Ira! grava cover do The Clash em disco acústico

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Fonte: Terra Música
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Matéria de 01/04/04. Quer matérias recentes sobre Rock e Heavy Metal?

Marcelo Costa

Com mais de 23 anos na estrada e muitos sucessos no repertório, o grupo Ira! gravou na semana passada seu álbum acústico com marca MTV. "Foi excelente. Nós ficamos quase seis meses preparando o acústico e deu tudo supercerto", contou o guitarrista Edgard Scandurra em entrevista ao Terra. Porém, dias antes, o quarteto estava no Sesc Itaquera, em São Paulo, com guitarra e baixo plugados e muitos fãs na platéia entoando canções como Envelheço na Cidade, Bebendo Vinho, Dias de Luta, Entre Seus Rins, Gritos na Multidão e uma versão para Train in Vain (The Clash) celebrando o bom e velho e rock and roll. Deste show elétrico, o Terra traz dois vídeos, registro das canções Gritos na Multidão e Train in Vain.

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A pedido do Terra, Edgard relembrou como foi compor Gritos na Multidão e falou da influência do The Clash sobre o grupo. "Gritos na Multidão foi feita na época das greves no ABC, é primórdios do Ira! mesmo, 1980/1981", lembra o músico. "Ela foi inspirada nisso, no fato de pessoas dessa geração pós-revolução estarem enfrentando o poder, talvez pela primeira vez. Foi um levante que não tinha nada a ver com os elitistas. Foi uma coisa mais popular mesmo, sem ser guerrilheira, uma coisa de sindicato. Essa música fala mais ou menos sobre isso, como se fosse uma marcha popular contra o poder. Na época, na minha adolescência, uma das coisas que eu mais gostava de falar era 'abaixo o sistema', era questionar o poder. Gritos na Multidão é bem nesse espírito, politizada, não tão anárquica como outras do Ira! dessa fase, mas é uma coisa política, engajada", explica.

"Hoje em dia ela acabou se tornando uma espécie de hino jovem. Ela mantém esse espírito revolucionário e as pessoas que estão se identificando são cada vez mais jovens. É um hino juvenil de inconformismo e revolução", analisa.

Já o The Clash é uma grande paixão da banda. O vocalista Nasi e o baixista Ricardo Gaspa apontam como disco preferido London Calling, obra-prima do grupo inglês. Antes de fazer essa versão de Train in Vain, o Ira! já tocava ao vivo uma acachapante versão de Should I Stay, Should I Go?, um dos grandes sucessos do grupo de Joe Strummer e Mick Jones. A canção, aqui elétrica, foi incluída no acústico. "O The Clash, assim como o The Jam e mesmo o Sex Pistols, a gente tem como irmãos mais velhos da banda. Eles nos influenciaram muito quando a gente estava começando em pensar em fazer uma banda. Quando começamos a dar atenção ao punk, os caras já estavam com seus discos ai. Para nós, eles foram super importantes, tanto que uma das traduções de Ira em inglês é Clash.", explica.

Edgard, no entanto, lembra a inspiração original para o nome do grupo. "Claro que nós nos inspiramos mais no Exército Revolucionário Republicano Irlandês, o Ira, do que no The Clash, mas acabou sendo uma coincidência legal e acho que a gente carrega essas coisas, além de pontos em comum como a indignação, principalmente no início da nossa carreira. Depois os caminhos foram se modificando e a temática deixou de ser uma coisa somente política para ser uma coisa mais romântica, mais existencialista. Essas bandas são muito importantes, assim como The Who, Led Zeppelin, Rolling Stones, mas se diferenciam, pois são bandas quase que da mesma geração que a nossa. A gente pegou o jeito de vestir, a poesia, a sonoridade, a maneira de tocar com guitarras mais limpas, menos virtuoses. Isso é tudo uma herança que tem muito a ver com The Clash e o The Jam, que são bandas muito importantes para a gente", analisa.

Para a versão, a banda procurou dar um toque de modernidade na batida da canção, original de 1979. "A gente deu uma pegada mais moderna, uma coisa mantrica, meio eletrorock, que já é referência da música eletrônica. Criamos uma batida nova em cima da letra, que é quase uma tradução literal feita pelo Nasi", explicou Scandurra.

Acústico MTV
O álbum acústico deve chegar às lojas em maio em formato CD e DVD, contando com muitos 'lados b' do grupo, além de cinco canções inéditas e participações dos Paralamas do Sucesso, Pitty e Samuel Rosa. "Foi superlegal e bem emocionante tocar com o pessoal dos Paralamas em peso no palco, o trio. A seleção de músicas que a gente escolheu não ficou com uma cara apelativa, com só as óbvias. Foi uma escolha bem diferenciada, muitos lados B. Entraram várias músicas que a gente sabia que as pessoas gostavam, mas, por um motivo ou por outro, a gente deixou de tocar. Então resgatamos Girassol, Tarde Vazia, Boneca de Cera, Quinze Anos, Tanto Quanto Eu, além de incluir cinco músicas inéditas", explica o guitarrista.

Além de ser o principal compositor e guitarrista do Ira!, apontado por muitos como o melhor guitarrista brasileiro, Scandurra mantém uma prolífica carreira solo, cujo rebento mais novo, Dream Pop, foi lançado sob o nome de Benzina e tem show marcado para o megafestival de música eletrônica que acontece em São Paulo, em abril. Isso mesmo. Ele toca violões no Ira! e se parte para a eletrônica no Benzina. "É uma coisa engraçada. Eu tentei, em uma época, aproximar as duas fontes de trabalho, mas cada vez mais eu vejo que o Ira! pertence a um universo e a música eletrônica pertence a outro. Agora com os violões nem se fala. Terminei o acústico do Ira! e a minha maior preocupação é o Skol Beats, em que vou participar com o Benzina".

No entanto, por mais que sejam opostos, Edgard consegue encontrar semelhanças nos trabalhos. "É uma outra viagem completamente diferente, mas que tem em comum aquela coisa bacana que o Ira! também consegue ter, que é de deixar as pessoas prestando atenção no nosso som, e não só se juntando para cantar os hits conhecidos. É a mesma reação que as pessoas tem quando vão ver o Benzina ao vivo. Elas dançam, tudo, mas estão prontas para novas sensações musicais. O Ira!, mesmo no formato básico com violões, tem a preocupação de criar sensações sonoras para que as pessoas tenham viagens enquanto estão ouvindo a gente, não fique só um punhado de canções para abraçar a namorada e sair cantando. É uma coisa mais instigante, mais provocativa", finaliza.

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