Livro causa polêmica entre fãs de Progressivo

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Por Marcos A. M. Cruz
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"Para muitas pessoas, em particular no Brasil, o rock progressivo foi sinônimo de "viagem". Essas criaturas que assim pensaram, jamais enxergaram o caráter de introspecção que havia por trás desse universo sonoro criado pelos jovens."
(Valdir Montanari)

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Existem a grosso modo duas maneiras de se lidar com a informação: de forma objetiva e de forma subjetiva. A primeira se reporta somente a fatos estabelecidos, 99% incontestáveis, e dificilmente geram comentários ou reações adversas; já a segunda, por conter embutida uma certa "opinião pessoal" de seu emissor, acaba sempre causando alguma espécie de polêmica, pois para relembrar Nelson Rodrigues: "toda unanimidade é burra".

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A situação se torna ainda mais delicada quando se trata de uma opinião sobre algo ligado à criação artística, pois diferentemente de um conceito emitido mediante um fato que pode ser explicado através da argumentação sobre um fato concreto e de certa forma "palpável" (ex.: fulano é um bom jogador de futebol, pois faz muitos gols para seu time), estamos lidando com uma coisa totalmente abstrata, que depende basicamente da maneira como a pessoa que é "atingida" pela mensagem transmitida pelo artista vai receber tal obra (donde se conclui que o conceito atribuído a Einstein de que "tudo é relativo" têm fundamento até no mundo das artes...).

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O mais curioso é observar por parte de alguns admiradores de determinados estilos o radicalismo que impera, pois tais fãs consideram o que ouvem como a "única forma de arte verdadeira, que conduz à redenção", tal qual fiéis de uma igreja que acreditam serem os únicos que serão conduzidos ao paraíso...

Isto gera algumas situações pitorescas: a) o indivíduo se recusa a ouvir algo que não esteja dentro deste universo imaginário, com isto se tornando cada vez mais fechado dentro de seu mundo, e por conseqüência, ainda mais radical; b) quando deparado com alguma coisa que fuja deste seu universo, mas que lhe atraia a atenção, costuma associá-la com o gênero que tanto ama. Ex.: O "And Justice For All" do Metallica é um álbum quase progressivo, por isso é bom!

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Bem, se o leitor teve paciência de chegar até aqui, ou seja, se está atrás de mais que uma simples informação, talvez uma opinião embasada sobre uma lógica construída progressivamente(!) sobre o qual possa refletir, discutir ou até mesmo confrontar abertamente, então provavelmente vai se interessar pelo livro "As Obras Primas Do Rock Progressivo", de autoria do Jefferson Araújo Pereira, redator da revista Rock Brigade desde o final da década de 80, que desfila uma série de raciocínios para justificar o que entende pela expressão "Rock Progressivo".

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"Em inglês, a palavra 'progressive' tem um significado bem amplo, e serve para designar não só aquilo que avança no espaço, mas também no tempo. Como a língua portuguesa é muita rica, ela permite que tenhamos as duas traduções possíveis. Na década de setenta, a imprensa brasileira resolveu, sem refletir sobre o vocábulo, traduzir ao pé da letra, adotando de chofre o 'progressivo'. Acontece que 'progressista' dá uma idéia mais precisa dos trabalhos realmente evoluídos, vanguardistas na mais perfeita acepção da palavra, inclusive com respeito à concepção político-filosófica e social. Dessa feita, costumo chamar de progressistas os artistas que contribuem, de fato, para a evolução do rock e música em geral".

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Esta citação acima, novamente extraída do livro "Rock Progressivo" do Valdir Montanari, pioneiro no assunto, lançado na década de 80, de certa forma serve como ponto de partida para as idéias do Jefferson, pois em seu livro ele exclui boa parte das bandas consideradas "progressivas" pelos fãs do gênero, argumentando que elas não apresentam uma característica básica do estilo, que é o de "progressão artístico-musical".

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Logicamente tal posição desagradou a alguns fãs do estilo; eis a resposta do Jefferson em suas próprias palavras: "é muito fácil agradar 99,99% dos Proggers brasileiros: basta escrever um livro de 800 páginas, dividido em dois capítulos. O capítulo l teria uma única frase: 'todos os grupos e discos de Rock Progressivo são maravilhosos!' (repetindo: apenas esta frase). Capítulo ll: 799 páginas com a reprodução (colorida, frente e verso) de todas as capas de todos os discos de Prog-Rock que foram lançados entre 1967 e 2001. Este seria o livro 'perfeito'. Nenhuma crítica. Nenhuma opinião pessoal".

Na realidade, o próprio livro do Montanari suscitou uma série de controvérsias na época, pois ele catalogou bandas como The Doors e Steppenwolf como sendo "progressistas"...

Não é a primeira vez que Jefferson escreve sobre o tema, pois em setembro de 1989 foi publicada uma matéria de sua autoria na revista Rock Brigade, que continha a seguinte introdução: "o Progressivo e o Heavy Metal são as duas tribos mais importantes da história do Rock. É nessas duas correntes que encontramos o virtuosismo roqueiro".

Gênio? Polêmico? Idiota? Abóbora que late? Seja como for, vale a pena ler o livro para decidir qual a melhor definição para seu autor - e na pior das hipóteses, a leitura com certeza fará o leitor refletir um pouco sobre o tema, pois desde que uns jornalistas britânicos resolveram batizar o novo tipo de música que vinha então surgindo, que continha letras e arranjos mais elaborados, ao mesmo tempo flertando com o jazz e com o erudito, com o nome "progressive jazz", ninguém até hoje chegou a um consenso real sobre como definir o estilo... pessoalmente, acho que se tivessem escolhido um outro nome, talvez não houvesse até hoje tanta polêmica...

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Sobre Marcos A. M. Cruz

Fanático por rock setentista.

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