Kisscândalo: leia um trecho da autobiografia de Paul Stanley

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Por Nacho Belgrande, Fonte: Playa Del Nacho
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Trecho traduzido para o português da vindoura autobiografia de PAUL STANLEY, "Face The Music: A Life Exposed", a ser lançado no dia 8 de Abril pela editora HarperOne.

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[...] "Peter pendurava um cartaz todo dia contando regressivamente o número de dias restantes da turnê de despedida. Ele começou a pintar uma lágrima abaixo de sue olho. Eu achava que aquilo o deixava parecido com o famoso personagem Weary Willie, de Emmett Kelly, o trágico palhaço que viajava com o Ringling Bros. Circus, e com o Barnum & Bailey Circus. E quanto ao resto de sua maquilagem, era como se ele tivesse esquecido de como fazê-la. Ele começou a parecer um urso panda, com grandes retângulos em volta de seus olhos.

A turnê foi horrível. Sofrimento e drogas eram constantes. Gastamos toda nossa energia tentando arrancar Peter e Ace para fora de seus quartos de hotel. Ace deu um soco do nada em Tommy em um dos shows. Peter tinha sua costumeira série de exigências sobre como o staff dos hotéis deveria tratá-lo e quais janelas deveriam ser cobertas com papel alumínio e tudo mais. Nós nunca sabíamos se chegaríamos a um show na hora certa, e quando subíamos ao palco, nunca sabíamos se acabaríamos o show. Quero dizer, se um cara tem problema para por maquilagem, como é que ele vai tocar? Sem surpresa alguma, os shows ficavam bem ruins ás vezes.

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Eu estava puto com Peter e Ace por serem desrespeitosos em relação a tudo que tínhamos conseguido e tudo que os fãs estavam nos dando. Eu comprei a ideia de que aquilo tinha acabado. O fim do Kiss. Não havia para onde ir. Era insuportável.

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Estávamos engaiolados musicalmente também – basicamente tocando as mesmas 17 músicas que tínhamos ensinado a eles para a reunião inicial. Essa era a terceira turnê com o mesmo set list. Peter e Ace simplesmente não davam mais conta. A bitola já estava batendo no vermelho. Eu tinha que inventar respostas absurdas em entrevistas sobre o porquê de estarmos tocando as mesmas músicas. Eu não podia simplesmente dizer, "porque Peter e Ace não conseguem mais aprender nenhuma outra."

Certa noite, durante um show, Doc McGhee tentou chamar minha atenção do lado do palco, fazendo gestos para mim e apertando seu nariz.

Huh?

"Vocês estão uma merda!", ele ficava repetindo. "A porra do Peter está tocando devagar demais", eu disse a ele. Doc correu para trás do praticável da bateria e começou a fazer o mesmo gesto para Peter. "Peter, você está tocando devagar demais!" "Bem, eles também estão!", Peter respondeu. "De que diabos você está falando?" Doc gritou. "Você é o porra do baterista!". Em outra noite, Peter tinha um novo problema. Ele parou de tocar no meio de uma música e só levantou as baquetas e me olhou como se pego de surpresa. Eu gritei, "Toca!" e comecei a bater meu pé de modo que ele pelo menos começasse a bater nas peles de novo. Isso aconteceu em mais de uma ocasião.

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Um músico bem famoso – que tinha assistido à banda muitas vezes – chegou em mim um dia e disse, "Eu não posso mais vir aos shows. É doloroso demais ouvir isso."

O pior sentimento para mim era ler resenhas descendo o pau nos shows e pensar, "isso está totalmente certo". Era uma vergonha enorme, porque a banda podia ter sido ótima e não foi. O drama fora do palco e a hostilidade e o ressentimento e a trairagem estavam afetando a música. E daí tinha a droga. Quando Ace tinha uma noite livre e fazia um monte de cagadas, brincávamos dizendo que a o bagulho dele estava estragado.

Teria sido ótimo nos despedirmos com glória musical; ao invés disso, estávamos nos arrastando. Em certo momento, tiramos um dia para repassarmos as músicas e ajustar as coisas. Ace não apareceu para um dos ensaios. Ele disse que não estava se sentindo bem porque ele tinha doença de Lyme – um mal transmitido por um carrapato de veados. Peter, o grande gênio que ele é, disse, "Conversa fiada! Ele nunca foi mordido por um veado!"

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No dia 11 de agosto de 2000, tínhamos um show em Irvine, Califórnia, depois de uma semana de folga. Ace tinha passado a semana em Nova Iorque. Tínhamos uma regra de que se qualquer um de nós fosse viajar de avião pro outro lado do país em um voo comercial para chegar a um show, ele tinha que chegar um dia antes – apenas para ter uma margem de segurança, caso houvesse uma tempestade ou um problema mecânico ou o que fosse. Não queríamos ter que cancelar shows.

