, num vibrato nos vocais, já sabemos: É Cartoon.
No bis, apenas "Duendes", tirada do debute "Martelo". Todos cantaram de pé, e uns chegaram a verdadeiramente enlouquecer, dançando de maneira hilária, e balançando as cabeças como se estivessem ouvindo Nevermore, Slayer, ou agrupações do tipo. É o efeito cartoonico, o qual tem tudo para se espalhar Brasil e Mundo afora. Aqueles que viram sabem do que estou falando, outorgam e até têm a acrescentar a meus escritos. Palmas e saudações aos virtuosos e incríveis compositores e intérpretes Khadhu, Boxexa, Bhydhu, Kiko, e todos aqueles que fizeram parte desse projeto que, do improvável, passou a realidade. Fantásticos novamente e em constante renovação, superação.
Cartoon – http://www.bandacartoon.com.br
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