O mundo pós-MP3: arquivos FLAC e o futuro da audiofilia
Por Nacho Belgrande
Fonte: Site do LoKaos Rock Show
Postado em 21 de setembro de 2011
A fita cassete matou as ‘8-track’.
O CD matou o cassete.
E os formatos digitais estão fazendo um belo trabalho com o CD.
Somente o vinil resistiu ao teste to tempo, apesar de ser mais um item de nicho do que um produto de massa.
Mas tal transição – música digital em aparelhos portáteis agora movendo para o sistema ‘Cloud’ – deve ter o efeito contrário. Ela deve criar um campo de execução maior onde tanto os formatos existentes como os digitais possam vingar.
A beleza do sistema ‘cloud’ é que a música pode ser armazenada em um local e pode ser acessada por diversos aparelhos fazendo uso de diferentes tipos de redes. A cloud não é um mundo onde tudo roda e se encaixa, e isso gera uma explosão de formatos de música. "Serviços como esse vão matar a ideia do que é um arquivo", diz o Vice-presidente sênior de Tecnologias Emergentes da Warner Music Group ETHAN KAPLAN. "As pessoas vão parar de se importar com arquivos e formatos de arquivos… presumindo que a melhor qualidade possível está sendo enviada do outro lado."
Pelo fato de "o outro lado" abrigar tantas mídias diferentes – telefones móveis, computadores domésticos, caixas de som com som surround, e em breve até mesmo som de carros – os fornecedores de música pela ‘cloud’ precisam de diferentes formatos para assegurar que a experiência do ouvinte seja a melhor que possa ser em cada um desses meios. Por exemplo: para cada canção disponível no (provedor de cloud) Rhapsody, há até uma dúzia de formatos diferentes – desde arquivos em MP3 de 64 Kbps até arquivos AAC de 192 Kbps – armazenados para casos de uso diferentes como o streaming para um telefone móvel ou para o download por parte de um computador doméstico.
O ubíquo formato MP3 emergiu no fim dos anos ’90 como um arquivo altamente comprimido que permitia que usuários enfiassem milhares de músicas em um dispositivo portátil. Um arquivo em MP3 de 64 Kbps tem em média 2 MB. Do outro lado do espectro estão os arquivos sem perda e com qualidade de áudio superior, como o FLAC (free lossless audio codec) ou o Apple Lossless, que são em média arquivos de 16-bits, a 44 kHz. Considerados como ‘CDQ’ ou ‘qualidade de CD’, eles têm em média 32 MB cada. Um serviço de cloud poderia facilmente estocar esses arquivos de maior qualidade para seus usuários, mas com certeza não poderia efetuar um streaming deles para qualquer aparelho. Além do fato de que transmitir uma música de 32 MB via streaming em tempo real para um telefone móvel e quase impossível, os custos para fazê-lo seriam astronômicos tanto para o provedor quanto para o usuário.
"Streaming de arquivos de alta qualidade exige uma banda muito mais larga, ’ diz o chefe de produtos da Rhapsody, Brendan Benzig. "Haverá limitações quanto ao streaming de arquivos lossless em comparação ao que a maioria das empresas está fornecendo. Em termos gerais, seria proibitivo hoje em dia."
Isso porque, hoje em dia, tanto as redes sem fio como terrestres estão cobrando pelo montante de dados transmitidos. Tais custos irão cair à medida que a capacidade das redes e da banda larga continuar a aumentar. Mas mesmo se fosse técnica e economicamente possível transmitir um arquivo sem compressão para um telefone móvel, valeria a pena? De acordo com várias ‘degustações’ e opiniões de usuários em fóruns para audiófilos, o ouvinte comum não consegue perceber a diferença entre um arquivo sem compressão e um de 256 Kbps quando eles são executados em um dispositivo portátil através de fones de ouvido comuns. Então por que pagar mais por um stream de qualidade maior para o mesmo dispositivo? Mas com certeza é possível transmitir arquivos sem compressão da ‘cloud’ para um computador doméstico ou a um sistema de entretenimento conectado à internet. E a capacidade da internet via terrestre é bem maior do que a da sem fio. Mas fazê-lo ainda traria um custo para o fornecedor da cloud, e pelo menos hoje em dia não há pessoas solicitando o streaming de música para suas salas de estar o suficiente – muito menos aquelas que estariam interessadas em arquivos de qualidade superior – para justificar tais gastos.
"A demanda dos consumidores não pode estar lá ainda por causa das limitações de infra-estrutura," diz um executivo de uma grande gravadora digital. "Os varejistas não vão correr atrás disso até que haja uma oportunidade real de mercado."
À medida que os serviços de cloud crescem em popularidade, tal oportunidade de mercado irá surgir. Atualmente, serviços como o HDtracks [@hdtracks] vendem "downloads de músicas de alta qualidade para audiófilos", assim como sites como o Ariama [@Ariama], Naxos [@Naxosrecords] e o Beatport ["beatport] – que almejam gêneros mais propensos à audiofilia, como música clássica, jazz e eletrônica. Não é difícil imaginar que outros igualmente interessados em atender ao nicho de audiófilos oferecerão experiências de streaming de alta qualidade também.
Afinal, tudo poderia levar a novos lucros. Uma vez que haja assinantes potenciais o suficiente para tornar tudo isso compensador, os fornecedores de serviços de cloud irão começar a oferecer pacotes para audiófilos que cobram mais por arquivos de qualidade superior e que se adéquam melhor a seus sistemas de ponta. O preço maior cobriria tanto os custos aumentados para executar-se o streaming de um arquivo maior como das taxas de licenciamento mais altas que as gravadoras com certeza pedirão – as atuais licenças só cobrem certas especificações de qualidade, de acordo com fontes em gravadoras.
"O público doméstico para nós ainda é relativamente pequeno," diz Benzig. "Mas é aí que vemos a oportunidade de alavancar a banda larga que entra naquela casa sem as mesmas limitações que temos na mobilidade. É aí que as pessoas tendem a gastar muito dinheiro na experiência auditiva. É um mercado pequeno hoje em dia, mas poderia ser um mercado de massa no futuro, quando mais mecanismos e serviços ficarem conectados em uma casa."
Fonte: edição estadunidense impressa da revista Billboard de maio de 2011.
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