Forestside: o potencial do rock independente amazônida
Por Gustavo Saraiva
Postado em 22 de agosto de 2019
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Os músicos manauaras Pedro Prestes, Gabriel Souza e Jorge Henrique lançaram um novo trabalho artístico em 02/08/2019, que serviu só para confirmar o que todos que escutaram já sabiam: atrás de guitarras e viradas ousadas, de um vocal corajoso, esconde-se o potencial do rock independente amazônida, fazendo a cena musical por entre as sumaúmas.
"Forestside" é o terceiro álbum do artista Pedro Prestes e o primeiro do trio de mesmo nome do álbum. O trabalho sucede os igualmente excelentes "Espírito Animal" e o EP "Sangria", bem como os singles "Samba Solitude" (título muito intrigante) e "Céu?" – todos disponíveis nas plataformas de streaming como Spotify, YouTube, Deezer e iTunes.
É possível perceber que os últimos anos tem sido muito fecundos para os músicos manauaras e principalmente pro cantor/compositor Pedro Prestes, visto que, além de "Sangria" (04/01/2019) que chegou rasgando o verbo contra o atual cenário político, Forestside parece e soa como uma consistente incursão no universo musical independente.
É que Forestside não parece só um trabalho mais bem produzido, ele também soa mais consistente – musicalmente falando –, sem deixar de ser palatável ao grande público, isto é, apto a conquistar novas audiências. E de fato, essa banda merece ganhar o gosto popular.
Logo de cara, na primeira faixa do álbum Caos Corps temos uma mensagem poderosa logo de início (Seja feita a nossa vontade hoje e após). Além disso, há também uma evocação à Amazônia e possível referência ao seu passado (ou quem sabe futuro?), com a frase "Testamento de caos e de glória", o fato é que a primeira canção abre os trabalhos do álbum com os dois pés no peito: linhas de guitarra rápidas e pesadas com solos cativantes, sem, contudo, perder a atmosfera contestadora que é característica do rock mais mainstream (que hoje, aliás, está meio raro de encontrar).
Mirror Mirror, uma das minhas faixas favoritas desta ousada aventura musical, fala sobre o sentimento de se sentir perdido e sobre superar a si mesmo. Os primeiros acordes do riff inicial te pegam pela orelha apenas para te arremessar no refrão poderoso (Hey! You! Can’t beat me!).
Karma é a terceira e mais contundente das mensagens até então apresentadas. Fala da Lei do Retorno na New Age, e sem dúvida tem uma profusão de acordes mais voltada para indicar essa certeza que só a Terceira Lei de Newton pode proporcionar.
Heartfelt, já apresentada em versão acústica pelos músicos em suas redes sociais, chega em sua versão de estúdio. É impossível não sentir uma inspiração advinda de Oasis em seus dias de glória, ou ainda mesmo de Beatles, que te conquistam pela letra facilmente passíveis de gerarem identificação (You said nothing else matters But I know you lied).
Rising Shadow, terceira música do cd, possui um refrão eficaz que fica ressoando na sua mente e, quando menos perceber, você se perceberá repetindo Get away, get away from me now na sua cabeça.
Desatador de nós, sexta é, provavelmente, a minha canção preferida. Desatar nós significa resolver as pendências que criam entraves à nossa vida e, diferente da alegoria das pedras no caminho, aquela dá uma ideia de algo que pode e deve ser resolvido com algum esforço. Aliás, digo que é a minha preferida porque foi a música que me prendeu, tanto pelo solo rápido quanto pela efusão das palavras, isto é, a mensagem que os versos transmitem. Desta forma, foi possível transpor meu eu lírico pelos versos sobre as possibilidades que o tempo pode trazer (desatar os nós, desfazer o sentimento do vazio após a vida).
Acclaim, a sétima faixa do disco, é uma deliciosa volta aos anos 90, que nos remete aos bons tempos de Rage against the machine e, posteriormente, ao retorno do gênero com o supergrupo Prophets of rage. Com os sons de manifestação da galera após os arranhados no vinil, as letras fazem você querer beber um pouco de Anarquismo, ao mesmo tempo em que se diverte com as referências à banda e aos seus anseios pessoais (?) traduzidos em rimas fortes e cativantes.
Homesick é uma surpresa dentro da incursão musical, visto que tem uma pegada mais voltada para a country music, com uma sonoplastia exótica e divertida nesse sentido. Apesar de falar sobre saudade, o tom é de determinação e os acordes rápidos causam um mix de sentimentos no ouvinte.
Forest Sound, nona canção do disco, é uma energética ode à desobediência pueril que nos faz lembrar dos tempos de rebeldia juvenil (something that makes you drop high school), bem ao estilo de Motörhead a que faz referência em determinado momento.
53lv4, faixa seguinte, é uma experiência instrumental que apenas reafirma a qualidade das linhas de guitarra que estão presentes por todo o álbum. O grande crème de la crème dessa faixa é a passagem que lembra as Mil e Uma Noites.
Stairs encerra o álbum prolífico com uma pegada mais sentimental, sobre caminhos e sobre possibilidades, o que com certeza dialoga com todas as audiências. Cheia de questionamentos, as guitarras parecem acompanhar essas incertezas e facilmente poderia ser a trilha sonora de uma caminhada ao entardecer na Ponta Negra.
Sem dúvida ainda ouviremos falar dos trabalhos dessa geração de músicos manauaras, que representam a promessa de uma cena regional forte e independente, sem recorrer aos convencionalismos que infestam a produção musical do país. Forestside soa diferente sem perder a qualidade, soa consistente sem perder a originalidade, soa transgressor sem parecer ridículo e, principalmente, soa novo no contexto regional.
Tracklist:
01.Caos Corps
02.Mirror Mirror
03.Karma
04.Heartfelt
05.Rising Shadow
06.Desatador de Nós
07.Acclaim
08.Homesick (Lar Doce Lar)
09.Forest Sound
10.53LV4
11.Stairs
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