Leonard Cohen: Uma despedida feita de instantes

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Por Rodrigo Contrera
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Anteontem (hoje tem aula também), dei aula de inglês. A moça que aprende de mim me perguntou, como parte da lição, quem é o meu cantor preferido. Tenho ouvido bastante Lou Reed ultimamente, mas, não sei como aconteceu, veio-me à mente o nome do Leonard Cohen. Tínhamos um computador à nossa frente, entramos no Youtube e veio-nos a música Hallelluyah. Ela nem sabia o nome do cantor, mas me disse que tinha a música em seu celular.

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Este domingo, teve missa e eu li um trecho de 1 Coríntios 7, 29-31. Tudo correu bem, até que o santíssimo passou a percorrer o santuário. Nesse momento, que muitos esperam, o pessoal começou a cantar a música do Leonard. Não sei em que língua, porque não consegui distinguir o inglês. Mas se tivesse sido em português eu teria conseguido perceber. Seja como for, foi emocionante - e uma surpresa para mim, pois nunca a ouvira ali naquela ocasião.

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Quando o cara faleceu, eu meio que não me surpreendi nem lamentei especialmente. Não sei por que isso aconteceu, sei apenas que ele sempre me pareceu uma pessoa mais distante de nós do que especialmente próxima. E achei estranho eu pensar assim, logo eu que tanto lamentei a morte do Lemmy, dado que o Leonard sempre foi mais próximo para mim que muitos outros sujeitos da música. Os momentos são incontáveis, e as ocasiões em que eu o cantei, também. Tenho até um livrinho em espanhol com a tradução de algumas de suas letras.

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Neste momento, durante a aula, fiz a aluna acompanhar a letra de Hallelluyah enquanto comentava com ela que o cara era poeta, não apenas um letrista qualquer. E que portanto para entendê-lo era preciso ir mais além. Ou seja, nos significados ocultos, etc. Nada era muito claro, totalmente expresso. Ela ficou ali admirando a melodia, ouvindo-a ao vivo e em estúdio, e até procurando-a no celular. Tenho mostrado músicas para ela tentando acabar com sua restrição à língua. Aproximando o inglês de sua vida. Até lhe mostrei Pale Blue Eyes, do Lou Reed, que ela ouviu extasiada.

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Lembro-me de que descobri o Leonard sozinho, procurando por CDs numa lojinha que ficava num estande ao lado do Conjunto Nacional, na Paulista, nos anos 90. Descobri porque ninguém me apresentou o sujeito. Lembro-me de que comprei o CD, que tenho até hoje, e que o Leonard, por intermédio dele, foi um dos responsáveis pelo meu casamento, que hoje já era. Ontem ouvi algo do CD e reparei naquilo que me atraía, algo suave, impossível de decifrar, e que me levava a momentos de sensibilidade mais entranhada, bem meus.

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Com o passar do tempo, fui conhecendo mais da obra do Leonard, assim como percebendo que sua voz ficava cada vez mais grave, mais soturna, e que ele com isso também parecia se aproximar mais e mais de sua morte. As letras pareciam mais agressivas, os baixos pareciam mais marcantes, e a ligação com o amor também se tornava mais rarefeita. Na aula com minha aluna, até tentei procurar algo mais recente que ela pudesse entender, mas não consegui. Encontrei o famoso The Future, mas não tive coragem de avançar até ele. Por causa da lição.

Quando meu pai sofria de psicose, e tentava se recuperar (sem sucesso), me ouvia cantando algumas músicas do Leonard em meu quarto, e uma vez peguei ele cantando uma delas. Lembro-me bem de que a música parecia combinar com ele, quase um cachorro de rua, naquele momento, e lembro-me também de que essa conexão improvável entre ele e eu se tornou especial, ao menos naquela época. Foi assim que eu me lembro do meu pai, inclusive. Quando me lembro de algo bom daquela época, claro.

Com o passar do tempo, desde os anos 90, fui me acostumando às fases posteriores do Leonard, com suas bandas usando baixos fretless, com timbres interessantes nos guitarristas que faziam seus solos, com seus coros e backing vocals de gente muito afinada, e com sua voz marcante, cada vez mais grave e soturna, embora não necessariamente sombria. Eu viajava naquilo que poderiam significar suas letras, mas não as entendia. Foi com ele que percebi que a gente poderia ser duro e tosco sem ser grosseiro, especialmente com a faixa-título The Future, e foi também com ele que percebi um espaço para lirismo em melodias simples que eu ainda não conhecia. Como falar de sexo anal sem necessariamente arrancar risadas ou sorrisos marotos de quem no fundo não tem muita noção da vida real (os versos estão em The Future).

