Megadeth: o medo e a incerteza no mundo pós-"'Risk' e Friedman"
Por Nacho Belgrande
Fonte: Playa Del Nacho
Postado em 21 de janeiro de 2014
O que segue abaixo é um trecho traduzido da autobiografia de Dave Ellefson, "My Life With Deth – Discovering Meaning In A Life of Rock & Roll" – escrito à quatro mãos com a colaboração do autor JOEL MCIVER e prefácio cunhado por ALICE COOPER – no qual ele relata a dor e o desespero daquela ocasião. Nele, o baixista do MEGADETH fala das atribulações da banda depois do fracasso de crítica e público do álbum ‘Risk’ [1999] e da saída de Marty Friedman da banda.
[...]
As tensões entre a banda finalmente explodiram depois de uma longa e acalorada discussão no ônibus de turnê após um show na Filadélfia. Enquanto íamos para Myrtle Beach, na Carolina do Norte, Dave fora enfático em afirmar que deveríamos focar nosso direcionamento musical de volta ao thrash metal. Defendendo ele, ele não queria mais fingir ser uma banda pop. Eu nunca esquecerei o que foi dito em seguida: eu estava sentado no sofá do lado direito da sala e Marty estava do lado da geladeira, quando ele mandou na lata, ‘Se for essa a direção que vamos seguir, então eu to fora’, e foi dormir. O silêncio era ensurdecedor.
Eu não tinha certeza se queria voltar ao thrash metal old school naquela altura tampouco. Eu não sabia o que eu queria. Por um lado eu achava que deveríamos evoluir, que como humanos, deveríamos crescer em novas direções. Eu gostava de tocar as músicas mais lentas em grandes casas para públicos enormes. Mas aqueles dias estavam chegando ao fim e uma mudança era necessária. Isso estava claro para todos nós.
No dia seguinte, Dave me telefonou em meu quarto de hotel para me informar que Marty tinha saído do Megadeth. Estávamos ambos atônitos. O Que estava acontecendo com a nossa banda?
MARTY FRIEDMAN [ex-guitarrista]:
"Ellefson entendeu minhas razões para deixar o Megadeth. Eu não senti nenhum ressentimento por parte dele, na época ou depois. Foi muito legal da parte dele relevar eu ter saído do Megadeth em um mau momento."
Dave e eu passamos por tantos músicos em nossa carreira, mas quando as coisas estavam em ascensão, ninguém queria sair do Megadeth. Agora que estávamos caindo, aquilo não parecia tão atraente. Restando um mês de turnê, cancelar shows não era uma opção. Tínhamos dívidas, e mal conseguíamos manter a coisa toda funcionando – e agora um componente vital de nossa banda ia nos deixar.
Sabíamos que a reação dos fãs não ia ser boa. Por melhor que Jimmy DeGrasso fosse, muitos fãs do Megadeth sentiam falta da formação de ‘Rust In Peace’, que tinha contado com Nick Mena. Sem Marty, a coisa seria ainda pior. A equipe estava se desintegrando, mas não tínhamos escolha a não ser marchar em frente. Jimmy era um profissional absoluto, e fracasso não existia no dicionário dele. Ele rapidamente indicou Al Pitrelli como substituto imediato para Marty de modo que pudéssemos continuar com as apresentações.
Ao mesmo tempo, estávamos engrenando nosso primeiro patrocínio corporativo pra valer, com a fabricante de equipamentos de som JVC. Quem é que sabia o que eles iam achar do amassado em nossa armadura causado pela saída de Marty? Nosso primeiro teste de verdade foi um show corporativo acústico para a JVC em uma feira de negócios em Las Vegas no começo de 2000. Pagamos a passagem de avião de Al para que ele fosse nos ver tocar, e ele veio até meu quarto de hotel depois do show para que nos sentássemos e começássemos o processo de aprendizado do set ao vivo de dezoito músicas. Por melhor que Al fosse, ele estava longe de conseguir tocar as partes de guitarra de Marty em tão pouco tempo, muito menos reproduzir o modo de se tocar thrash metal autêntico. Ele era um cara do rock n’ roll, não um sujeito curtido no metal.
Felizmente, Marty concordou em ficar por mais algumas semanas, trabalhando diariamente com Al no ônibus para ajudar ele a se adaptar. Eu também me sentava com Al e passava os arranjos, como eu sempre fizera com os novos membros. Al nunca havia estado antes em uma banda que compreendesse o papel essencial de abafamento da palhetada no thrash metal. Mas Al é um músico fantástico, e ele realmente se manteve firme sob pressão.
Na verdade, a estreia de Al com o Megadeth se deu antes do que ele esperava. Marty, que agora viajava de avião para os shows separado do resto da banda, sofreu o que parecia ser um ataque de ansiedade a certa altura, o que exigiu que procurássemos por outro guitarrista imediatamente. Marty deveria ter tocado seu último show conosco no dia 16 de Janeiro de 2000, no Commodore Ballroom em Vancouver, mas o relógio andava, e nem sinal e Marty. Meia hora antes de entrarmos em cena, Dave olhou para Al e disse a ele para se preparar para subir ao palco.
O show correu bem – a banda soava mais pesada do que soara em anos. Essa transição final tanto de Marty como de Nick para fora do grupo precisava acontecer, olhando agora. Al e Jimmy tinham um estilo de tocar muito mais focado na batida, o que ancorava a banda mais do que jamais ocorrera. Como baixista, eu amava aquilo. Estávamos desenvolvendo um novo som. Era revigorante, e mais uma vez, éramos de novo eu e Dave além de dois caras novos. [...]
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