OMD: servindo de inspiração para o retorno do ZZ Top
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 06 de fevereiro de 2018
Ao resenhar English Electric (link para o texto está ao final deste), álbum de 2015, do Orchestral Manoeuvres in the Dark, disse que ouvintes casuais não sabem o nome dos membros a não ser, na melhor das hipóteses, Andy McCluskey e Paul Humphreys.
Quando se assiste Souvenir, documentário de 2007, percebe-se que mesmo o OMD reformado não se importou que soubéssemos mais nomes além da dupla fundadora. Nos mais de 90 minutos dirigidos por Rob Finighan, apenas Andy e Paul falam. Os outros dois membros ficam constrangedoramente em segundo plano, às vezes, com o narrador falando sobre eles e assim mesmo aparecem só quando não havia mesmo outro jeito, a saber, quando o OMD começa os ensaios para sua volta de 2006. Considerando-se que desde sempre a dupla McCluskey/Humphreys tem sido creditada como os inovadores por trás do nome OMD, ninguém deve realmente se importar com o eclipsar dos demais.
Souvenir opera em dois tempos narrativos intercalados: o presente - que em 2007 já era passado - e o passado propriamente dito, do início da banda, até a saída de Paul, em 1988, descontente com o comercialismo pós-Dazzle Ships (1983).
O "presente" mostra Andy e Paul ensaiando duro para uma apresentação com orquestra pra TV alemã. Eles fingem que contam porque reataram a parceria após 17 anos e vemos até entrevistas com a plateia do show íntimo realizado para 100 fãs escolhidos no site. Antes de embarcar na primeira turnê do bem-sucedido retorno (ano passado lançaram elogiado álbum, inclusive), o OMD queria testar se ainda tinha química para entreter. Claro que a plateia perdoaria deslizes, porque fanática, mas não deixou de ser bom aquecimento e calibrador. É tão legal ver fãs de música pop, então já bem avançados na meia-idade, sendo entrevistados em comparação ao que a grande mídia mostra ao priorizar astros jovens (que é o correto mesmo, assuma-se).
Nas partes dedicadas à trajetória, Paul e Andy visitam locais em Liverpool, onde começaram, hoje irreconhecíveis, porque depósitos ou símiles. A concepção de clássicos como Electricity, Enola Gay e Souvenir é abordada, assim como as objeções de cada um, quando se tratou de composição solo do outro. Andy e Paul deviam ser bastardos arrogantes no auge, quando sintetizaram magistralmente a eletrônica do Kraftwerk, com a crueza punk e o desespero sombrio e gélido do pós-punk à Joy Division.
Essas influências são reconhecidas, assim como a arrogância, como quando o duo esnoba o ZZ Top, que no começo dos 80’s já era passado. E não é que na autobiografia dos roqueiros ianques, eles citam o OMD como motivador para o renascimento oitentsita dos barbudos?
A empáfia de Paul e Andy cessaria com o fracasso comercial de Dazzle Ships. Hoje o álbum é reconhecido como clássico, mas na época naufragou e os meninos perceberam como era gostoso fazer sucesso, perigoso brincar com gravadora e custoso ser adulto e ter contas a pagar.
A partir do abraço ao comercialismo pós-Dazzle, Souvenir obscurece e dedica cada vez mais tempo ao retorno. Nada é dito sobre o estouro nos EUA, com If You Leave Me, e nem sobre o OMD pós-Humphreys. Paul e Andy também adoram contar como o contrato com a gravadora no início de carreira foi vantajoso apenas para a empresa, mas curiosamente Souvenir silencia sobre isso.
Claro que a narrativa oficial de "comercialismo" levando ao desgaste da relação entre Paul e Andy deveria ser relativizada. Por mais fundamental que seja, o rigoroso Architecture & Morality chegou ao terceiro posto da parada britânica. Um álbum sombrio como Organisation, de 1980, rendeu Enola Gay, que cravou primeiro na Itália e Espanha e mesmo na Inglaterra, um respeitável oitavo lugar na parada de singles. Se não fossem realmente comerciais, entrariam nas paradas?
Mas, quantos documentários sobre quaisquer astros pop levantam questionamentos assim? Então não usemos isso para descartar Souvenir. Embora lhe falte muito para ser uma "história" da sigla OMD, tem informação suficiente para fãs de synth pop, anos 80 e até da dupla.
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