Heavy Metal: uma expressão de liberdade
Por José cláudio Carvalho Reis
Postado em 28 de outubro de 2012
Heavy Metal: a origem do estilo é controversa. Steppenwolf, The Kinks, Blue Cheer ou Black Sabbath? O Blues forneceu as bases e até a música clássica se faz presente (Randy Rhoads, Yngwie Malmsteen etc.). Mas acho razoável pensar que a vertente mais agressiva do Rock pinçou elementos aqui e acolá antes de assumir a forma que conhecemos – e tanto amamos. Vejamos: Tony Iommi veio com os riffs, Geeze Butler contribuiu com a temática obscura que permeia o estilo. O Led Zeppelin trouxe, além do ocultismo, viagens psicodélicas e medievais. Já o Deep Purple, bem, Ritchie Blackmore nunca escondeu suas influências barrocas, apontando Bach como sua maior inspiração.
Com a chegada da New Wave of British Heavy Metal, o gênero propriamente dito se estabeleceu, espalhando-se pelos anos 1980. Nessa época nasceram o Thrash, Death e Black Metal. Se o Heavy por si só já era controverso, o que dizer de subgêneros tão extremos? Eles escancaram a aura maldita que o Metal trazia consigo, desde a pestilenta estreia do Black Sabbath. Mas, a despeito dos evangélicos que fazem piquetes em portas de shows, é mais adulto e racional pensar que seja o equivalente sonoro aos filmes de horror – e foi exatamente a proposta original do Sabbath, quando Geeze e Ozzy viram aquele lendário cartaz do loga-metragem italiano dirigido por Mario Bava, "Black Sabbath – As Três Máscaras do Terror" (ou "I Tre Volti Della Paura" no original).
Até mesmo o Venom, pedra fundamental do Black Metal, leva essa história de satanismo na base da galhofa. Basta ler alguma entrevista com seu líder, Cronos, para constatar que sua postura é pura provocação. Mesmo a tão falada ligação de Jimmy Page com o ocultismo é uma herança da tendência mística que se originou na década de 1960. Budismo, Satanismo, Era de Aquário... Tudo era válido no sem-fim de correntes pseudo-místico-filosóficas que os hippies adotaram como opção às doutrinas estabelecidas. Havia uma sensação de revolta e desilusão provocada, entre outras coisas, pela Guerra do Vietnã, e a moda era romper com o estabelecido.
Há movimentos como o Inner Circle, que não só levaram tudo a sério, como perpetraram atrocidades em nome de uma ideologia francamente imbecil. Mas seria estupidez condenar toda uma cena, digo, tantas cenas que compõem o chamado Heavy Metal, por causa de um bando de psicopatas. Em muito menor escala, equivale a odiar alemães indiscriminadamente pelo Holocausto, ou judeus pela crucificação de Jesus Cristo.
É fato que muitas bandas de Metal, em qualquer subgênero, não se furtam em utilizar uma estética chocante, seja nas composições ou em capas de disco. Mas aí já entramos no mérito dos clichês (no bom sentido). A temática deu tanto "ibope" que acabou se tornando parte da coisa. Muitos adolescentes adquiriram seu primeiro álbum do Iron Maiden por causa da capa. Motivos horroríficos povoam o inconsciente coletivo e atraem, sobretudo, pessoas em idade mais "rebelde". É claro que, passada a fase do convite à anormalidade (por assim dizer), vem a descoberta da música em si. E surgem aí grandes apreciadores da boa música.
Esse morde/assopra, é/não é, garante o marketing das bandas, que não ocupam seu tempo desmentindo boatos de envolvimento com o cramulhão. Ainda assim, artistas como Rob Zombie e a banda finlandesa Lordi assumem o tom burlesco e teatral de sua música. Ambos apreciam o universo de filmes "B" de horror e convergem tal linguagem com eficiência para sua música. E o fenômeno Ghost parece trilhar o mesmo caminho, com direito a uma encenação que esconde até mesmo a identidade dos músicos – sem contar a irresistível sonoridade setentista.
Se há acusações como as que envolvem as músicas "Suicide Solution" e "A Tout Le Mond", respectivamente do Ozzy e do Megadeth, é porque os próprios detratores do estilo reconhecem sua força. E, parafraseando Marilyn Manson no documentário "Tiros em Columbine", se um adolescente se suicida influenciado por uma música, a culpa não é do artista, mas de seus pais que o criaram para ser um idiota. E é sabido que, embora a mídia mainstream tenha o hábito de pregar o contrário, os que entendem a verdadeira essência do Metal passam muito longe da idiotice.
Desde que Elvis deu seus primeiros rebolados, o Rock & Roll já cumpria seu papel de contestador. Depois vieram Beatles; The Rolling Stones; The Who, rompendo as estruturas e deixando papais e mamães cada vez mais descabelados. O Heavy Metal seria então a evolução natural de tudo isso. Se é para cutucar essa sociedade bisonha, nada melhor do que atacar sua instituição mais intocável: a Igreja. A função do Metal talvez seja muito maior do que fazer você bater cabeça. Sua missão é dar voz ao inconformismo que existe em cada um de nós!
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