É contradição comunista defender liberdade? Confira resposta de Mao do Garotos Podres
Por Gustavo Maiato
Postado em 02 de março de 2026
Desde os anos 80, o Garotos Podres se consolidou como uma das bandas mais politizadas do punk brasileiro. À frente do grupo, Mao nunca escondeu sua posição ideológica. Em entrevista ao canal Amplifica, ele voltou a defender o comunismo e respondeu a uma pergunta direta: seria hipocrisia um comunista defender liberdade de expressão?
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A provocação partiu da comparação com países como Cuba, China e Coreia do Norte, onde críticos apontam restrições à liberdade de opinião. Mao reagiu invertendo o argumento: "Contradição é a direita ficar defendendo liberdade de expressão, sendo que a direita sempre foi repressora das ideias. Quem sempre lutou pela liberdade de expressão sempre foi a esquerda, seja comunista, anarquista, social-democrata".
Ao falar especificamente de Cuba, ele foi enfático: "Nos países socialistas existe liberdade de expressão. O que se pune eventualmente não são as ideias, mas os atos. Você fazer críticas ao regime é algo tolerado. Agora, você colocar uma bomba num local público, aí é proibido - mas isso é proibido em qualquer país". Segundo Mao, parte da visão negativa seria fruto da grande imprensa, que, nas palavras dele, "desinforma".
O vocalista relatou experiências pessoais no país caribenho para sustentar o argumento. "Eu já fui para Cuba. A coisa que o cubano mais gosta de fazer é charlar, é conversar. Se você estiver andando na rua, algum cubano vai parar para bater papo, principalmente se você for estrangeiro. E você vai ouvir muitas críticas: 'falta isso, falta aquilo'. É normal. Mas mesmo essas pessoas que criticam defendem o regime", afirmou.
Para ele, a crítica não é necessariamente oposição ao sistema: "Defender o regime não significa apenas elogiar. Muitas vezes, quem mais defende é aquele que critica, porque está apontando o que acha que não está bom com o intuito de melhorar". Mao também reconheceu que Cuba não é perfeita: "Cuba é o paraíso da democracia na Terra? Não, talvez não. Mas com certeza é uma sociedade muito mais democrática que o Brasil. Muito mais democrática que os Estados Unidos, que é uma piada em termos de democracia".
Durante a entrevista, Mao desenvolveu a ideia de "poder popular" e citou os Comitês de Defesa da Revolução (CDRs), criados em Cuba nos anos 1960. "Inicialmente aquilo havia sido pensado como um órgão de controle ideológico. Só que não tardou para se tornar um órgão de poder popular", explicou. Ele contou um exemplo: "Se o muro da sua casa está caindo, você recorre ao CDR, e eles organizam um mutirão para arrumar. Isso é poder popular".
Outro relato envolveu uma cidade da Sierra Maestra que teria ficado sem energia elétrica após uma tempestade. "As máquinas da padaria não funcionavam. A comunidade se reuniu e decidiu fazer pão manualmente para as crianças. Sempre em primeiro lugar, as crianças. Isso é poder popular", disse.
Mao também detalhou sua visão sobre o sistema eleitoral cubano: "O voto não é obrigatório, mas 96% votam. Para ser candidato, não precisa estar inscrito em partido nenhum. O único partido que existe, o Partido Comunista Cubano, é proibido de interferir nas eleições". Ele acrescentou que, segundo seu entendimento, não há abuso de poder econômico nas campanhas: "Todo mundo tem propaganda igual. Não tem essa coisa de bilionário fazendo campanha".
Sobre o papel do partido, ele afirmou: "O Partido Comunista de Cuba não é um partido de privilégios, é um partido de sacrifícios. Para ser membro, você não assina uma fichinha. Você tem que ser eleito, ter conduta exemplar. Se você é do partido, é o primeiro a fazer trabalho voluntário".
Ao concluir, Mao retomou o ponto inicial: "Democracia não é só votar a cada dois anos. Democracia é a relação que as pessoas têm no cotidiano. É se reunir e decidir o que fazer quando falta pão, quando há um problema no bairro. Isso tem a ver com liberdade de expressão".
Confira a entrevista completa abaixo.
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