Leonard Cohen e a História de Isaac
Por Diego Henrique Zerwes Ferreira
Fonte: Zerwes.com.br
Postado em 11 de fevereiro de 2010
A história de Abraão e seu filho Isaac é realmente fascinante. Deve ser por este motivo que alguns artistas retrataram-na. Vou me deter em duas músicas: "History of Isaac", de Leonard Cohen, e "Highway 61", de Bob Dylan [a segunda música será abordada em uma segunda parte deste artigo].
Em poucas palavras, a história é mais ou menos a seguinte. Quando Isaac nasceu, Abraão tinha 100 anos e Sara, antes disso, era estéril. Deus resolveu, então, dar o direito aos dois de terem um filho. Eis Isaac. Dentre tantas vezes, Deus pediu mais um prova de fé a Abraão. Um pedido grave e sério: que matasse seu filho. Temente a Deus, Abraão levou o garoto até o monte Moriá. Construiu um altar e quando estava com o cutelo quase no pescoço dele, um anjo (vindo em nome do senhor) segurou sua mão. Disse o anjo: "Não estendas a mão sobre o rapaz e nada lhe faças; pois agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu único filho" (Gênesis, 22).
A música "History of Isaac" de Leonard Cohen é do álbum "Songs From a Room", de 1969. A sacada de Cohen foi de colocar o filho narrando sua própria história. É um pouco diferente, comparando com a bíblia que possuo (é de se esperar, pois quem narrou ou escreveu a bíblia não estava na pele do garoto). Ele admira e teme o pai. A ideia de quão grande e poderoso é o pai pode ser comparada com a de Franz Kafka perante Hermann Kafka, seu pai. Cohen diz:
Ele se pôs tão alto sobre mim,
Seus olhos azuis estavam brilhando
E sua voz estava muito fria.
Para confirmar, Isaac conta as palavras de seu pai, antes da viagem até o monte:
Ele disse: "Eu tive uma visão,
E você sabe que sou forte e santo
E preciso fazer o que me foi dito"
Na bíblia (Gênesis, 22), Isaac pergunta ao pai: "Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? Respondeu Abraão: Deus proverá para si, meu filho, o cordeiro para o holocausto; e seguiam ambos juntos". Na música, Isaac parece saber o que ia acontecer:
Então meu pai construiu um altar,
Ele olhou uma vez sobre seus ombros,
Ele sabia que não me esconderia.
A partir desse ponto, a música parte para outro rumo, fugindo do bíblico. Cohen parece levar a história além, para coisas humanas, não como uma história que tem um tom de fantasia. "Você que constrói estes altares, agora / para sacrificar estas crianças / você não deve mais fazer isso / uma conspiração não é uma visão / e você nunca foi tentado por um demônio ou por um Deus". Quando acabei de escrever esse trecho, fui pesquisar e descobri que Sean Elder, escritor e editor em Nova Iorque, num artigo para o site salon.com, comenta justamente este trecho da música. Para ele, este trecho lembra de outras pessoas que estão morrendo: as que lutam no Vietnã, neste mesmo período. Ou seja, é uma crítica ao malvado Abraão, que estava prestes a matar seu filho; e também aos EUA. Essa crítica à guerra não é aquela do paz e amor. É uma metáfora, retirada da bíblia, para repreender a guerra. Vejam: os altares, campos de batalha; as crianças, soldados; uma conspiração, uma invasão dos EUA (confirmada em 2005, a entrada dos EUA na guerra foi forjada. Nenhum barco americano foi atacado no Vietnã. Este foi mais dos estratagemas para dar uma razão oficial para sua entrada no conflito).
Voltando à questão religiosa, Leonard Cohen é judeu, mas isso não o impede de criticar uma história tão bela quanto a de Isaac. Para Sean Elder, o que Cohen quer dizer é: "Pegue este Deus e o enterre". Ao assumir a voz de Isaac, Cohen julga Abraão sem nenhuma misericórdia.
Ao escrever sobre a história, percebi que Cohen seguia um outro caminho, mas nem pude imaginar que o Vietnam e sua própria história poderiam estar inseridas ali. A história dele porque, justamente ali no começo da música há um indício ("A porta abriu vagarosamente / meu pai entrou / eu tinha 9 anos de idade"), seu pai morreu quando ele tinha nove anos de idade. O que mais dele estaria inserido ali? Por enquanto, difícil responder.
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