Beatles: Engenheiro de som revela os bastidores da gravação de "Let it Be"
Por André Garcia
Postado em 11 de abril de 2022
O álbum "Let it Be" (1970) foi gravado durante um período conturbado dos Beatles, cuja ruptura entre seus integrantes era visível, e o fim já parecia questão de tempo. Idealizado em 1969 como um álbum ao vivo e um filme, o projeto acabou arquivado, e foi lançado apenas após a separação da banda.
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Conforme publicado no YouTube pelo canal What Happened to Claudio?, o engenheiro de som das gravações do "Let it Be", Glyn Johns, falou sobre os bastidores da produção em entrevista com Paul Kennerley.
"A ideia original de Paul era ótima, algo que ninguém nunca tinha feito: compor algumas músicas e gravar elas ao vivo diante de uma plateia, em um show. Um álbum ao vivo de músicas inéditas. Era pleno inverno e a ideia dele era ir para um anfiteatro na Tunísia, colocar um monte de fãs dos Beatles num barco… algo que seria bastante caro. Aquilo teria sido um programa de TV, e os bastidores seria um documentário."
"Nós começamos a parte musical ensaiando o material, e após uns três ou quatro dias, cada vez que fazíamos uma pausa para um chá discutíamos o andar da carruagem. Ali ficou claro que a ideia de ir para a África não tinha decolado. Ringo disse que não gostava da comida de lá, eu achei muito engraçado."
"Então toda aquela ideia foi por água abaixo, mas tínhamos músicas ótimas nos ensaios, e um documentário sendo filmado. Eu testemunhei naquele processo algo que eu sabia que milhares de pessoas adorariam assistir: aqueles quatro caras sentados juntos, tocando ao vivo, brincando um com o outro… Estávamos voltando às raízes."
"Eu estava gravando tudo aquilo e uma noite eu levei as fitas para o Olympic [Studios], mixei e editei tudo junto. Na manhã seguinte eu toquei aquilo para eles, e eles não quiseram nem saber. Quando chegou o fim, nós fizemos a apresentação no telhado e depois eles editaram as filmagens. O cara que as dirigiu era diretor de TV e não estava acostumado com filmes. Levou um ano para o documentário ficar pronto porque não tinha continuidade, era uma bagunça completa."
"No final das contas, eles foram gravar o 'Abbey Road' com George Martin e Geoff Emerick como engenheiro de som. Um tempo depois, John e Paul me pediram para encontrar eles no Abbey Road. Eu cheguei lá e tinha uma pilha de fitas de gravação, e eles queriam que eu fizesse o disco. Eu perguntei: 'Quando começamos?', e eles disseram: 'Nós não, você vai fazer isso sozinho'. Eu achei fantástico que eles tivessem tamanha confiança em mim."
"No carro, a caminho de casa, me ocorreu que não tinha nada a ver com aquilo, eles é que estavam totalmente desinteressados naquele material. Então eles estavam aliviados de empurrar aquilo para outra pessoa, o que foi meio decepcionante. Eu cheguei a concluir o trabalho e o enviar para a EMI, mas a banda se separou. Antes de sequer se falar no lançamento, John Lennon veio para os Estados Unidos e fez amizade com Phil Spector. Eu achei aquilo uma combinação estranha, mas ele deu as fitas para Phil Spector."
A partir daí, já sabemos o que aconteceu: Spector produziu o "Let it Be" (1970) à sua maneira, soterrando a banda com seus megalomaníacos arranjos orquestrados. O resultado desagradou a muitas pessoas, entre elas Paul McCartney, inconformado com o que foi feito com músicas como "Let it Be" e "The Long and Winding Road".
O baixista ficou com aquilo entalado na garganta até 2003, quando finalmente conseguiu lançar uma versão do álbum sem as intervenções de Phil Spector, o "Let it Be… Naked".
Confira a entrevista abaixo.
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