Little Richard: O gay evangélico que deu forma ao Rock n' Roll
Por André Stanley
Fonte: Blog do André Stanley
Postado em 11 de maio de 2020
Little Richard, que nos deixou aos 87 anos, vítima de um câncer ósseo, foi um daqueles gays que ao encontrar Jesus busca diluir sua pulsão sexual em uma retórica evangélica onde o homossexualismo é visto como aberração antinatural e passível de ser punido com o eterno fogo do inferno. No caso, de Little Richard, ele não precisou ir muito longe para encontrar Jesus. O pequeno Richard foi o terceiro filho, de um total de 12, de um traficante de bebidas que também era um diácono da igreja batista que sempre o influenciou a seguir o evangelho.
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Richard passou toda sua carreira oscilando seu discurso entre a aceitação e a negação de sua homossexualidade – na verdade, nunca negou que era homossexual, mas houve momentos em que não aceitou ser – muitas vezes levado a uma postura radicalmente evangélica, que segundo o próprio, foi o que o curou de seus vícios. Richard teve problemas sérios com drogas pesadas e com seu comportamento promíscuo enquanto vivia seus dias de celebridade, como um dos pioneiros do recém-nascido Rock n' Roll.
Apesar de sua postura ortodoxa, adotada ainda no final da década de 1950, Richard já havia construído uma base sólida o bastante como um dos arquitetos do Rock, o que o impossibilitou de se despir de sua postura subversiva e sensual que o havia levado ao estrelato. Ele até tentou levar adiante sua carreira como um cantor de música gospel, mas foram os impulsos onomatopeicos de seus rocks que o fez permanecer no baixo inferno da música popular. Afinal, Little Richard, por vezes tentou renegar seu passado como um dos fundadores de um estilo que até hoje é associado a algo satânico, mas diante da impossibilidade mediante a força de suas obras, nunca pode se desvencilhar de suas melodias repetitivas e maliciosas.
Em suma, a genialidade desse músico só se concretizou pela sua capacidade de transgredir, de esticar limites e se transfigurar em cima de um palco, quebrando as etiquetas que já eram convencionais até mesmo para o novo estilo que surgia. Little Richard era um músico negro em uma indústria impregnada com a imagem de um belo cantor branco chamado Elvis Presley, era pianista em um gênero que tinha a guitarra como instrumento símbolo. Se trasvestia de formas espalhafatosas, como uma Drag Queen hiperativa cantando refrãos repetitivos, isso já no início da década de 1950.
E foi justamente essa fase maluca e transgressora de Richard que ajudou a dar forma à um gênero musical que tomou o mundo. Será, portanto, essa faceta do pequeno Richard, cheia de malícia e sensualidade que se solidificará na história da música mundial como ingredientes essenciais para a formação do que hoje conhecemos como Rock n’ roll.
Morte de Little Richard
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