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Quando o Sepultura conquistou o Rock in Rio e rumou ao estrelato em 1991

Por Clovis Roman
Em 07/05/22

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A primeira edição do festival Rock in Rio, realizada em janeiro de 1985, foi um marco no show business no Brasil. Ao abrir as portas para diversos artistas gigantes da época, colocou o país na rota das turnês internacionais, além de inspirar milhares de aspirantes a músicos de todos os cantos. Dois deles foram os irmão Max e Iggor Cavalera, ainda adolescentes, que ficaram malucos com a quantidade de bandas de rock e Metal no lineup do evento. Por serem muito jovens, a mãe, Vânia, vetou a possibilidade dos meninos saírem de Belo Horizonte até o Rio de Janeiro. Os irmãos, frustrados, tiveram que assistir tudo pela televisão.

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Nem nos sonhos mais delirantes dos meninos – que criaram o Sepultura justamente dentro deste intervalo - eles imaginavam que subiriam naquele palco justamente na edição seguinte, realizada em 1991, realizada no estádio do Maracanã. Porém, foi exatamente o que aconteceu. Por mais que tenham sido escalados para abrir a noite da música pesada, o convite sacramentou de vez o Sepultura como um ícone do Metal nacional, e os impulsionou ainda mais rumo ao estrelato mundial.

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O livro 1984 – 1998: Sepultura – Os Primórdios, relançado em edição luxuosa, ampliada e revisada pela Estética Torta, uma das principais editoras voltadas à literatura sobre música pesada no Brasil, conta em detalhes como foi a primeira participação do Sepultura no maior festival do mundo, que tinha como outras atrações naquele 23 de janeiro de 1991, nomes de peso como Guns N’ Roses, Judas Priest, Megadeth e Queensryche, todos no auge de suas carreiras.

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O Sepultura foi confirmado um mês antes do show, o que causou uma correria na gravadora Eldorado. O álbum Arise sairia apenas em abril, mas para aproveitar o burburinho do Rock in Rio, foi lançada uma versão com mixagem provisória do disco, duas semanas antes do festival. A capa trazia um trecho específico da arte original, e hoje se tornou um belo item de colecionador.

Como mostra o livro 1984 – 1998: Sepultura – Os Primórdios, neste relançamento exclusivo em edição de luxo, houve grande interesse da grande mídia pelo quarteto mineiro. A obra traz trechos de matérias sobre o grupo naquele momento: "A audição das nove faixas de Arise não é recomendável para tímpanos delicados (...) O domínio do SEPULTURA é o da perplexidade: tudo o que há são narrativas descarnadas, histórias que delineiam uma paisagem árida onde a doença, a fome, a tortura, a degradação e a morte reinam incontestes. Relatos brutais para uma sonoridade brutal. Simples assim", escreveu Artur G. Couto Duarte no O Estado de Minas.

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Outra crítica positiva veio da Folha de S. Paulo, pelo jornalista Sérgio Sá Leitão: "O SEPULTURA está mais lento e infinitamente mais efetivo que antes, quando os rapazes tinham a energia do thrash, mas patinavam no controle de seus instrumentos bestiais. Maduros, eles agora são capazes de introduzir dedilhados sutis e climas góticos na abertura das faixas, como em 'Regnum Irae' e 'Infected Voice', as balas que fazem do lado B de Arise uma máquina de seduzir e matar ouvidos desavisados. O MEGADETH, apesar de sua tradição no thrash, terá que caprichar no Rock in Rio 2. O SEPULTURA está afiado, com seu lança-chamas pronto para não deixar o Maracanã sossegado".

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No livro, escrito por Silvio Gomes e Andre Barcinski, é argumentado que por mais que Arise tenha sido um sucesso de crítica e vendas, o Sepultura não teve o mesmo tratamento dos gringos durante o Rock in Rio, o que causou diversos momentos memoráveis nos bastidores. Um trecho da obra descreve os dias anteriores: "Max, Iggor, Paulo e Andreas não reclamaram. Estavam felizes demais com a chance de se apresentar no festival e só queriam saber de curtir a boa fase. Durante a semana do Rock in Rio, passaram as noites bebendo no Baixo Leblon e farreando com os amigos Mike Patton e Billy Gould, do FAITH NO MORE, e com o roadie Pedrão, do RATOS, vindo de São Paulo para dar uma força".

