David Bowie: Da transfiguração à subversão
Por Fernando Yokota
Fonte: Fernando Yokota
Postado em 11 de janeiro de 2016
DAVID BOWIE, o "camaleão do rock". Não deixa de ser verdade, mas ao mesmo tempo chega a ser triste reduzi-lo a isso para que caiba no alfarrábio do rock. Triste e injusto, porque o verbete David Bowie transpassa o rock, transborda a cultura pop e deságua na própria história da segunda metade do século XX.
Fui mais um desses que cresceu no fim da década de 80. Como muitos moleques da minha idade, a primeira vez que vi o Bowie foi assistindo a uma cópia surrada em VHS de Christiane F. numa aula. Era uma espécie de ritual de "boas vindas ao mundo adulto" ao qual muita gente passou à época. Bowie, que nunca foi só rock, deixou de ser só cultura pop e virou material escolar.
Mais ou menos à mesma época, o país inteiro ouvia David Bowie e a maioria nem sabia (eu só fui descobrir depois). O NENHUM DE NÓS de THEDY CORREA (o Rivers Cuomo antes de Rivers Cuomo) estourava com o seu Astronauta de Mármore, quem no fim das contas nem deles era. Com o Starman falando a língua de Camões, Bowie virou rock nacional.
Nem com a minha banda favorita da adolescência, o GUNS N’ ROSES, escapei do camaleão. Lendo o que tinha à época – as Top Rocks, Rock Brigades e as esporádicas Metal Edges e Kerrangs importadas – descobri que a mãe do SLASH desenhava as roupas do Bowie (sem falar no hoje confirmado affair entre eles).
Na década de 90, ninguém ficou imune ao NIRVANA, e no baixar das cortinas de KURT COBAIN a banda grava aquele que talvez seja o mais essencial dos Acústicos MTV. Agora não era mais no rádio, mas toda hora na TV passavam o clipe daquela música que fazia todo mundo querer dormir até a vida acabar. Mais uma vez, o Bowie metera o pé de cabra na porta da vida de muitos de nós com The Man Who Sold The World. Mais uma vez, este então moleque só foi descobrir depois que o memento mori de KURT COABIN na MTV era um cover de... DAVID BOWIE. Ziggy tocava guitarra, e agora usava uma camisa de flanela.
Anos depois, fui me meter a querer tocar guitarra. Eu era muito ruim, mas tinha muita vontade. O que faltava em talento tentava compensar em leitura e pesquisa. Revirando as lojas de discos e enchendo o saco dos vendedores nas lojas de discos (a internet da época), acabei virando fanático pelo PAUL GILBERT, suas guitarras coloridas com franjas e as milhões de tercinas por segundo. Comprei tudo dele. No tracklist de um dos discos do MR.BIG, vi Sufragette City e a essa altura já estava vacinado. O que eu não esperava era encontrar Moonage Daydream num disco do RACER X, a banda de metal de Gilbert dos anos 80. Pensando bem, o que era aquele visual das bandas dos anos 80 senão uma releitura meio aguada da androginia bowieana?
Paralelamente, descobri aquele que até hoje deve ser meu músico favorito: STEVIE RAY VAUGHAN. Força da natureza que foi, ele teria sido famoso de qualquer forma, mas teria este moleque no interior do Brasil descoberto o texano da guitarra surrada se não fosse pela notoriedade ganha tocando num certo Let’s Dance?
Ele, portanto, pode até ser o camaleão, mas isso não é o menos importante. A cada nova fase ele polinizava um canto do universo da cultura pop (no qual tinha laissez-passer irrestrito) e assim o fez até que a última pedra estivesse revirada e todos nós fôssemos descendentes dele. Para mim (e, tenho certeza, para muitos), a descoberta do meu gene bowieano foi um movimento de dentro para fora. Ele já estava nas bandas que eu gostava e nos filmes que eu assistia. Nunca me tornei um fã, só descobri que era. Para a história, DAVID BOWIE será lembrado para sempre pela transfiguração, mas para mim seu dom mais poderoso será sempre o da subversão.
Subversão que faz com que, do Seu Jorge ao Behemoth, sejamos todos DAVID BOWIE.
Morte de David Bowie
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Ozzfest confirma segundo país que receberá o evento em 2027
Digão explica o erro dos Raimundos: "Mamonas Assassinas foram mais inteligentes"
Helloween - um espetáculo completo na borda da cidade de São Paulo
Seven Crossroads Festival anuncia oito atrações, seis delas inéditas no Brasil
Os 10 covers mais tocados pelo Metallica ao vivo, segundo a Noise Creep
Em parceria com a Casa da Moeda Real, Pink Floyd lança palhetas em cobre, prata e ouro
A música do Metallica que deixava o público entediado, segundo Kirk Hammett
O clássico do hard rock dos anos 1980 que banda achou tão ruim que regravou
Tarja Turunen fará show em São Paulo em maio de 2027
Axl Rose estaria ajudando cantora country em projeto voltado ao rock
Matt Heafy (Trivium) cita os 3 álbuns que mais o influenciaram
Quiet Riot anuncia seu novo vocalista, John Torra
Família de Brent Hinds publica manifesto sobre disputa com o Mastodon
Malcolm Young era um guitarrista "melhor que Eddie Van Halen", segundo Angus Young
A curiosa opinião de Humberto Gessinger sobre o Supertramp
O famoso bordão do Faustão que foi criado após reclamação dos Paralamas do Sucesso
Capas: 10 das mais belas feitas por artistas dos quadrinhos
Corey Taylor, do Slipknot, explica as nojentas desvantagens das máscaras
Lemmy e David Bowie: a conexão entre dois artistas tão diferentes
David Bowie: 10 citações do camaleão do rock
David Bowie: a última foto pública e a última foto privada
A excêntrica melhor maneira de começar a ouvir David Bowie, segundo Regis Tadeu
O dia que David Bowie pagou Robert Fripp para tocar guitarra como Ritchie Blackmore
Guitarrista fala sobre influência de Queen e David Bowie no Def Leppard
O rockstar que Noel Gallagher idolatra, mas não se lembra de quando conheceu
5 versões cover tão ruins que te fazem odiar a versão original, segundo a Far Out
Como Regis Tadeu conseguiu de Slash uma revelação inédita sobre David Bowie
Os 11 melhores álbuns do glam rock setentista, segundo a Loudwire