Eu estava casado quando ouvia seus últimos CDs, alguns deles com pegadas mais românticas, sendo que minha vida era diferenciada, para dizer o mínimo. Não tinha muito tempo para reparar em suas letras, e a minha esposa já começava a se distanciar emocionalmente de mim, embora eu mal percebesse realmente. A pegada mais intelectualizada do Leonard e minha nos afastava, ela de mim, eu dela. Foi nessa época que comecei a descobrir que o Leonard sempre fora considerado um rival do Bob Dylan, que ele representava uma vertente mais depressiva do rock em geral, e que seu jeito de trovador, entremeado com suas perspectivas místicas, era por muitos não muito bem compreendido.

Percebi isso quando mostrei algo do Leonard mais recente à minha aula de inglês. Ela pareceu ter dificuldade de gostar daquele sujeito tão alquebrado, com uma moça negra ao lado, cantando com uma voz quase inaudível canções que não pareciam muito fáceis de digerir, para dizer o mínimo. Eu estava gostando de lhe mostrar a música, mas percebi que estava indo rápido demais. Ela ainda está nas primeiras lições, e quando mostro alguma canção mais conhecida é só para que ela reconheça uma ou outra palavra. Temos tido êxito nisso, mas não posso criar um obstáculo difícil demais para transpor. Minha amostra do Leonard à aluna parou por aí.

Mas o experimento de relembrar o sujeito me trouxe ao momento presente. Anos após ter ouvido o Leonard no teatro Cemitério de Automóveis, e de ter percebido que quem gostava dele geralmente era alguém mais no fim da curva da vida do que no seu auge. De ter compreendido que ele sempre foi uma espécie de Deus dos depressivos. Como eu me tornei, inclusive. Ocorre que nele eu não capto necessariamente esse tipo de vibração. Ele me é mais como eu mesmo sou, no fundo. Sem muitas pretensões de amores legendários. Sem muita vontade de sair por aí cantando loas a um universo em expansão mas também bastante decadente. Meu jeito é mesmo mais o de prédios cinzas no centro de São Paulo, embora acorde com um belo amanhecer na sacada do apartamento que ainda mantenho comigo.

Sem entrar no mérito de minha vida atual, vários leitores meus já identificaram (e me disseram identificar) essa pegada mais de fim de festa nos meus escritos. Como se minhas linhas fossem restos de bebida no copo de uísque, ou como se fossem algo a ser digerido com calma, e algum conhecimento de vida. Até que gostaria que não fosse bem assim. Mas por mais que me esforce eu realmente sou mais ou menos isso mesmo. Como o Leonard também era. Um cara que, mesmo quando disputava espaço às cotoveladas com um Dylan em começo de carreira, parecia mais condenado a ser mesmo roubado pela empresária (como aconteceu) e ter de lutar até o fim dos seus passos para conseguir sobreviver com a imagem de um último cavaleiro. Seja como for, o que a gente leva da vida, afinal?

Teve uma época em que eu forçava minha voz para ficar do jeito da do Leonard tardio. Eu consegui, e percebia que conseguia expressar, também pelo timbre, algo do que ele dizia. Mas talvez minha esposa não gostasse. Ou talvez eu expressasse um desencanto que não tinha nada a ver com o que ela queria da vida. Eu não sentia esse desencanto, afinal. Era como se tudo fosse claro para mim, e como se meu jeito de ser combinasse com o dele, já mais para lá do que para cá. Seja como for, foi com o Leonard Cohen tardio que eu melhor me encontrei, e nesse sentido percebo uma conexão comigo quando ouço You Want It Darker, com o que ele ganhou o Grammy de Melhor Performance de Rock.

Um dia talvez eu descubra por que não senti ele indo embora tal qual outros heróis, cujas partidas eu senti bem mais. Quem sabe um dia eu consiga apreciá-lo num bar, bebendo um uísque, como meu pai, mas não uma cerveja, que não combina com ele. Quem sabe eu também consiga entendê-lo, algo que hoje não consigo tão facilmente, mesmo com minha considerável erudição religiosa e de vida. Noto porém que chego perto disso quando fico me matando tentando sobreviver e de repente algo de imponderável surge bem na minha frente e dá vontade de escrever. Ou de lembrar. Ou de chorar. Ou de sorrir. Porque parece ser assim que a vida corriqueira e sem graça que vivemos se torna eterna.

Pois é assim, enquanto os emails de contrato assinado não chegam, as ligações não são atendidas, os conteúdos não conseguem ficar prontos para tentarem virar negócio e estamos sozinhos correndo contra o tempo para que ele faça de nós o que quer, que percebemos que estamos vivos apenas por enquanto e que o futuro a Deus pertence.

Bom descanso, Leonard. Eu sei que você tá sempre por aqui.

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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

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