C.J. sobre seu primeiro show com os Ramones: "Foi Cuspe, moeda, garrafa, sapato…"
Por André Garcia
Postado em 03 de fevereiro de 2023
Em 1989, o mundo do punk rock foi sacudido pela notícia de que Dee Dee saía do Ramones. Para a missão impossível de o substituir foi escolhido o então desconhecido baixista Christopher Joseph Ward — a partir dali rebatizado C.J. Ramone.
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Cerca de 15 anos mais novo que os demais integrantes, ele teve que encarar a rejeição e a resistência dos mais hardcore de seus fãs — e não fugiu da raia. Em 2016, 20 anos após a separação da banda, o baixista deu uma extensa entrevista, disponível no YouTube, onde relembrou aquela parte de sua história. Entre outras coisas, ele relembrou em detalhes como foi seu primeiro show com a banda.
"Uma coisa que você precisa ter em mente é que meu primeiro show com os Ramones foi cinco semanas após sair da marinha, estava mentalmente bem. Eu tinha passado cinco semanas me preparando — 40 músicas em cinco semanas. Eu vinha ensaiando com a banda duas ou três vezes por semana, estava prestes a subir ao palco com minha banda preferida de todos os tempos. Com certeza eu estava nervoso."
"Por ter acabado de sair do serviço militar, eu era muito orientado a objetivos. Eu estava decidido a nem tentar substituir Dee Dee; sem chance, jamais! O que eu podia era fazer o melhor trabalho que pudesse, e não prejudicar a banda. Teve o voo, e na hora de subir ao palco foi algo esmagador. Eu nunca tinha ido para a Europa antes, então obviamente nunca tinha ido para a Inglaterra. Johnny foi conversando comigo o tempo todo, ele dizia 'Você tem que relaxar, toque como ensaiamos...'. Antes do show, no camarim, conforme nos preparávamos, os nervos começaram a aflorar. Quando passamos pela coxia, a luz abaixou, e começaram as coisas boas, as ruins e as feias. Johnny virou para mim e disse: 'Não se esqueça — toque como nós ensaiamos'."
"Eu costumava fazer bastante alongamentos e essas coisas antes de subir ao palco. Quando terminei de aquecer, me levantei e lá estava Johnny. Ele me disse 'Tenha um bom show lá'. Do nada as luzes se acenderam e fomos para o palco. Foi um borrão para mim a maior parte daquilo. Acho que muito do que eu fiz foi apenas por memória muscular, vindo do meu inconsciente, porque foi esmagador quando as luzes se acenderam."
"Eu olhei, vi as pessoas, e imediatamente foi [uma chuva de] cuspe, moeda, garrafa, sapato... uma incessante cascata de tudo que era m*rda voando no palco o tempo todo. Se fosse uma pessoa que não soubesse o que esperar, ou que não fosse obstinada, teria sido um momento bem intimidador. Mas eu adorei! Eu fui até a beira do palco, cuspi de volta, mostrei o dedo... gritavam coisas para mim entre as músicas, eu agarrava a virilha para eles e dizia 'Eu comi a bunda da rainha!'..."
"No começo da noite, eles gritavam em coro 'Dee Dee! Dee Dee! Dee Dee!' depois de cada música. No final do show eles estavam gritando 'C.J.! C.J.! C.J.!', porque eu não abaixei a cabeça. Eu estava no palco com uma das minhas bandas preferidas de todos os tempos; eu estava vivendo um sonho; eu saí de ser um militar para estar diante de milhares de pessoas. Não tinha como alguém me fazer abaixar a cabeça... até que saímos do palco."
"Nós saímos do palco depois da parte principal do repertório, e eu estava tão coberto de cuspe que tirei a camisa na hora. Quando voltamos para o bis, eu fui sem camisa. Tem até uma foto disso. Eu já vi por aí na internet, com cabelo bem curto e arrepiado, na época, sem camisa e com poucas tattoos... Então toquei o bis sem camisa."
"Quando voltamos para o camarim, assim que a porta do camarim fechou Johnny surtou O que diabos deu em você? Você já viu a gente subir ao palco sem camisa alguma vez?' Eu estava tentando explicar que eu estava coberto de cuspe, fedendo, queria tirar aquilo. Eu entendi o Johnny bem cedo, porque a abordagem dele para tudo era bem de acordo com a cartilha da autoridade. Ele foi para a escola militar quando pequeno. Eu identifiquei tanto de como Johnny agia com os escritórios [das forças armadas], que de cara fiquei à vontade com ele."
"Eu acabei tendo que abaixar a cabeça e ouvir. Só balancei a cabeça até que ele terminasse, e depois saí de lá. Eu comecei a comemorar! Eu não conseguia acreditar que cheguei ao fim do meu primeiro show. Não foi o mais gracioso, eu não toquei nenhuma maravilha, mas foi quando eu percebi que realmente seria um batismo de fogo — os fãs não iriam simplesmente me aceitar, eles me fizeram merecer aquele posto. Eu os agradeço pelo que eles me fizeram passar. Eu passei por aquilo em cada noite, em cada cidade, cada novo lugar que íamos; e aquilo levou uns anos até me enturmar com cada lugar que os Ramones iam. Alguns lugares, como Espanha e Inglaterra, eram piores que outros. Mas mesmo na Escócia, caras que hoje são grandes amigos meus iam aos shows e dizia: 'Eu vou te matar! Era para eu estar no seu lugar [risos]!"
"Aquela foi a minha introdução à coisa, foi quando percebi que não seria um passeio no parque, eu teria que fazer por merecer meu lugar."
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