Syd Barrett: A biografia do gênio indomável que fundou o Pink Floyd

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Por Zen Ricardo Saraiva, Fonte: Pink Floyd Brasil
Enviar correções  |  Comentários  | 

Impossível chamar Syd Barrett de gênio incompreendido, já que ele influenciou tantos músicos e os influencia até hoje. Incoerente também dizer que ele estava muito a frente do seu tempo, quando muito do que fazia ele mesmo inventava. Experimentava. Criava. E esquecia. Às vezes, instantaneamente. Syd era um gênio do improviso. Na arte de improvisar a vida. Improvisar a arte. Jamais gostou da nada que fosse mecânico. O mercantilismo da repetição massiva, robótica. Cada apresentação sua soava como uma novidade. Cada solo seu trazia um novo arranjo, uma nova nota, um novo acorde, uma nova criação, uma nova duração. E assim seus jovens e ainda imaturos companheiros do, no início, The Pink Floyd Sound, como ele mesmo batizara, iam lhe seguindo, um pouco sem rumo um pouco sem lógica, com muito instinto e influenciado pela liberdade de anos a fio de jazz e blues tocados em vitrolas desbotadas.

956 acessosDavid Gilmour: músico elogia público da América do Sul em vídeo5000 acessosPolêmica: as músicas mais controversas da história do Rock

Syd era assim puro improviso. E foi a rotineira repetição do mercantilismo que acabou com ele. Se foram as drogas que o adoeceram ou se foram elas que trouxeram a tona precocemente sua doença jamais se saberá. Houve médicos que cogitasse que ele tivesse Síndrome de Asperger, uma espécie de autismo que dificulta o doente a lidar com o convívio coletivo e não o permite pensar em problemas de outrem. Alguns de seus companheiros de banda chegaram a achar que o que ele tinha mesmo era esquizofrenia. A verdade é que quem conhece a breve história de Syd sabe que ele fugiu não apenas da música, das drogas, dos fãs, dos amigos, da imprensa, do mercantilismo, mas dele mesmo. Um retiro que ele jamais conseguiria atingir estando na embolorada Londres dos anos 60 ou fora dela. Afinal ele estaria pra sempre preso dentro de sua própria mente. E lá estava toda a sua genialidade.

Como uma carreira tão curta pôde ter feito tanto estardalhaço pelo mundo todo? E não estamos falando do mundo minúsculo que se vive hoje, mas de uma época onde o mundo era gigantesco e, onde para se fazer diferença, levava-se uma vida inteira e muitas vezes só se conseguia após o seu final.

Syd, nasceu Roger Keith Barrett, em Cambridge, em 6 de janeiro de 1946. Conhecido por todos seus amigos como uma personalidade atraente e vibrante, de olhar penetrantemente cativante, muitos se lembram de Syd como um jovem saltitante de alegria e enérgico, que exalava arte por todos os poros, que desde muito pequeno sempre fora ligado a todo tipo de arte e muito próximo a sua família, principalmente a seu pai, sua mãe e sua irmã Rosemeire.

No meio da década de 1960 Syd foi para Londres estudar Artes Plásticas e sua paixão pela pintura, encontrando seu amigo de Cambridge Roger que fora para lá estudar arquitetura e então morava com mais dois amigos da faculdade, Rick e Nick, com quem tinha uma pequena banda local, com mais alguns amigos. Syd então entra na banda e no apartamento e assim começam as explorações pelo que seria um início primitivo de um futuro musical brilhante a todos, ainda experimentando diversas formações e nomes como Sigma 6, Tea Set.

Durante algum tempo percorreram datas com shows pequenos e locais, já com Syd, Roger, Rick e Nick na formação, tocando em clubes undergrounds crescentes como Marquee e UFO Club, onde foram obtendo destaque principalmente entre o público jovem que adorou seu som psicodélico misturado a suas apresentações coloridas por iluminações inovadoras. Era o começo da era dos shows multimídia do Pink Floyd. Assim foram até surgir a oportunidade de assinarem contrato com a EMI, em 1967.

Syd até então era pura alegria pela realização de um sonho, mas ainda desconhecia o real mundo da música e a realidade desta tão dura e corrupta indústria. Gravaram o single Arnold Layne e começaram os shows. Imediatamente também as rachaduras. Ainda pequenas e difíceis de serem notadas por quem, como disseram anos mais tarde seus companheiros de vida e de banda, não queriam enxergar nada que pudesse atrapalhar o início da escalada para o sucesso. Quase que imediatamente eles apresentaram o compacto See Emily Play que apresentava Syd como o principal compositor de líder da banda.

Com as repetições de shows e apresentações, Syd que era avesso a rotinas começava a dar sinais de descontinuidade comportamental. Falta de profissionalismo. Dificuldade de responsabilidade. Syd então já estava totalmente entregue as drogas mais frequentes da época, como LSD. David Gilmour, também amigo de infância de Syd em Cambridge, se lembra de uma passagem na qual Syd o convidou para assistir uma sessão de gravação do Floyd e sequer reconheceu a presença do amigo no estúdio. David relata chocado que ali percebeu a diferença que havia em seus olhos, em seu olhar, tão outrora penetrante, agora “haviam dois buracos negros no lugar dos olhos, mas eu não sabia o quão grave ou permanente era isso”.

