Os bastidores do show de tributo a Freddie Mercury, em 1992, segundo quem fez parte
Por André Garcia
Postado em 23 de abril de 2022
O mundo da música, pego de surpresa em 23 de novembro de 1991 com o anúncio de que o vocalista Freddie Mercury tinha AIDS, ficou em choque no dia seguinte com a notícia de sua morte. Não apenas dono de uma das mais belas e potentes vozes do século, Freddie foi um dos maiores e mais carismáticos frontman que já pisaram num palco.
Menos de seis meses se passaram até a realização de um gigantesco show, aos moldes do Live Aid, em tributo a ele em 20 de abril do ano seguinte. Contando com alguns dos maiores nomes do pop e do rock, o evento contou com a participação de membros de bandas como Guns N' Roses, The Who, Led Zeppelin e Black Sabbath, ao lado de cantores como Elton John, David Bowie e George Michael.
Entrevistas dos participantes sobre os bastidores do tributo foram garimpadas e compiladas pela Louder Sound, e a tradução você confere abaixo.
Brian May [guitarrista do Queen]: No dia da morte de Freddie [Mercury], dissemos: 'Temos que dar a ele uma despedida em grande estilo, como ele estava acostumado.'
Wendy Laister [produtora]: O maior problema na organização foi o ACT-UP, um grupo de ativismo gay, que não queria que o Guns N' Roses participasse porque Axl tinha supostamente dado declarações homofóbicas.
Brian May: Foi uma responsabilidade enorme porque nós não estávamos apenas tocando, mas também organizando tudo. Já foi difícil selecionar os artistas. Nós discutimos muito internamente, mas o critério foi escolher os que tivessem mais a ver com Freddie.
Terry Giddings [assistente e motorista de Freddie Mercury]: O ensaio no Wembley Stadium foi ótimo. Todo mundo apareceu na hora marcada e ninguém se importou de esperar. Tony Iommi foi muito paciente, e George Michael esteve lá todo o tempo, mesmo quando não era o ensaio dele. O pessoal começava tentando cantar como Freddie, mas depois eles se soltavam e cantavam como eles mesmos.
Joe Elliott [vocalista do Def Leppard]: De certa forma o show foi animado e alto astral. O pessoal entrava e saía dos trailers e camarins uns dos outros. Mas, por outro lado, havia uma verdadeira tristeza, o clima era obviamente diferente no trailer do Queen.
Spike Edney [tecladista contratado do Queen]: Eu me tornei cético com esse tipo de evento. Parecia que todo mundo que não conseguiu entrar no Live Aid estava fazendo de tudo para entrar em qualquer evento beneficente depois daquilo, cinicamente buscando a exposição para promover suas carreiras.
Joe Elliott: Elton John nos contou que ele bateu na porta do camarim de Axl e um segurança enorme atendeu dizendo que ele estava dormindo. Elton respondeu: "Mas eu vou fazer um dueto com ele em duas horas!", e o cara deu de ombros e bateu a porta na cara dele. Elton entrou no nosso camarim e falou: "Qual é o problema com essa p*rra desse cara?". Ele reclamou um pouco, tomou uma xícara de chá e foi embora.
Gary Cherone [vocalista do Extreme]: Foi a maior transmissão de um show — maior que o Live Aid! Aquele foi provavelmente o melhor dia de nossas vidas porque nós conseguimos conhecer David Bowie e… ah, eu poderia falar sobre isso a vida toda!
Harvey Goldsmith [produtor]: O ambiente nos bastidores foi surpreendentemente amistoso. Ninguém criou caso ou tentou se sobressair. Todos concordaram com a ordem quando explicamos que era apenas para que o show fluísse.
Joe Elliott: Nossa apresentação foi bem complicada porque a bateria eletrônica de Rick [Allen] não era nada convencional, era um monte de cabos plugados. E eles plugaram tudo ao contrário, então quando ele tocava uma coisa, fazia o som de outra! Se você pegar as gravações, dá pra ver ele tateando o kit para plugar os cabos no lugar certo.
Mark Cox [espectador]: Havia muita controvérsia em torno do Guns N' Roses, mas eles foram muito bem recebidos. Axl Rose vestiu uma camisa dizendo "Kill Your Idols" ["Mate seus ídolos", em livre tradução], o que foi meio de mau gosto.
Joe Elliott: Brian disse: "Eu quero que você cante 'Tie Your Mother Down', mas é para você entrar no segundo verso, eu quero que o começo seja apenas nós três." E eu disse: "Claro! O Show é de vocês!"
Slash [guitarrista do Guns N' Roses]: Eu estava prestes a entrar no palco sem camisa, e tinha algo errado com minhas calças, então eu baixei elas até lá no tornozelo. Aí então eu ouço alguém me cumprimentando: era Elizabeth Taylor. Eu levantei as calças e falei: "Ahn… É um prazer conhecê-la."
Joe Elliott: Duff McKagan estava caindo pelas tabelas. Eu passei por cima dele enquanto ele estava deitado na escada no camarim. Ele estava um trapo. Aquilo foi após a apresentação do Guns N' Roses, onde ele estava impecável.
Tony Iommi [guitarrista do Black Sabbath]: Eu estava muito orgulhoso de tocar com Roger Daltrey e, claro, o Queen naquela noite. Foi uma experiência muito marcante.
Robert Plant [vocalista do Led Zeppelin]: Freddie disse que eles escreveram "Innuendo", em homenagem ao Led Zeppelin, mas a letra não entrou na minha cabeça. Eu tentei decorar ela em Marrocos, mas acabei tendo que apelar para uma cola no palco.
David Bowie [cantor]: Eu sentia como se tivesse sendo levado pela situação. Eu estava apavorado enquanto cantava. Meus amigos estavam sentados ao lado do Spinal Tap, eles ficaram sem palavras, de tão incrédulos!
Joe Elliott: "All The Young Dudes" foi os três melhores minutos da minha vida diante de uma plateia — minha música preferida de todos os tempos. Phil [Collen, guitarrista do Def Leppard] não queria tocar. Eu tive que pegar ele pela orelha (como um diretor escolar), arrastar ele até o palco e dizer: "Você vai tocar, sim!"
George Michael [cantor]: Aquele foi provavelmente o momento de maior orgulho de minha carreira. Eu estava realizando um sonho de infância: cantar uma das músicas do Freddie diante de 80 mil pessoas.
Mark Cox: Ver todo mundo junto cantando "We Are The Champions" foi uma grande forma de terminar o show. Foi um ótimo encerramento. Os fãs cantaram as músicas do Queen durante todo o caminho até o metrô.
O Concerto em Tributo a Freddie Mercury pela Conscientização da AIDS reuniu 72 mil pessoas no Estádio de Wembley, em Londres. O show foi transmitido ao vivo pela televisão e rádio para mais de 70 países, batendo uma audiência estimada em um bilhão de pessoas. A renda obtida com os lucros do evento foi revertida para a fundação da organização Mercury Phoenix Trust, até hoje ativa no combate à AIDS.
Morte de Freddie Mercury
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