Pearl Jam: após 7 anos de hiato, tudo o que cerca o lançamento do novo álbum Gigaton
Por Jorge Felipe Coelho
Fonte: Rádio Catedral do Rock
Postado em 22 de março de 2020
Finalmente o Pearl Jam mostrará ao mundo Gigaton (Universal Music), o seu 11º álbum de estúdio. O novo disco mostra uma temática ligada ao aquecimento global em sua capa, com a imagem de uma geleira derretendo, e em seu nome: Gigaton é um tipo de unidade do sistema métrico de massa que cientistas utilizam para medir a perda das maiores camadas de gelo da Terra. Juntamente com a banda, Josh Evans assina a produção do trabalho que já teve dois singles divulgados, "Dance of the Clairvoyants" e "Superblood Wolfmoon", em janeiro e fevereiro, respectivamente.
Na carreira discográfica da banda, claramente percebe-se três fases. Uma espécie de infância, adolescência e fase adulta do grupo. A primeira fase é composta por Ten, Vs. e Vitalogy. Estes álbuns representam a primeira vida, onde o grupo apareceu para o mundo fazendo barulho e obteve grande sucesso comercial, mas também sérios problemas com a fama ocasionada pela superexposição. No Code, Yield, Binaural e Riot Act compreendem a segunda fase, mais experimental e adorada pelos fãs, onde buscaram um maior controle sobre sua carreira, mas ainda tendo certo atrito com a grande mídia.
Os álbuns Pearl Jam ("Abacate"), Backspacer e Lightning Bolt formam a terceira fase e trazem uma época da banda mais estável e amadurecida. Baixaram as guardas para a indústria, cresceram em porte estrutural, viraram nomes de peso nos shows em mega estádios e desaceleraram o ritmo de produção envolvendo-se de cabeça em projetos pessoais para além da bem sucedida banda noventista. O baterista Matt Cameron, além de tocar no Soundgarden, lançou um álbum solo em 2017 e integra os projetos Welwater Conspiracy e Hater. O baixista Jeff Ament lançou álbum solo em 2018, além de se dedicar a outros projetos como o RNDM. O guitarrista Mike McCready, que é um respeitado ativista na luta contra a doença de Crohn, lançou um livro em 2017. Stone Gossard, guitarrista, se dedica ao projeto Brad e aos álbuns solo. Já o vocalista Eddie Vedder dispensa apresentações com a carreira solo mais conhecida dentre todos.
Após um hiato de 7 anos sem um álbum de inéditas e uma série de acontecimentos ocorridos dentro e fora do grupo, o que podemos esperar do quarto álbum a integrar a fase adulta da banda? Para tentar responder a esta pergunta é necessário, primeiramente, fazer uma correlação entre o histórico e o momento atual da banda.
A morte de Andrew Wood e o fim da promissora banda Mother Love Bone – do guitarrista Stone Gossard e do baixista Jeff Ament – serviu como uma semente que deu origem ao Pearl Jam. O grupo invadiu as rádios de todo mundo no início dos anos 90, com o mega hit "Alive", no momento em que o "grunge" de Seattle dominava as paradas com Nirvana, Soundgarden, Alice in Chains e vários outros grupos. Ainda que tenha nascido para o grande público sob a égide do contestado rótulo atribuído aos grupos locais, na época, já era possível notar o som da banda menos sujo e com mais influências de hard rock e rock clássico setentista que os demais (o que foi inicialmente criticado por Kurt Cobain). Essa característica os aproximavam bastante de outros públicos e possibilidades artísticas.
Desde sempre, a história da banda mostra fortalecimento após momentos conturbados de atrito e dor. Foi assim quando se recusaram a produzir videoclipes por imposição midiática, quando se engajaram em um boicote contra a gigante americana dos ingressos Ticketmaster e também quando superaram o trágico episódio do Festival Roskilde, que vitimou 9 pessoas durante uma apresentação da banda. Após cada um desses ocorridos, o Pearl Jam sempre virou o jogo e ressurgiu das cinzas ainda mais forte para seu público, honrando o DNA presente em suas origens.
Trazendo na bagagem, agora, quase 30 anos de uma carreira induzida ao Hall da Fama do Rock N’ Roll em 2017 e incontáveis hits na discografia, o mundo continuou a dar voltas e pregar peças na banda. Coube exatamente ao Pearl Jam, a "ovelha negra" da família grunge, a alcunha de ser o porta-voz dessa geração adorada de bandas de Seattle, visto que as maiores e mais famosas foram extintas ou se reformularam após a morte trágica de seus frontmans.
