A resposta de Bob Dylan quando perguntado se ele é mainstream ou cult
Por André Garcia
Postado em 15 de julho de 2022
Bob Dylan surgiu em 1960 na emergente cena folk de Greenwich Village, em Nova Iorque, como intérpretes dos clássicos do gênero. Apenas em seus primeiros 10 anos de carreira, ele emplacou hits que se tornaram verdadeiros hinos e lançou álbuns aclamados como obras-primas. E isso ora fazendo música de protesto; ora fazendo poéticos fluxos de consciência, ora solo e acústico, ora elétrico e acompanhado por uma banda.
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Sempre seguindo seu próprio caminho — sempre certo na contramão —, Dylan com o passar das décadas foi considerado um dos maiores compositores de seu tempo. Não é atoa que foi o primeiro a receber o Nobel de Literatura.
Não há dúvida de que ele está ao lado dos Beatles entre os maiores, mas, conforme entrevista para o Huffington Post, ele não se considera mainstream como nomes como Paul McCartney e Elton John:
"Minhas coisas diferem daqueles caras — é mais desesperado", definiu o trovador americano. "[Roger] Daltrey, [Pete] Townshend, [Paul] McCartney, Beach Boys, Elton [John], Billy Joel… eles fazem álbuns perfeitos para serem perfeitamente tocados, exatamente da forma como as pessoas lembram. Meus discos jamais foram perfeitos, então não faz sentido tentar reproduzir eles."
Ao ser questionado sobre que tipo de artista ele é, a resposta foi: "Sei lá… 'byronesco', talvez. Veja bem, quando eu comecei, o mainstream era [Frank] Sinatra, Perry Como, Andy Williams, Sound of Music… Eu não me encaixava nisso na época, e não me encaixo nisso agora. Algumas de minhas músicas cruzaram [essa fronteira], mas elas foram todas gravadas por outros cantores."
Sempre ambíguo, após negar ser mainstream Bob Dylan foi perguntado se ele é uma figura cult — e também respondeu que não:
"Uma figura cult? Isso tem uma conotação religiosa… Isso soa sectarista e excludente. As pessoas têm diferentes níveis emocionais, especialmente quando jovens. Naquela época, suponho que a maior parte das minhas influências poderiam ser consideradas marginais. Os veículos de comunicação em massa ainda não eram esmagadores, então eu era atraído por artistas itinerantes de passagem: cantores de bluegrass, o caubói negro fazendo truques com cortas, Quasímodo, a Mulher Barbada, engolidores de fogo, professores, pregadores, cantores de blues…"
"Eu me lembro como se fosse ontem, eu me aproximei daquelas pessoas. Eu aprendi sobre dignidade com elas — liberdade também. Direitos civis, direitos humanos… Como começar por você mesmo. A maioria dos demais se ligava na onda, como os turbilhões de uma montanha-russa. Para mim aquilo era um pesadelo. Toda aquela frivolidade, a artificialidade daquilo. A marreta da vida. Aquilo não fazia sentido e nem parecia real. As coisas fora da estrada principal era onde a força da vida estava — pelo menos foi assim que eu percebi."
Confuso com aquela divagação poética, o entrevistador encerrou observando: "Mas você já vendeu mais de 100 milhões de discos." E a resposta não poderia ser mais Bob Dylan: "É, eu sei. Isso é um mistério para mim também."
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