Rock, Pop, Jazz, Metallica, Lulu: Quando o radicalismo cega

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Por Ricardo Seelig, Fonte: Collector´s Room
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O heavy metal é belo e magnífico, mas outros gêneros musicais também são. A liberdade do jazz é inspiradora. A aconchego do blues é confortante. A alegria do pop ilumina nossos dias. O balanço do funk (não preciso nem dizer que estou falando do funk norte-americano e não do ritmo carioca, certo?) pulsa no ritmo da vida. A música clássica nos carrega através de melodias que nunca serão esquecidas.

Não só no heavy metal, mas principalmente nele, percebe-se um preconceito e uma má vontade gigantesca com outros gêneros musicais. Essa postura, arrogante, faz com que o fã de metal acredite ser uma pessoa especial e abençoada por curtir, gostar e consumir o estilo. Para ele, os outros gêneros musicais não são dignos e verdadeiros, são todos “comerciais” (para usar um termo adorado por esse povo) e irrelevantes, não merecendo a sua atenção.

Vamos pensar um pouco a respeito disso. Falando do jazz, como pode ser comercial um gênero que não atrai o grande público? Como pode ser falso um estilo baseado na técnica, na liberdade e na improvisação de seus instrumentistas? Falando do blues, como não é verdadeiro um gênero que nasceu para dar voz às dores e anseios de toda uma raça, traduzindo em notas musicais as suas dificuldades e sonhos? Compor uma música pop é uma benção divina. Uma boa canção não é aquela que é “difícil de tocar”, como adolescentes metidos a músicos acreditam. Compor algo simples, que agrade de imediato e faça parte para sempre da vida de milhões de pessoas não é para qualquer um. Criar uma música que, nos primeiros segundos, tira as nuvens do céu e coloca um sorriso no rosto de quem a escuta, é quase um dom divino. Há uma enorme contradição na afirmação padrão do fã de heavy metal, que sempre reclama do preconceito em relação ao estilo que tanto ama quando, na verdade, ele próprio tem um enorme preconceito com os demais gêneros.

Pode-se fazer um paralelo com o mundo real. O metal pode ser representado por uma cidade belíssima como o Rio de Janeiro. Você pode passar a sua vida inteira vivendo ali, a escolha é sua. Mas o fato é que, passando todos os seus dias no mesmo local, você irá deixar de conhecer outros lugares tão belos quanto. Paris, Nova York, Londres, Roma, estão à sua espera, assim como outros gêneros musicais estão aguardando você.

Eu me recuso a acreditar que uma pessoa com dois ouvidos e um cérebro no meio, que ame música, não mantenha intacta a curiosidade pelo novo, o apetite por aquilo que não conhece. Entrar em contato com novos sons, trazer novos elementos para o nosso cotidiano, é o que nos faz crescer. Viver trancado, seja em uma pequena cidade do interior ou dentro dos limites de um gênero musical, é frustrante.

Podemos fazer outra analogia para exemplificar ainda mais esse atitude. Sabe aquelas pessoas que crêem cegamente em uma religião, acreditando tão fortemente em uma ideia, em um conceito, que acabam pegando como verdade especulações que são claramente espatafúrdicas, como o anúncio do fim do mundo e a propagação de teorias conspiratórias sem pé nem cabeça? Um fã radical de um gênero musical não é muito diferente disso. Crer que existe qualidade apenas no estilo que você gosta é uma burrice, uma estupidez. Todo gênero musical têm características e atributos únicos, que o fazem ser diferente dos demais. Você pode idolatrar o Iron Maiden, por exemplo, e ao mesmo tempo adorar os Beatles. Ambas são bandas que mudaram a história do rock, e não entender e admitir isso é não enxergar o que está na sua frente.

Gosto pessoal é uma coisa, e cada pessoa não só tem como deve possuir o seu. Já o impacto e a influência são fatores independentes a isso. O fato de você não curtir o trabalho de alguém não o torna menos importante. Quer um exemplo clássico dentro do heavy metal? Virou clichê todo fã do estilo falar mal do Nirvana. A raiz disso está no fato de que, ao alcançar o topo das paradas em 1991 com o ótimo "Nevermind", a banda expulsou dos 'charts' os grupos de hard rock farofa que davam as cartas nas rádios e na MTV na época, em uma situação semelhante ao que o Sex Pistols e o movimente punk fizeram com os gigantes do rock progressivo no final dos anos setenta. Porém, ao culpar o Nirvana pelo ocaso dessas bandas, os fãs não conseguem enxergar o óbvio: o hair metal sucumbiu aos seus próprios excessos – novamente, em um caso parecido com os dinossauros progs, que se perderam em sua própria auto-indulgência. O visual, os figurinos, o exagero de ícones do hard farofa como Poison, Warrant e Winger abreviaram a vida do estilo, cansando o grande público.

Isso sempre aconteceu com qualquer moda, em qualquer tendência, desde sempre. Ao sair dos limites de seu gueto e se transformar em um fenômeno cultural de massa, todo gênero musical, ao mesmo tempo em que alcança um número muito maior de pessoas, causa desagrado nos ouvintes que sempre lhe deram apoio. E, ao deixar de ser a bola da vez, esse mesmo gênero volta para os limites desse universo de ouvintes que sempre lhe deu apoio e forma a sua base. Foi assim com o hair metal e foi assim também com o grunge.

