Música: O desejo de compor se sobrepõe a qualquer cenário fonográfico
Por Júlio Verdi
Fonte: Rock Opinion
Postado em 28 de junho de 2016
Recentemente Roger Daltrey, vocalista do The Who, declarou não ter interesse em lançar mais nenhuma música inédita. Há mais de 50 anos no microfone da banda inglesa, o cantor justifica tal intenção baseado no cenário fonográfico atual, onde a venda de álbuns físicos representa uma fatia mínima do bolo total de que consome música. "Não há mais indústria musical. Precisaríamos pagar para gravar e não haveria garantia de retorno, pois os negócios não existem. Não pretendo gastar dinheiro para dar meu trabalho de graça. Tenho outras coisas em que poderia investir", declarou o cantor de 72 anos.
Há alguns anos, ao retomar as atividades em palco com sua banda, Twisted Sister, o vocalista Dee Snider afirmou que seus fãs não querem material novo, que apenam curtem os clássicos antigos de sua carreira. Desde então o grupo norte americano de hard rock tem se apresentado executando apenas músicas de seus quatro primeiros álbuns (até mesmo "Love is for Suckers", de 1987, ficou de fora). O cantor, no entanto, prepara nos dias atuais, o lançamento de um novo álbum solo.
Os casos de The Who e Twisted Sister elucidam claramente uma visão mercadológica estática da música. Parecem se prender a uma fórmula explorada há 20 anos, milhões de discos vendidos, sucessos em rádios, em TV. A realidade cultural mudou há muito tempo. Nomes decanos como Paul Mc Cartney, David Gilmour, Deep Purple, Eric Clapton, Judas Priest, Scorpions, parecem se preocupar mais com a produção artística. Viveram sua vida fazendo música, criando, e continuam. Alguém pode alegar que são artistas milionários, que não precisam mais "vender" seu trabalho, além do que seus shows possam representar o equilíbrio financeiro de suas carreiras. Mas outros grupos como UFO, Accept, Uriah Heep, ZZ Top não estão exatamente nessa família de ricas bandas, mas continuam sua jornada de criar novos trabalhos, se adaptando aos (já não tão) novos costumes de consumir música. Estamos obviamente falando do mainstream musical, porque o cenário underground é um outro universo.
Alguns outros exemplos, que se encontram entre os nomes top do show bussines do rock and roll, como Kiss, Iron Maiden, Metallica, U2, além de continuarem a vender álbuns (na proporção do consumo) e ter seus shows entre os mais caros do planeta, ainda são empresariados por gente que soube associar seus nomes a outras facetas comerciais além-música, como bebidas, cinema, moda, etc.
A proposição aqui é a questão do músico não aposentar seu desejo de continuar compondo, produzindo. Podem sim ter seus lucros a partir de venda de seu trabalho em forma digital (Spotify, ITunes, Amazon.com, etc) ou com uma rotina não tão constante de shows, mas o amor à arte de criação parece não desaparecer. Formações monstruosas como Led Zeppelin, Pink Floyd, Black Sabbath e Rush (ambos em encerramento de carreira), ao que parece não vão mais produzir material inédito. Mas seus integrantes, em seus diversos voos solos, continuarão. Pois a arte da composição é um elemento enraizado na alma de quem se mete a fazer música. Ou, pelo menos, na da grande maioria.
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