Rush: Um Adeus Aos Reis

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Por Doctor Robert
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“Minha filha Olivia me apresenta aos amigos da escola dele como ‘Meu pai é um baterista aposentado’. Isso é verdade. E não me dói perceber isso, é como todos os atletas: há um momento no qual você sai do jogo”. (Neil Peart, baterista do Rush, em entrevista à revista Drumhead Magazine).

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Sabe aquela sensação de saber que algo um dia vai acontecer, mas quando finalmente acontece, você de alguma forma parece que não está preparado ainda para aquilo? Foi essa a sensação que nós fãs do trio canadense tivemos ao ler a declaração do deus da bateria. Sim, já era sabido que o Rush vinha encurtando suas turnês, que Neil Peart ia para a estrada a contragosto por ter que deixar a família para trás, que ele e Alex Lifeson estão enfrentando há algum tempo dificuldades para tocar por conta de problemas físicos que os expõem a muitas dores, que a voz de Geddy Lee já não é mais a mesma... Mas a dor do luto é inevitável...

E o velho clichê do “filme que passa na sua cabeça” se faz presente. Aí vem aquela lembrança da primeira vez que ouviu alguma coisa da banda... Para muitos, a indefectível introdução de “Tom Sawyer”, que a Rede Globo usava como trilha sonora na abertura do seriado do MacGyver (aqui chamado de “Profissão Perigo”). Ou a primeira vez que você realmente ouviu algo pra valer da banda, ainda em uma fita cassete gravada de um disco de vinil, quando a introdução de “Spirit Of Radio” parecia dar um nó nos seus neurônios...

O tempo passou, você foi descobrindo e se aprofundando na discografia do grupo. Ao mesmo tempo em que se apaixonava cada vez mais pelas músicas do trio, nutria um certo desprezo ou torcia o nariz para uma ou outra fase quando se arriscavam em sonoridades diferentes – e depois aprende a apreciar tudo sem distinção, tanto que o trio passa a fazer parte da sua “santíssima trindade do rock and roll”.

E muito mais do que as músicas, você ficava cada vez mais embasbacado ao ver aqueles tiozinhos tocando melodias e arranjos complicadíssimos em tempos igualmente complexos com tanta facilidade e desenvoltura que diversas vezes lhe passava pela cabeça a ideia de aposentar de vez o instrumento que você tocava só por diversão. Aqueles seres sobrenaturais que dedilhavam suas guitarras e baixos de dois braços, pisando nos sintetizadores, cantando e tocando teclado, debulhando um kit bateria com centenas de peças e que ainda girava 360º... Deus do céu...

Passa ainda pelo momento onde agonizou junto a Neil Peart as perdas trágicas da esposa e da filha, e num momento egoísta ficava se perguntando se um dia o trio voltaria a tocar junto, passando por cima do luto do baterista enquanto ouvia os trabalhos solos de seus companheiros de banda e não curtia tanto assim... Mas para sua alegria, sim, eles voltariam e não ainda era o fim – havia muita lenha para queimar e muitas letras para serem escritas pelas mãos mágicas do eterno Professor das baquetas e poeta...

Lembra-se ainda do momento em que você abre um jornal e dá de cara com uma imagem de duas páginas inteiras anunciando a primeira visita desses alienígenas ao Brasil. Suas mãos começam a tremer e suar frio e você não vê a hora de sair correndo para comprar os ingressos e garantir seu lugar naquele evento que registrou o maior público da história do trio (as mais de 62 mil almas que puderam conferir o histórico show no Morumbi, em 2002), enfrentando a ingrata garoa e cantando a plenos pulmões todos aqueles hinos que ouvia incessantemente naquele velho estéreo no seu quarto. Visita que anda rendeu um pôster autografado por aquelas seis mãos mágicas, e que desde então se encontra devidamente pendurado na parede de seu quarto...

Emociona-se também quando recorda que houve uma segunda vinda deles para cá, e que você pôde ir novamente e sofrer muito com o trânsito de uma sexta-feira típica em São Paulo até chegar (em cima da hora!) no longínquo Morumbi novamente... só para ver mais algumas de suas canções favoritas que ficaram de fora da primeira apresentação, como “Subdivisions” e “Time Stand Still” e, de quebra, ainda ouvir “Moving Pictures” tocado na íntegra...

E o que dizer de sua coleção de CDs, DVDs e agora Blu-Rays? Principalmente aqueles “bootlegs” nunca lançados oficialmente, das turnês mais diversas? Áudios de transmissões de FMs, vídeos multi-câmeras feitos por fãs... E os documentários? Os vídeos caçados no YouTube e guardados para a eternidade? O inesquecível “discurso” de Alex Lifeson no Hall da Fama do Rock? Blá blá blá...

Sim, também poderia ficar aqui infinitamente num blá blá blá se fosse relembrar de cada detalhe vivido “junto” a esses três senhores. Mas no mundo efêmero de hoje movido pelas redes sociais, ninguém tem mais tempo para ler textos tão longos. Então, só pra resumir: muito obrigado Rush, por esses 41 anos de músicas espetaculares! Muito obrigado por transformarem a vida de tantas pessoas – sim, talvez vocês nem tenham se dado conta disso, mas mudaram, seja musicalmente, seja pela inspiração de suas letras magníficas, seja pelo seu exemplo de integridade musical e profissional, tendo construído uma base de fãs mundial sem em momento algum, terem se “vendido” a modismos ou movimentos.

Dirk, Lerkst, e Pratt... Curtam a vida após o Rush! Boa aposentadoria, Professor Peart... E descanse em paz, Rush! Ou melhor, descanse nada... Que seus clássicos eternos continuem tocando sempre em um lugar “próximo aos nossos corações”...

“Alguns nascem para mover o mundo
Para viver suas fantasias
Mas a maioria de nós apenas sonha com
As coisas que gostaríamos de ser
Mais triste ainda é ver isto morrer
Do que nunca tê-lo conhecido
Por você, o cego que já pôde ver
O sino dobra por ti...”

(Losing It – Rush – 1982)

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Sobre Doctor Robert

Conheceu o rock and roll ao ouvir pela primeira vez Bohemian Rhapsody, lá pelos idos de 1981/82, quando ainda pegava os discos de suas irmãs para ouvir escondido em uma vitrolinha monofônica azul. Quando o Kiss veio ao Brasil em 1983, queria ser Gene Simmons e, algum depois, ao ver o clipe de Jump na TV, queria ser Eddie Van Halen. Hoje é apenas um bom fã de rock, que ouve qualquer coisa que se encaixe entre Beatles e Sepultura, ama sua esposa e juntos têm um cãozinho chamado Bono.

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