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A banda australiana que não vendia nada no próprio país e no Brasil fez show para 12 mil fãs

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Postado em 17 de dezembro de 2025

Durante os anos 1990, o mercado de shows internacionais no Brasil ainda era um terreno instável, marcado por apostas arriscadas, poucos dados concretos e muita intuição. Foi nesse cenário que o empresário Ricardo Chantilly construiu uma trajetória improvável ao apostar em bandas que não faziam barulho no mainstream, mas tinham potencial de conexão com o público brasileiro. Em entrevista ao Corredor 5, ele relembrou como trouxe ao país o Spy vs Spy, grupo australiano praticamente irrelevante em seu próprio território, mas que aqui chegou a tocar para 12 mil pessoas.

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Foto: Tijs van Leur @ www.unsplash.com
Foto: Tijs van Leur @ www.unsplash.com

Na época, Chantilly vinha da experiência na Rádio Fluminense FM e atravessava um momento de incerteza profissional após o fim da emissora. Segundo ele, foi nesse contexto que surgiu o convite de Pita, então promotor de eventos, para dividir um escritório e tentar transformar ideias em projetos concretos. "Ele falou: 'Cara, você tá cheio de ideia, tem uma mesa aqui em Copacabana, telefone, estrutura financeira. Vem pra cá e tudo que a gente fizer é meio a meio'. E eu pensei: 'Pra quem não tem nada, metade é o dobro'", contou.

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A virada aconteceu quando Chantilly decidiu apostar no Spy vs Spy, banda australiana que ele já conhecia por entrevistas feitas para o rádio. "Eu pensei: 'Cara, eu já entrevistei esses caras, isso pode funcionar aqui'. Fui falar com o Pita e disse: 'Vamos trazer o Spy vs Spy'. Ele perguntou: 'Tu acha que dá mil pessoas?'. Eu falei: 'Acho que dá'", relembrou. O cachê era irrisório mesmo para a época: "A gente pagou mil dólares por show".

Spy vs Spy no Brasil

O primeiro concerto aconteceu em outubro de 1994, no antigo Imperator, no Méier, em uma quarta-feira chuvosa que alagou boa parte do Rio de Janeiro. Ainda assim, os ingressos esgotaram dias antes. "No sábado anterior já tinha vendido tudo, porque era venda física. Liguei avisando que ia ter confusão, mas não levaram muito a sério", contou. No dia do show, a situação saiu do controle: "Tinha gente demais, quebraram a grade da galeria, invadiram. Se desse alguma merda, morria todo mundo".

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Sem ter dimensão exata do público, Chantilly só percebeu a real proporção depois. "Eu não tinha noção. Falei pros caras que devia ter umas cinco ou seis mil pessoas. Oficialmente, vendeu quatro mil. Mas tinha muito mais gente lá dentro", disse. O sucesso inesperado abriu caminho para algo ainda maior poucos meses depois.

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Em março de 1995, o Spy vs Spy voltou ao Brasil, dessa vez no Metropolitan, e o resultado surpreendeu até os mais otimistas. "Eu tinha feito quatro mil em outubro. Em março, esgotou 12 mil. E depois veio Hoodoo Gurus, James Reyne… era tudo 12 mil. O Gang Gajang deu quatro mil e eu fiquei puto, achei pouco", brincou.

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O mais curioso, segundo Chantilly, é que o Spy vs Spy não tinha expressão significativa nem mesmo na Austrália. "Lá fora os caras não eram grandes, não. Eram banda de nicho. No próprio país não vendiam nada disso", explicou. Ainda assim, no Brasil, o grupo se tornou um fenômeno instantâneo, impulsionado pelo ecossistema criado pela Rádio Fluminense e pela carência do público por novidades fora do eixo tradicional anglo-americano.

Esse movimento acabou dando origem ao projeto que ele batizou de Australian Connection, uma espécie de selo informal que funcionava como curadoria. "Eu pensei: vou criar uma marca. Mesmo que a pessoa não conheça a banda, vai saber que é australiana e que é boa. Hoje isso se chama label", explicou. A estratégia funcionou e abriu espaço para uma série de turnês bem-sucedidas.

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Chantilly também relembrou as tentativas de concorrentes de atravessar seus negócios quando perceberam que havia dinheiro envolvido. "Teve gente tentando me furar na Austrália, mandando fax pros empresários das bandas. Mas os caras sabiam que eu era o promotor que tava botando os artistas no Brasil", contou, destacando a relação de confiança que construiu com empresários e músicos ao longo dos anos.

No fim das contas, a história do Spy vs Spy no Brasil se tornou um símbolo de como o mercado nacional, mesmo distante dos grandes centros globais, foi capaz de transformar bandas alternativas em atrações de massa. "Eles nunca saberiam que tinham esse tamanho aqui se alguém não tivesse tido essa sacada", resumiu Chantilly, ao relembrar um dos capítulos mais improváveis - e bem-sucedidos - da história dos shows internacionais no país.

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Confira a entrevista completa abaixo.

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Sobre Gustavo Maiato

Jornalista, fotógrafo de shows, youtuber e escritor. Ama todos os subgêneros do rock e do heavy metal na mesma medida que ama escrever sobre isso.
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