Metal Melódico é Heavy Metal?

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Por Júlio Verdi, Fonte: Rock-RP
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Desde os seus primórdios, a música rock sempre se caracterizou por representar um movimento cultural transgressor. A idéia de se juntar a energia e rebeldia da juventude na forma de se fazer música, originou esse estilo cinquentão, que há várias gerações se propõe a se opor contra padrões e costumes impostos pelas gerações anteriores, mas também se baseia no conceito de entretenimento. Música pra se divertir, mas à maneira que os jovens interpretam diversão, mesmo que para isso a mensagem e melodia possam ser politicamente incorretas.

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Claro que com o passar do tempo, essa idéia de música que transgrida gerações anteriores não tem muito fundamento. Posso ouvir "In Rock" (Purple), gravado em 1970 - há quase 40 anos - e ainda soará como reacionária para muita gente mais nova que eu.

De Elvis a Led Zeppelin, de Beatles a Doors, de The Who a Sex Pistols. Todas representaram uma quebra, um avanço reacionário sobre estilos de rock já praticados no passado. Todas a sua maneira, influenciaram gerações de futuras bandas. O ápice da transgressão da música rock talvez tenha sido o surgimento do heavy metal. Quando Ozzy cantou os primeiros versões da primeira música, do que é considerado o primeiro disco seminal de heavy metal ("Black Sabbath", 1970), "O que é isso que se levanta a minha frente? Um vulto preto que aponta para mim, Viro rapidamente, e começo a correr, Descobri que eu sou o escolhido...", era apresentado ali ao mundo o estilo que chocaria até mesmo o mais louco consumidor de rock clássico e abriria as portas para toda uma geração de bandas que no estilo investiria e o aprimoraria.

Nomes como Iron Maiden, Judas Priest, Saxon, Manowar e outros iniciavam a epopéia de um estilo puramente agressivo, sem concessões para influências de blues ou outra herança de rock puro, que bandas como Rainbow, Led, Purple, Kiss, Van Halen, Jethro e outras praticavam. Era heavy metal puro, com velocidade, pegada, letras duras. Com melodia sim, mas uma linha melódica aplicada a riffs e solos enfatizando a velocidade e distorção, elementos do DNA do estilo.

Até que, em 1985, uma banda alemã chamada Helloween mostrava ao mundo seu primeiro trabalho, um EP auto-intulado que trazia sim a pegada e velocidade do heavy metal clássico, mas tinha um diferencial: uma levada melódica que lembrava e muito as melodias eruditas, além de coros e backings até então inusitados. Após a adição do vocalista Michael Kiske, um jovem com uma voz impressionante, que conseguia alcançar notas tão altas, sem perder a afinação, a banda lançou em 1987 o disco "Keeper of the Seven Keys I". O trabalho mantinha a velocidade e pegada dos anteriores, mas a produção mais polida, evidenciando ainda mais as referências eruditas em solos e andamentos, aliada a vocalizações fortes de Kiske definiria ali o pontapé inicial do estilo que faria a cabeça de muitos jovens amantes de heavy metal da próxima geração: o metal melódico.

Dezenas de bandas que vieram após o Helloween atingiram status internacional apostando nesse som polido, técnico e bem produzido. É aí que entra a discussão: o heavy metal tinha em sua essência a idéia de transgressão, originária dos vários estilos de rock que o precederam. Uma música excessivamente polida, técnica e muita bem produzida seria exatamente um símbolo de transgressão?

Muitos fãs mais antigos ou fãs de estilos mais extremos como Death ou Black, simplesmente têm ojeriza de toda a cena melódica. Em sua concepção, e não há como tirar a razão disso, falta uma pouco de maldade e rebeldia nessa música toda certinha e polida.

Então metal melódico seria um estilo "poser", uma moda, uma falsa intervenção musical que se distancia da essência reacionária do metal clássico e do próprio rock and roll?

Evidentemente que não. A resposta pra esse imbroglio da filosofia rock pode residir naquilo que sempre me baseei pra separar o que tem mais ou menos qualidade na música: a força da composição.

Independente do estilo, da produção, a música que se eternizará será a música bem composta. Não importa se a timbragem ou produção do disco não estão redondos ou cristalinos, se a composição for boa, a música vai ser sempre lembrada. Assim também você pode ouvir um disco inteiro de metal melódico, límpido, certinho e não encontrar uma só música que vá lembrar nos próximos meses.

Acredito que técnica é algo fundamental para a música metal. Sem ela, por exemplo, o Iron Maiden não seria o principal nome do estilo. Mas ela não é elemento único que se sustenta. Sem o feeling, o poder de composição, uma música torna-se óbvia e semelhante a muita coisa que se fez antes.

Se bandas como o próprio Helloween, Blind Guardian ou Edguy se destacaram é porque em seus trabalhos sobram qualidades nas composições. Fugiram do óbvio. Fugiram da mesmice. E talvez por isso serão lembradas por muito tempo e trazem o respeito de fãs de outros estilos de metal.

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Sobre Júlio Verdi

Júlio Verdi, 45 anos, consome rock desde 1981. Já manteve coluna de rock em jornal até 1996, com diversas entrevistas e resenhas. Mantém blogs sobre rock (Ready to Rock e Rock Opinion) e colabora com alguns sites. Em 2013 lançou o livro ¨A HISTÓRIA DO ROCK DE RIO PRETO¨, capa dura, 856 páginas, trazendo 50 de história do estilo na cidade de São José do Rio Preto/SP, com centenas de fotos, mais de 250 bandas, estúdios, bares, lojas, festivais e muitos outros eventos. Curte rock de todas as tendências, em especial heavy metal e thrash metal.

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