A despedida do Rush e de algumas outras
Por Rodrigo Contrera
Postado em 24 de janeiro de 2018
Vivemos um tempo de despedidas. De várias formas. Ou de ídolos que aparecem mortos. Ou de bandas que não são mais o que foram. Ou de shows que não irão mais acontecer. Há bandas que ainda dizem que aparecerão por aí (isso, lá fora). Outras que se preparam para desembarcar. Outras que anunciam solenemente que estão parando, afinal.
A mais recente delas é o Rush, cujo guitarrista saiu até no Uol, comentando a respeito de não se prepararem mais para turnês ou para gravar alguma coisa mais. Isso é o fim, como fica claro. Sem shows e sem álbuns, tudo vira memória. É como aqueles tiozinhos que se aposentam e que passam a vida vendo a vida dos outros passar.
Não irei comentar aqui o que acho do Rush, pois isso é irrelevante. Meu conhecimento da trajetória e do som da banda não me dá margem a falar nada a respeito. Mas entendo seu papel no cenário da música rock das últimas décadas. Uma espécie de joia da coroa, naquela leva de bandas tecnicamente irretocáveis, com álbuns memoráveis e hits inesquecíveis.
Lembro-me de quando o Rush aparecia no Super Pop, na década de 80, com imagens que pareciam convidar a reflexões que eu não podia ou não queria fazer naquela época. Uma banda muito afastada de minhas pretensões roqueiras, mais comedidas e mesmo mais ignorantes. Uma banda de gente grande. Como o Pink Floyd, por exemplo.
Mas noto em linhas gerais como o clima de fim de festa domina os anos, e isso cada vez mais. Os caras que curtem rock geralmente são mais velhos, nos dias de hoje. São até mais conservadores. E são poucos os que ainda continuam garimpando, como zumbis em busca de pepitas de ouro no meio da lama. Chega a ser engraçado encontrar gente como a gente em bares por aí. Todos com olheiras, pés de galinha, o peso da idade. E sem mais fôlego para gritar quando vêem algum show no palco.
A juventude que acompanha estas décadas parece-me então meio deslocada. Como se fossem garotos que sabem ter nascido tarde demais. Que ainda imploram para que o Iron chegue nestas bandas. Ou que se acostumou a ver as bandas clássicas em shows no Youtube. São como eu, que nunca viu os clássicos ao vivo, digo o Led, o The Who (meu irmão viu), ou outros de tempos ainda mais distantes.
Eu vi o Iron no Palmeiras. Vi o Metallica com o Jason, no Ginásio do Ibirapuera. Vi o Motörhead no Via Funchal, bem de longe. E vi mais. Acompanhei vídeos do Iron em pequenas casas perto da brigadeiro, na época em que o seu estilo mais punk predominava. Fui até com canivetes, que os seguranças não pegaram. Vi gente apanhando de bobeira no show do Metallica, e isso me acostumou àquilo que iria escutar os anos a seguir. Mas não fui ao primeiro RiR, não vi o Sabbath, não vi o Van Halen, e ouvi o Queen em São Paulo num radinho de um porteiro do prédio em que eu morava.
Nesse tempo todo, mudei e embora ainda consiga encarar um show daqueles, não me agrada muito passar pelo trabalho. Não me agrada ter que disputar para encontrar uma brecha para ver alguma coisa a ficar, quem sabe, na minha lembrança. Fiquei mais velho, mais acomodado, e também um pouco menos metaleiro do que de costume. De certa forma, perdi bastante com isso. Uma certa juventude. Mas não lamento ter me esforçado para carregar o piano esses anos, e agora estar um pouco cansado.
O legado do rock para mim é o legado de gerações que moldaram as gerações atuais. Gerações que se opuseram ao stablishment, em discurso e ação, mas que também erraram um pouco, ao não saberem lidar com o próprio legado que criaram. São muitos os caras que gerações do rock que criaram filhos bem mais conservadores ou que não souberam passar a eles a liberdade experimentada pela expressão pura de bandas que deixaram sua marca no estilo do século XX - e em parte do século XXI.
Hoje vejo muitos roqueiros gostando de bandas mais recentes com dificuldade de entender o que afinal o rock clássico significou no contexto geral - na história, para os seus pais, em suas vidas. Muitos que preferem se enclausurar em estilos determinados, e que não apreciam aqueles tiozinhos - como eu - cujas referências são passadas e mesmo mortas. Mas há algo que se mantém. Não sei bem o que é, realmente. Mas sinto que existem códigos compartilhados entre todos nós.
O Lou Reed, por exemplo, não foi um cara muito comum. Ele não gostava dos Beatles, gostava de Cecil Taylor, e experimentava com gêneros. Ele pode não agradar a todos. Mas ele tem, em seu jeito de ser, algo que os outros também reconhecem. Pouco importa que muitos não gostem de Lulu, que fez com o Metallica. Há no rock em geral uma disposição ao diálogo. E isso diferencia em grande parte o gênero dos outros.
Sinto isso na geração mais nova. Uma abertura que, sem o rock, talvez não existisse. Claro que existem os tapados ou fechados em estilos mais herméticos. Mas em geral no rock a abertura ao novo predomina. Claro, há uma indisposição com o pop puro e simples. Mas quando o estilo libertário do rock permanece, todo mundo esquece.
O Rush, então, que agora vai embora, parece prenunciar uma leva de desistências. O Iron está por aí esperando para pendurar as botas (Die with your boots on), por exemplo. O Sabbath fala aqui e acolá que pode dar uma palhinha. Mas já é carta fora do baralho. Outras bandas, enfraquecidas, ainda lutam para manter a gana. Mas a velhice chega para todos. E surge a hora em que a memória é o que mais importa. Mesmo que não tenhamos feito parte dela.
O que resta para nós, então? Lamentar? Não creio. Quanto mais o tempo passa, mais percebo o quanto há por aí para tentar entender. Para tentar me descobrir em tempos que vivi bem vividos ou que deixei passar. Quanto posso descobrir em legados de bandas cujos vocalistas e líderes foram embora. Como posso, por meio do rock, ainda tentar entender.
Lembro-me bem de passagens na história do Bob Dylan em que ele mais parecia um sujeito inconformado em busca de um som qualquer a expressar sua forma de ver o mundo. Um sujeito que permanecia na estrada, ainda tentando entender. Ou captar aquele som de vida no meio do caminho vazio. Como em muitas estradas por aí. O som está dentro de nós. Basta tentarmos senti-lo. Rock para mim é isso. Perceber para onde a brisa vai. E ir junto.
Como uma espécie de Robert Johnson na encruzilhada.
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