Um dia antes do show em Irvine, Tommy tinha arrumado uma limusine para pegar Ace e levá-lo ao aeroporto. Ele sempre fazia com que a limusine chegasse horas antes porque era a mesma labuta para tirar Ace de casa ou do hotel. Daí, todos nós ficávamos sentados esperando pelo progresso na situação dele. O horário marcado para pegá-lo era meio-dia no horário da Costa Leste.

Às 1:30PM, Tommy ligou para a limusine, "O Sr. Frehley precisa ir."

"Hm, senhor, ele ainda não saiu da casa."

Mais meia hora se passou. Tommy e Doc tentaram falar com Ace ao fone, ligando para a casa dele. Sem resposta. Depois de ligar outras cinco vezes, para lá, eles finalmente o contataram.

"Ace, você tem que entrar no carro – você vai perder seu voo."

"Tem um problema… uh… eu estou doente…" Milhões de desculpas. Eles ficaram reagendando Ace em voos cada vez mais tarde. A limusine voltava a cada vez, até as 7 e depois 8 da noite. "O passageiro não saiu da casa, senhor", dizia o chauffeir a cada vez.

Tommy conseguiu colocar Ace no fone de novo. "Tem mais um voo hoje à noite, o último."

"Okay", disse Ace. "Eu prometo."

Mas, novamente, na hora marcada, nada aconteceu. "O passageiro ainda não saiu da casa, senhor."

Vôo perdido.

No dia seguinte havia o show. Ace começou o dia do outro lado do país. Por algum pequeno milagre, contudo, ele chegou ao aeroporto pela manhã, foi recebido por um representante, e levado a seu avião.

O tráfego do aeroporto de Los Angeles até o local do show seria um problema sério. Então arranjamos para um helicóptero ficar esperando no Terminal 4, onde Ace iria desembarcar, e levá-lo ao local do show pelo ar. Desse modo, ele provavelmente chegaria a tempo para tocar.

Daí recebemos uma ligação. "Bem, temos boas e más notícias."

"As boas notícias são que Ace realmente está no avião. A má é que o avião tem um problema mecânico e está atrasado." Naquela altura, Doc mandou Tommy parar tudo que ele estivesse fazendo e que fosse para o show. Ele teria que se apresentar.

Nós viajávamos com um traje de Spaceman confeccionado especialmente para Tommy – como uma apólice de seguros. Um traje totalmente novo, com botas e tudo mais, feitos para o corpo de Tommy sempre vinha junto nos cases do figurino. Nós sabíamos que Tommy daria conta do recado, mas nunca tinha o feito pra valer.

"Vocês são como super-heróis", disse Doc. "Então Tommy Thayer vai interpretar a Batman hoje? Ainda é o Batman."

Tommy colocou a maquilagem e se vestiu. Enquanto isso, estávamos recebendo notícias sobre onde Ace estava à medida que a hora do começo do show se aproximava. Ele aterrissou… o passageiro está no helicóptero… a 70 km…

Ace entrou no camarim cerca de 20 minutos antes do horário previsto para a apresentação. Ele olhou para Tommy – totalmente caracterizado, com a guitarra, pronto pra ir – e só disse, "Ah, hey, Tommy, como vai?"

Atrasamos o show por uma hora, Ace colocou sua maquilagem, e tocamos.

O fato de viajarmos com uma roupa para Tommy não parecia incomodar Ace. Ele via tudo isso como uma graça – algo entre uma piada e uma ameaça vazia. Mas estávamos 100 por cento prontos para subirmos ao palco com Tommy. Não o vestimos daquele jeito para dar uma lição em Ace; nós o fizemos porque tínhamos um show para fazer. O mesmo tipo de comportamento inconsequente tinha levado a uma espiral descendente de décadas e agora ameaçava afundar o barco. Aquilo era um salva-vidas.

Ainda assim, Ace continuou a pensar e agir como se ele fosse insubstituível. Ele continuou a mostrar total desconsideração por todo mundo, continuando a agir como se fossemos abençoados por tê-lo. Ele se parabenizava por chegar ao show.

"Isso não vai rolar", Doc disse a mim e a Gene. "Esses caras são péssimos. Eu administro uma empresa de agenciamento, não a Cruz Vermelha. Eles não me mandam para países destruídos para reconstruir as coisas. Eu não salvo pessoas. Vocês tem que fazer mudanças." [...]




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Sobre Nacho Belgrande

Nacho Belgrande foi desde 2004 um dos colaboradores mais lidos do Whiplash.Net. Faleceu no dia 2 de novembro de 2016, vítima de um infarte fulminante. Era extremamente reservado e poucos o conheciam pessoalmente. Estes poucos invariavelmente comentam o quanto era uma pessoa encantadora, ao contrário da persona irascível que encarnou na Internet para irritar tantos mas divertir tantos mais. Por este motivo muitos nunca acreditarão em sua morte. Ele ficaria feliz em saber que até sua morte foi motivo de discórdia e teorias conspiratórias. Mandou bem até o final, Nacho! Valeu! :-)

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