Já nos idos de uma turnê pelos Estados Unidos, os problemas de Syd e a quantidade de drogas que ele ingeria acabaram refletindo nos palcos. Com The Piper at The Gates Of Dawn gravado e lançado Syd começa a não querer mais tocar ao vivo. Sobe aos palcos e fica imóvel, inclusive em apresentações na TV. Chega em certa ocasião a afrouxar todas as cordas de sua guitarra no palco e ficar tocando-as durante todo o show, deixando seus amigos de banda sem saber como seguir, afinal ele era o líder de tudo aquilo, em outras passa o show inteiro sentado sem tocar uma nota ou então de costas para o público e sem encostar em seu instrumento.

Voltando desta excursão, os demais integrantes do Floyd resolveram chamar o também amigo David Gilmour, recém chegado de uma não tão bem sucedida turnê pela França para compor a banda junto ao seu amigo Syd, afim de somar as apresentações ao vivo. Paralelamente a isso foram gravando A Saucerful of Secrets, onde os demais membros do Floyd começaram a despontar também como compositores. Mas nem assim Syd estava funcionando. Chegaram a cogitar deixar Syd apenas compondo para a banda enquanto eles se apresentariam ao vivo, tamanha força de suas composições. Nem assim... Roger se lembra que sempre cabia a um dos membros ir buscar Syd em casa para os ensaios ou shows. Até que chegou o dia em que algum deles perguntou: “Precisamos mesmo ir?” E ninguém foi! Há uma lenda que Syd ainda apareceu por dias na frente do estúdio Abbey Road com sua guitarra e ficara sentado na escada da porta da frente sem que ninguém o chamasse para entrar nas gravações, mas isso jamais foi confirmado. O que fora confirmado por David foi o quão difícil fora para ele ingressar na banda, substituindo seu amigo de infância que ainda sabia as datas de agenda da banda e aparecia aos shows para ficar em frente ao palco olhando-o durante todos os shows que ele fazia em seu lugar.

Por um tempo, com Syd já fora do Floyd, ele foi morar com uns amigos em um apartamento. Foi nesse apartamento, lotado de amigos e mulheres que só queriam seu dinheiro e suas drogas, que Syd piorou e muito. Esse apartamento é o que aparece na capa de seu disco solo The Madcap Laughts, um local sem móveis, bem sujo, que Syd mesmo tinha pintado o chão e esquecido de deixar um local para que ele mesmo pudesse sair antes que a pintura secasse. Aliás esse mesmo disco só fora terminado com a ajuda de David e Roger na produção, gravação e mixagem. Mudou-se pouco depois para o apartamento de um casal de amigos, onde reza a lenda de que ele era drogado sem nem sequer saber disso. Seus amigos colocavam drogas em sua bebida o tempo todo. Syd mudava de endereço como mudava de namorada.

Tempos passaram e Syd foi morar em um hotel em Londres, afastado de tudo e de todos, até que seu dinheiro acabasse. Quando seu dinheiro acabou Syd então voltou pra Cambridge para casa de seus pais, ou melhor de sua mãe, pois seu pai havia falecido há muito, fato este que também abalara e muito Syd, na época com 11 anos. Foi nesta época que foram tiradas as fotos pelo fotógrafo Mick Garden, seu amigo, em 1971, que mostram Syd bem mais sereno, de cabelos curtos, buscando uma paz interior, em casa e longe de toda loucura daquela Londres pulsante de outrora.

Como o Floyd crescia cada vez mais como o maior fenômeno musical mundial e coletâneas eram lançadas constantemente, Syd nunca mais passou a ter problemas financeiro. David sempre garantiu que todos os seus royalties chegassem corretamente, conferindo com sua irmã Rosemeire de tempos em tempos se tudo corria bem também neste sentido. Com dinheiro em mãos Syd voltaria mais uma vez ao hotel em Londres, mas desta vez sua estadia durou bem menos que a primeira. Em uma fase consumista, Syd chegou a ter mais de oito televisores em seu quarto. Desapegando-se desta nova fase, Syd novamente volta para Cambridge, desta vez para nunca mais sair.

Lá voltou a morar com sua mãe, por um tempo, até que ela saísse de casa para morar com sua irmã, devido aos rompantes de ferocidade que Syd tinha de tempos em tempos. Na maior parte dos dias Syd plantava, cuidada do jardim e da cerca, tirava foto de alguma flor, a pintava, depois tirava foto do quadro que pintou, o destruía e revelava a foto. Foi assim que Syd manteve-se em contato com a arte até o fim do seus dias, segundo relatos de sua própria família, que fez total questão de o manter longe de tudo e todos que o queriam trazer de volta aquele passado que o consumiu seja pela droga, seja pela doença, seja pelo dinheiro, seja pelo mercado.

