Leonard Cohen e a História de Isaac

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Por Diego Henrique Zerwes Ferreira, Fonte: Zerwes.com.br
Enviar correções  |  Comentários  | 


A história de Abraão e seu filho Isaac é realmente fascinante. Deve ser por este motivo que alguns artistas retrataram-na. Vou me deter em duas músicas: "History of Isaac", de Leonard Cohen, e "Highway 61", de Bob Dylan [a segunda música será abordada em uma segunda parte deste artigo].
5000 acessosRolling Stone: As 500 melhores músicas segundo a revista5000 acessosCâncer na língua: Os músicos que sofreram deste mal

Em poucas palavras, a história é mais ou menos a seguinte. Quando Isaac nasceu, Abraão tinha 100 anos e Sara, antes disso, era estéril. Deus resolveu, então, dar o direito aos dois de terem um filho. Eis Isaac. Dentre tantas vezes, Deus pediu mais um prova de fé a Abraão. Um pedido grave e sério: que matasse seu filho. Temente a Deus, Abraão levou o garoto até o monte Moriá. Construiu um altar e quando estava com o cutelo quase no pescoço dele, um anjo (vindo em nome do senhor) segurou sua mão. Disse o anjo: “Não estendas a mão sobre o rapaz e nada lhe faças; pois agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu único filho” (Gênesis, 22).

A música "History of Isaac" de Leonard Cohen é do álbum "Songs From a Room", de 1969. A sacada de Cohen foi de colocar o filho narrando sua própria história. É um pouco diferente, comparando com a bíblia que possuo (é de se esperar, pois quem narrou ou escreveu a bíblia não estava na pele do garoto). Ele admira e teme o pai. A ideia de quão grande e poderoso é o pai pode ser comparada com a de Franz Kafka perante Hermann Kafka, seu pai. Cohen diz:

Ele se pôs tão alto sobre mim,
Seus olhos azuis estavam brilhando
E sua voz estava muito fria.

Para confirmar, Isaac conta as palavras de seu pai, antes da viagem até o monte:

Ele disse: “Eu tive uma visão,
E você sabe que sou forte e santo
E preciso fazer o que me foi dito”

Na bíblia (Gênesis, 22), Isaac pergunta ao pai: “Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? Respondeu Abraão: Deus proverá para si, meu filho, o cordeiro para o holocausto; e seguiam ambos juntos”. Na música, Isaac parece saber o que ia acontecer:

Então meu pai construiu um altar,
Ele olhou uma vez sobre seus ombros,
Ele sabia que não me esconderia.

A partir desse ponto, a música parte para outro rumo, fugindo do bíblico. Cohen parece levar a história além, para coisas humanas, não como uma história que tem um tom de fantasia. “Você que constrói estes altares, agora / para sacrificar estas crianças / você não deve mais fazer isso / uma conspiração não é uma visão / e você nunca foi tentado por um demônio ou por um Deus”. Quando acabei de escrever esse trecho, fui pesquisar e descobri que Sean Elder, escritor e editor em Nova Iorque, num artigo para o site salon.com, comenta justamente este trecho da música. Para ele, este trecho lembra de outras pessoas que estão morrendo: as que lutam no Vietnã, neste mesmo período. Ou seja, é uma crítica ao malvado Abraão, que estava prestes a matar seu filho; e também aos EUA. Essa crítica à guerra não é aquela do paz e amor. É uma metáfora, retirada da bíblia, para repreender a guerra. Vejam: os altares, campos de batalha; as crianças, soldados; uma conspiração, uma invasão dos EUA (confirmada em 2005, a entrada dos EUA na guerra foi forjada. Nenhum barco americano foi atacado no Vietnã. Este foi mais dos estratagemas para dar uma razão oficial para sua entrada no conflito).

Voltando à questão religiosa, Leonard Cohen é judeu, mas isso não o impede de criticar uma história tão bela quanto a de Isaac. Para Sean Elder, o que Cohen quer dizer é: “Pegue este Deus e o enterre”. Ao assumir a voz de Isaac, Cohen julga Abraão sem nenhuma misericórdia.

Ao escrever sobre a história, percebi que Cohen seguia um outro caminho, mas nem pude imaginar que o Vietnam e sua própria história poderiam estar inseridas ali. A história dele porque, justamente ali no começo da música há um indício ("A porta abriu vagarosamente / meu pai entrou / eu tinha 9 anos de idade"), seu pai morreu quando ele tinha nove anos de idade. O que mais dele estaria inserido ali? Por enquanto, difícil responder.

Por que destacamos matérias antigas no Whiplash.Net?

GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato.

Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Trolls e chatos que quebram estas regras podem ser banidos. Denuncie e ajude a manter este espaço limpo.

0 acessosTodas as matérias e notícias sobre "Leonard Cohen"

FalênciaFalência
Sete Rock Stars que foram à bancarrota

0 acessosTodas as matérias da seção Curiosidades0 acessosTodas as matérias sobre "Leonard Cohen"

Rolling StoneRolling Stone
As 500 melhores músicas segundo a revista

Câncer na línguaCâncer na língua
Outros cinco músicos que sofreram deste mal

Mr CatraMr Catra
Uma lista das suas maiores influências no rock

5000 acessosSlipknot: Demissão de Joey Jordison foi a decisão mais difícil da carreira5000 acessosArnaldo Jr: Colecionador de ítens relacionados ao Metallica5000 acessosEm 10/08/1993: Euronymous é assassinado por Varg Vikernes5000 acessosIron Maiden: 8 covers comentados e comparados com os originais5000 acessosBruno Sutter: compositores, pensem nas letras que vocês escrevem!5000 acessosIsto sim é ser fã: homem muda nome para "Led Zeppelin II"

Sobre Diego Henrique Zerwes Ferreira

Autor sem foto e/ou descrição cadastrados. Caso seja o autor e tenha dez ou mais matérias publicadas no Whiplash.Net, entre em contato enviando sua descrição e link de uma foto.

Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria, e não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será removido. Conheça a nossa Política de Privacidade.

Em fevereiro: 1.218.643 visitantes, 2.740.135 visitas, 6.216.850 pageviews.

Usuários online