A cegueira causada pelo radicalismo está fazendo com que milhões de ouvintes, no Brasil e no mundo, deixem de ouvir um dos álbuns mais intrigantes e originais dos últimos anos. A união do Metallica com Lou Reed produziu um disco único, dono de uma beleza inquietante que, infelizmente, não será entendida por uma grande parcela do público. O motivo disso está no fato de que a maioria dos fãs do Metallica habita um limbo, um local onde o tempo parou em 1988, no álbum "… And Justice for All". E, desde então, em cada um desses 23 anos essas pessoas ficaram esperando que a banda lançasse novamente um disco de thrash metal, um disco “verdadeiro” e “não comercial”. Já o grupo fez exatamente o contrário, transformando-se em uma das maiores bandas do planeta com o multiplatinado "Black Album" (1991), seguindo o mesmo direcionamento musical em "Load" (1996) e "Reload" (1997) (álbuns que não apresentam uma ruptura sonora com o "Black Album", mas que, entretanto, são extremamente criticados pelos fãs - a razão disso está, pasmem, no visual da banda, já que eles apareceram de cabelos curtos, e não na música em si) e seguindo o rumo de suas próprias aspirações, que culminaram com o – nesse caso – justamente malhado "St Anger" (2003), um álbum sem pós-produção gravado durante um dos períodos mais problemáticos da banda – para entender o que eu estou falando, assista o documentário "Some Kind of Monster". O Metallica conseguiu agradar os seus fãs com o bom "Death Magnetic", lançado em 2008, onde soou heavy metal como há tempos não soava.

O principal erro de quem vai ouvir "Lulu" é esperar algo na linha dos três primeiros álbuns do grupo, um som que o Metallica, como vimos, não executa há mais de duas décadas. O primeiro passo para absorver a parceria entre Lou Reed e o Metallica é entender que "Lulu" é um disco de Reed com o Metallica, e não do Metallica com Reed. O que isso quer dizer? Isso significa que o direcionamento musical do álbum segue a evolução da carreira de Lou Reed, e não do Metallica. Traduzindo: você irá ouvir nas faixas do disco o que Reed sempre cantou em suas músicas, e não algo como “Seek and Destroy”. Entendeu ou quer que eu desenhe? Tendo isso claro, a coisa muda de figura.

Outro ponto fundamental é a compreensão do conceito proposto. Reed e o Metallica compuseram a trilha imaginária para uma peça de teatro, e é preciso ouvir o disco dessa maneira. Aqui, vale um comentário. Ao analisar qualquer obra artística, o ponto inicial de quem escreve a respeito é justamente esse: entender o objetivo do autor. Analisar um disco, um livro, um filme, a partir de outro ponto de vista, é um erro. Entendendo o objetivo, somos capazes de julgar a qualidade. E ela pode ser boa ou ruim. No caso de "Lulu", um dos pontos mais complicados, e que dificulta a absorção do trabalho, está na estrutura das músicas, que não se prendem ao formato padrão do rock, com estrofe-refrão-estrofe-solo-refrão. As faixas não foram feitas para serem ouvidas em uma reunião de amigos, por exemplo, mas sim com outro objetivo: refletir as diferentes nuances e momentos do um enredo teatral. Dessa forma, as composições variam entre a euforia absoluta - “Mistress Dread” - e a beleza acolhedora - “Junior Dad”. A revelação do álbum é justamente essa: uma jornada pelas emoções humanas.

Você pode pensar que tudo isso que eu escrevi é uma tremenda bobagem. Isso seria uma pena. Pense em seus ídolos. O Black Sabbath, por exemplo. Se a banda voltar com a formação original agora em 2011, você acha que ela soará como soou em seus álbuns clássicos, lançados na primeira metade dos anos setenta? É claro que não. Se Robert Plant aceitasse participar de uma reunião do Led Zeppelin, você pensa que o grupo faria algo semelhante a "Led Zeppelin IV"? Não, não faria. São épocas diferentes, momentos diferentes. Ozzy, hoje com 63 anos, é um cara muito diferente de quando tinha 25.

Para ficar ainda mais claro, pense na sua vida. Quantos anos você tem? Trinta e poucos? Hoje, você certamente não pensa da mesma forma que pensava quando tinha 14 anos, correto? Sabe porque? Porque você aprendeu com a vida, foi exposto a diversas situações, amadureceu, evoluiu. Se isso acontece com você, acontece também com os seus ídolos. Um músico usa a sua arte para refletir os seus sentimentos. É por isso que, com quase 50 anos, James Hetfield não é mais o moleque espinhudo e cabeludo de "Kill 'Em All". Ele mudou. A sua vida mudou. A sua música mudou. Para pior, para melhor? Não sei, só sei a minha opinião, não a sua.

O heavy metal sempre será um estilo apaixonante. A variedade de opções que ele apresenta é magnífica. Porém, está na hora de uma parcela considerável de seus fãs também evoluírem junto com o metal e deixarem de agir como fanáticos seguidores de uma religião extremista. A música é muito mais que isso. A vida é muito mais que isso.

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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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