O futuro do Rock nacional; bandas autorais devem "se tocar"
Por Fernando Moraes
Postado em 24 de fevereiro de 2015
As bandas autorais não se tocam. Elas deveriam, mas não fazem isso. Enquanto milhares de músicos estão, neste momento, Brasil afora, tocando covers das bandas consagradas e clássicas, são poucos os que se propõem a planejar e executar eventos voltados apenas para músicas autorais. Com isso as iniciativas ficam desconexas, individualizadas e não rendem, deixando morrer o que seria o futuro do Rock nacional.
É certo que, atualmente, não há tanto mercado para a novidade, para experimentalismos. O mundo anda meio quadrado, com medo de inovações que levem a reflexões sobre a total estagnação da cultura pop – na qual o Rock está inserido - em nosso país. E, infelizmente, é fato que a maioria dos movimentos culturais contestadores que surgem são, por muitos de nós, marginalizados e alvos de preconceito.
Mas o principal interessado, o músico autoral, o artista independente, não pode se conformar com isso. Se não lhe dão espaço, ele tem que criar. E para criar, é preciso manter contato, é preciso estar junto, é preciso se envolver em eventos, iniciativas, shows independentes. Em outras palavras, se o artista deseja ser ouvido, também precisa valorizar os eventos culturais – sejam relacionados à música ou a qualquer outra forma artística – inovadores, autorais, autênticos.
Imagine se os integrantes das bandas das quais vocês são fãs ficassem a vida inteira tocando covers, se os Beatles se conformassem a fazer versões ao vivo de Elvis, se outras bandas hoje consagradas não tivessem saído da zona de conforto e encarado o público com suas composições. Nenhuma delas seria o que é hoje. E é exatamente o que está acontecendo. Hoje sobram bandas covers ao mesmo tempo em que as novidades – e há muitas – sejam alçadas ao sucesso.
A culpa é de quem? Muitos têm parte nesta responsabilidade, mas aqueles que deveriam ter coragem e se organizar para mudar isso são os principais responsáveis, afinal, são eles que devem fazer a "cena". A cultura pop não cria nada, apenas se apropria do que tem potencial para crescer e estourar.
Ok, talvez você pense: "ah, mas quem disse que eu quero ser pop?". Não se iluda, mesmo as bandas mais pesadas, de Motorhead a Slayer, fazem parte da cultura pop. A não ser que, como muitos músicos ou artistas, você realmente tenha como objetivo tocar em eventos undergrounds, em praças públicas, em eventos alternativos - e não há demérito nisso -, o que deseja é ser reconhecido pela massa. Mas isso é tema para outros artigos.
Felizmente, iniciativas como mostras de música independente, como o que foi realizado recentemente em Carapicuíba, rádios online que tocam os autorais, coletivos culturais que valorizam as manifestações artísticas que pipocam pelo país estão começando a ganhar força.
Portanto, cabe ao músico (ou qualquer artista) autoral, independente: baixar a guarda no quesito preconceito; livrar-se de velhos paradigmas que nos deixam presos ao passado, como se fosse impossível que algo novo tenha qualidade; mas, principalmente, integrar-se a grupos, movimentos, iniciativas que proporcionem força a quem está brigando por um espaço no mundo.
O recado é: músicos independentes, toquem suas músicas, toquem as músicas uns dos outros, divulguem seus trabalhos em conjuntos, reúnam-se em eventos, gravem coletâneas e disponibilizem pela internet, criem canais de comunicação. Muitos de vocês têm qualidade e o mundo precisa saber que vocês existem!
Fernando Moraes
O autor é Jornalista, relações públicas e vocalista/guitarrista da banda paulista Rota Ventura
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