De tempos em tempos, até a sua morte, sempre apareciam curiosos a sua porta perguntando sobre ele, indagando sobre sua música, dizendo o quanto ele tinha mudado suas vidas, ao que ele respondia batendo a porta na cara de todos: “Não me interessa!” Ou então ele simplesmente dizia que ali não existia nem nunca existiu ninguém com aquele nome. Descrito por todos os comerciantes locais como uma pessoa amorosa, pacata, de fala branca e extrema educação, Syd era visto com frequência por eles comprando suas tintas ou seus apetrechos de jardinagem. Uma pessoa calada, muito longe do revolucionário brincalhão e influente artista de outrora Syd escolheu a reclusa de seus últimos 35 anos, sem gravar nem escrever nenhuma nota sequer, sem nenhuma entrevista, nenhuma palavra, nenhuma explicação e ainda sim sempre fora aclamado como o responsável pelo que viria a ser um dos maiores integrantes da banda.

Lá pelos idos dos anos 90, 20 anos depois de sua última gravação, Tim Sommer, executivo da Atlantic Records ligou para Rosemeire e fez uma proposta surpreendente a Syd. Eles pagariam duzentas mil libras por qualquer material inédito de Syd, não importando o quão básico fosse, onde as gravações seriam feitas em sua casa, em sua sala de estar, durante poucas horas e Syd não participaria de nenhuma divulgação, nem fotos. As músicas seriam quaisquer fragmentos de sua arte, versões a capela, ou instrumentais, ainda que fossem 3 ou 4 músicas, eles também comprariam um quadro de Syd para a capa do projeto, por qualquer valor que fosse. A família recusou a oferta, como recusaram qualquer contato para uma apresentação ao Live 8, anos mais tarde. Syd sequer assistiu ao show, embora soubesse dele, pois nem televisão tinha mais há anos, preferiu cuidar do seu jardim no dia do show.

“Acho que a ideia de não trabalhar nos últimos 40 anos de sua vida parece muito atraente pra muitas pessoas”, concluiu seu cunhado Breen. Syd, o Madcap, faleceu aos 60 anos em 7 de julho de 2006. Seu enterro foi uma cerimonia pequena mais voltada aos familiares que tocaram música clássica, afinal eles não tinham nenhum interesse em sua vida de popstar. Seus irmãos e irmãs realmente não conseguem entender como uma carreira tão breve pôde ter tido um impacto tão duradouro e nem como um material tão escasso produzido continuava a atrair tanta reverência.

Essa é uma breve história de um dos maiores ícones da música mundial, Syd Barrett. Qualquer pessoa que estude um pouco a história dessa banda extraordinária sabe a importância desse gênio para a história dela e de todos os seus componentes e percebe em cada entrevista que qualquer integrante dá ou já deu um dia um certo ar de nostalgia, de saudade, de culpa e de remorso por terem abandonado da forma como fizeram um integrante que parece ter sido o melhor amigo de cada um dentro do Pink Floyd. Isso fica bem claro com o hino Shine On You Crazy Diamond, em Wish You Were Here, feito por eles ao amigo e irmão, ao único Syd Barrett.

Por que destacamos matérias antigas no Whiplash.Net?

GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato.

Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Trolls e chatos que quebram estas regras podem ser banidos. Denuncie e ajude a manter este espaço limpo.

Mais comentários na Fanpage do site, no link abaixo:

Post de 01 de dezembro de 2016

David GilmourDavid Gilmour
Músico elogia público da América do Sul em vídeo

785 acessosRoger Waters: criticando novamente o Radiohead por tocar em Israel1355 acessosLoja de Discos do Cassio: Waters ou Gilmour, qual é melhor?5000 acessosPink Floyd: Do pior ao melhor álbum da carreira1148 acessosPink Floyd: As 50 melhores músicas da banda0 acessosTodas as matérias e notícias sobre "Pink Floyd"

Pink FloydPink Floyd
E se Syd Barrett não tivesse enlouquecido?

David GilmourDavid Gilmour
Pink Floyd já era, acabou

VozVoz
10 músicos que cantam tão bem quanto os vocalistas (Parte II)

0 acessosTodas as matérias da seção Notícias0 acessosTodas as matérias sobre "Pink Floyd"

PolêmicaPolêmica
As músicas mais controversas da história do Rock

MotorheadMotorhead
Perguntas dos fãs respondidas por Lemmy

Já ouviu antes?Já ouviu antes?
New York Times elege os melhores covers

5000 acessosGigwise: as capas mais polêmicas dos anos 20005000 acessosPostura: 12 coisas que você nunca deve dizer a um músico5000 acessosMotorhead: destaques do funeral de Lemmy Kilmister5000 acessosFotos de Infância: Slash, do Guns N' Roses5000 acessosMarky Ramone: ele tocou com os Backstreet Boys?2635 acessosPink Floyd: David Gilmour e a inspiração para "Louder Than Words"

Sobre Zen Ricardo Saraiva

Autor sem foto e/ou descrição cadastrados. Caso seja o autor e tenha dez ou mais matérias publicadas no Whiplash.Net, entre em contato enviando sua descrição e link de uma foto.

Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria, e não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será removido. Conheça a nossa Política de Privacidade.

Em junho: 1.119.872 visitantes, 2.427.684 visitas, 5.635.845 pageviews.

Usuários online