Kurt Cobain, Layne Staley, e, por último, Chris Cornell, um a um foram saindo de cena e deixando um grande peso de responsabilidade não apenas sobre o Pearl Jam, mas principalmente sobre seu líder Eddie Vedder. Por ser intimamente ligado ao nascimento do Pearl Jam, Cornell era quase como um integrante da banda, mesmo estando fora dela. Sua morte, em especial, certamente mexeu com o lado emotivo da banda novamente. O polêmico silêncio e o não comparecimento de Vedder ao funeral de seu "padrinho" vocal ecoaram dúvidas entre os fãs.
Há anos Vedder tem alto destaque individual em turnês solo com ingressos esgotados, apresentações em cerimônias de Oscar, premiações em Globo de Ouro, parcerias com outros artistas, etc. O que tem jogado o holofote, aqui no Brasil, em uma safra de fãs e covers bastante inspirados no trabalho e, principalmente, no visual do vocalista. Cabe lembrar que em quase 13 anos, desde que o álbum Into de Wild, em 2007, alavancou a carreira solo de Vedder, o Pearl Jam mostrou apenas dois trabalhos inteiros de músicas inéditas: Backspacer, de 2009, e Lightning Bolt, de 2013. Isso mostra que o ritmo da banda mudou em sua fase adulta pela atenção dividida com projetos paralelos.
Voltando agora para 2020, Gigaton ficará disponível no dia 27 de março. Dois dias antes do lançamento oficial, uma anunciada ação de promoção (com risco de cancelamento devido ao coronavírus) levará o álbum para 200 salas de cinema no mundo, inclusive no Brasil. A ideia é oferecer ao público uma experiência de audição 3D e mostrar imagens criadas pelos artistas Joel e Jesse Edwards, responsáveis pelo clipe animado de "Dance of the Clairvoyants", o primeiro single de Gigaton. A faixa é ousada, possui influência eletrônica e toques dançantes. O guitarrista Stone Gossard toca baixo na canção que é claramente uma experimentação ao estilo New Wave anos 80. A própria banda se apressou em declarar que o álbum não seguiria a ousadia mostrada com o primeiro single dançante. Então, "Superblood Wolfmoon", a segunda canção divulgada, é um rock mais simples e direto com pegada raivosa e fraseados vocais rápidos. O novo álbum tem 12 faixas ao longo de 57 minutos e será o maior da banda em tempo corrido de audição.
Alguns veículos de imprensa participaram da festa de audição de Gigaton, promovida em janeiro passado, e divulgaram impressões e comparações com álbuns do Pearl Jam de 20 e poucos anos atrás. Há relatos de que as letras reflexivas se impõem em faixas iniciais mais agitadas, enquanto a parte final traz canções mais lentas e menos inspiradas. Quem ouviu, diz que teremos rock de garagem, meio punk, o folk, que Vedder faz uso na carreira solo, baladas com belos solos de guitarra e uma faixa de encerramento com um orgão em clima espiritual. Tudo isso mantém a dinâmica observada nos álbuns da fase adulta do grupo. Certamente ouvir o disco buscando alguma similaridade com os clássicos joviais da banda que se tornaram baluartes dos anos 90 será um erro.
Perto da casa dos 60 anos de idade, Eddie Vedder tem outra potência de voz e investe na segurança de linhas vocais mais confortáveis, como em levadas mais acústicas. Os demais músicos têm outras influências, vontades e experiências acumuladas com a vida dentro e fora do conjunto. Arriscam em novas métricas de composição diferentes das fases iniciais de rock alternativo da banda e certamente não estão buscando fazer um Ten do século XXI. Gigaton tem de ser ouvido como um recorte do momento atual de uma banda calejada, marcada pelo tempo, que retoma sua vida produtiva a fim de mostrar ao mundo esse momento.
Hoje, o quinteto do Pearl Jam não abre mão de dedicar mais tempo à família, filhos e projetos pessoais. Mesmo com toda a dificuldade (saber surfar altos e baixos) que se dá em uma relação de parceria de 30 anos, optaram por não romper uns com os outros acabando com o grupo, como é comum acontecer no showbizz. Encontraram uma zona de atuação confortável para ambos seguirem juntos, afinal, são sócios de uma megaempresa adorada no mundo inteiro. A tendência é que os caminhos musicais dos últimos trabalhos e o ritmo atual da clássica banda de Seattle se mantenham. O que também quer dizer que se eles souberem absorver e transformar em música cada nova marca impressa a ferro e fogo pelo tempo, colocando o que tem de melhor para fora com verdade e paixão, a banda irá continuar sua bela história de transformar em limonada os limões que a vida lhe traz. Para a maioria dos fãs, isso já basta.
Faixas de "Gigaton":
1. Who Ever Said
2. Superblood Wolfmoon
3. Dance of The Clairvoyants
4. Quick Escape
5. Alright
6. Seven O'Clock
7. Never Destination
8. Take The Long Way
9. Buckle Up
10. Come Then Goes
11. Retrograde
12. River Cross
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