Robert Smith e o ponto em que ele "violentamente discordou" do Radiohead em 2007
Por André Garcia
Postado em 18 de novembro de 2022
Em meados da primeira década do século XXI, a indústria fonográfica estava em queda livre: CDs não vendiam mais e música passou a ser consumida quase que exclusivamente por meio do compartilhamento ilegal de arquivos pela internet. Com a renda da venda de álbuns evaporando, gravadoras entraram na maior crise de sua história, enquanto as bandas tiveram que se acostumar a viver da renda de shows.
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Em meio a tudo isso, o mundo da música foi sacudido pelo Radiohead com o lançamento de seu oitavo álbum, "In Rainbows" (2007), e o anúncio de que ele seria vendido na internet pelo preço que o consumidor quisesse pagar. Um modelo comercial experimental que pegou a todos de surpresa, mas não agradou a todos.
Conforme publicado pela Far Out Magazine, Robert Smith, líder do The Cure, foi um dos que se posicionaram contra. Uma das ocasiões em que ele falou sobre o assunto foi em entrevista para a Music Radar em 2009.
"O experimento do Radiohead de pagar o quanto você quiser, eu discordei violentamente daquilo. Você não pode deixar que as pessoas deem preço ao que você faz, se não você não dá valor àquilo, o que não faz sentido. Se eu boto um preço em minha música que ninguém quer pagar, azar o meu, mas a ideia de o valor ser definido pelo consumidor é um plano idiota, não tem como dar certo."
A opinião de Smith, na época do lançamento do disco, pegou muito mal entre os numerosos e fervorosos fãs do Radiohead. Na época, muitos deles viam aquele experimento comercial como uma heroica tentativa de se livrar das garras das gananciosas multinacionais — e Robert Smith como um reacionário tentando jogar água no chope de Thom Yorke e companhia. Irado, o líder do The Cure escreveu um post (com o caps lock ativado), que dizia:
"Esses críticos idiotas se esforçaram para transformar meu argumento — onde usei como exemplo o marketing de pague o quanto quiser do Radiohead com 'In Rainbows' — em um show de horrores. [Escreveram coisas do tipo:] "Como alguém pode ousar questionar o conhecidamente independente e anti-capitalista Radiohead? Eles vendem mais 'produto' que o The Cure, então a estratégia deles funciona, né? Além do mais, Robert Smith está velho demais para comentar a cultura contemporânea.'"
"Meu argumento não era nem novo ou original e nem exclusivamente sobre 'In Rainbows', do Radiohead. Mas é o que sinto em relação à artistas interessantes com uma gigantesca e devotada base de fãs [geralmente acompanhada de um ou outro grande e generoso mecenas] que podem fazer o que quiserem… até dar seu trabalho de graça, como uma espécie de líder da perda, para ajudar a 'consolidar a marca'."
Segundo a Radio X, a estratégia do pague o quanto quiser se mostrou um tremendo sucesso. Representantes da banda revelaram que a maior parte das pessoas baixaram de graça, e a média mundial de pagamento foi $6. Foi publicado na época que eles receberam quase que instantaneamente 3 milhões de dólares com o lançamento. Apesar disso, a banda não voltou a usar o modelo comercial em seus álbuns seguintes.
The Cure
O The Cure surgiu com seu álbum de estreia "Three Imaginary Boys" (1979), que desagradou ao vocalista Robert Smith por sua sonoridade pop e ingênua. A partir dali, com a sequência, "Seventeen Seconds" (1980), "Faith" (1981) e "Pornography" (1982), a banda se tornou cada vez mais sombria, fúnebre e depressiva, até chegar ao fundo do poço emocional.
Quando ficou conhecido como uma figura sombria e deprê, ele ressurgiu em meados da década com uma mudança bipolar: sorridente e saltitante, que dançava desajeitadamente cantando canções pop. Dessa forma, Robert Smith se tornou um ícone pop tão grande que seu visual inspirou dois dos personagens mais marcantes da época: Edward (o mãos de tesoura) e Sandman de Neil Gaiman. Em 1992, chegou a seu auge de popularidade com o hit "Friday I'm In Love", e rodou o mundo a lotar estádios.
A seguir, entrando em um inferno astral pessoal, Smith caiu em depressão com a vida de astro de stadium rock. Para piorar, ele ainda foi arrastado aos tribunais em longos e desgastantes processos envolvendo questões empresariais da banda, como pagamento de royalties. "Wild Mood Swings" (1996) foi produzido em meio a tudo aquilo, e detonado como o pior trabalho da banda. Após mais um longo período de inatividade, retornando com o épico "Bloodflowers" (2000).
"The Cure" (2004) e "4:13 Dream" (2008) mantiveram o alto nível musical, mas sem o irresistível apelo comercial do passado.
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