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"Depois de uma dessas incontáveis bebedeiras, Mike e Billy entraram escondidos no escritório da organização do Rock in Rio e roubaram papéis com todas as informações sobre os integrantes do Guns N' Roses, incluindo os números de seus passaportes e dos quartos de hotel em que estavam hospedados. Pedrão ligou para o quarto do vocalista Axl Rose e disse que era o chefe dos ‘carecas’ nazistas no Brasil: ‘Amanhã nós vamos te matar, seu filho da puta, abre o olho senão você morre!’. A namorada de Iggor, Monika, ligou para o baixista Duff McKagan, fingindo-se de fã ensandecida, e marcou um encontro às quatro da manhã, numa locação remota: ‘Se você não vier, eu vou me matar e seu nome vai estar em todos os jornais!’. Para completar, Billy Gould telefonou para a companhia aérea e desmarcou as reservas do voo do Guns. Infelizmente, ninguém se deu ao trabalho de checar se o trote deu certo ou não".

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Apesar do clima de alegria e traquinagens, o livro também mostra que as bebedeiras eram destinadas ao período noturno: "Se as noites foram dedicadas à esbórnia, durante o dia os integrantes do SEPULTURA trabalhavam duro. Eles aproveitaram ao máximo a enorme divulgação garantida pelo festival e deram dezenas de entrevistas para as mais variadas publicações. Agora já não eram apenas as revistas de rock que estavam interessadas na banda; todo mundo queria saber mais sobre os garotos mineiros. A revista para adolescentes Querida publicou um perfil dos quatro ‘gatos do heavy’: ‘Iggor. Como todo virginiano, é superdedicado e vive em busca da perfeição’. E Max revelou o segredo da namorada de seus sonhos: ‘Para me conquistar, a menina tem que estar no meio do caminho entre a inteligência e a burrice". Em outra grande publicação, o Jornal Do Brasil, Max deixou o público convencional de cabelos em pé, ao afirmar que não escovava os dentes há quatro dias, que não usava perfume ou ia ao cabeleireiro, e também ao afirmar que não gostava de ler.

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Uma parte específica do livro mostra a diferença de tratamento entre o Sepultura e as atrações internacionais: "A produção do Rock in Rio realmente não queria saber do SEPULTURA. Tanto que o camarim dos brasileiros só tinha guaraná e sanduíches de presunto, enquanto o do GUNS N' ROSES era abastecido com uísque, cerveja à vontade e um bufê de canapés. Os roadies Pedrão e Nino, revoltados com tamanha injustiça, roubaram a plaquinha com o nome GUNS N' ROSES e penduraram na porta do camarim do SEPULTURA, o que garantiu um farto suprimento de rango e bebida", contam os autores.

Apesar do álbum Arise já estar disponível, apenas uma música dele foi apresentada naquele dia: "Under Siege (Regnum Irae)". De resto, algumas faixas do Beneath the Remaisn (1988) e também "Orgasmatron", cover do Motörhead que sairia na edição regular de Arise, meses depois. "O público - suado e sedento por metal - recebeu-os com uma ovação impressionante e gritos de "SEPULTURA! SEPULTURA!". Bandeiras com o logotipo da banda tremulavam pelo mar de gente. Max saudou a plateia com um ‘Alô, Rio, vamos detonar!’, antes de comandar uma versão rapidíssima de "Primitive Future". A banda tocou oito músicas, uma paulada atrás da outra, sem perder tempo com lenga -lenga. O show durou apenas meia hora e deixou a galera pedindo mais".

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O livro complementa este importante momento para o grupo "O Rock in Rio 2 foi uma grande guinada na carreira do SEPULTURA. Se antes os fãs do grupo no Brasil se limitavam à tribo do heavy, agora algumas rádios mais populares também começavam a tocar os discos da banda. Arise foi um sucesso no Brasil e no exterior, totalizando mais de 800 mil cópias vendidas".

Posteriormente, o Sepultura voltou a praticamente todas as edições do Rock In Rio, totalizando seis participações no festival. A sétima acontecerá este ano, 2022, no mês de setembro.

Um registro histórico de valor incomensurável da fase clássica da maior banda de Metal do Brasil de todos os tempos, 1984 – 1998: Sepultura – Os Primórdios está a venda pelo site da editora Estética Torta, em versões com capa comum e capa dura e nova ilustração na capa.

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Livro 1984 – 1998: Sepultura – Os Primórdios, lançado pela editora Estética Torta, aborda a fase de ouro do maior grupo de Metal do Brasil.

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