A estranha história por trás da épica "The Count Of Tuscany", do Dream Theater
Por Mateus Ribeiro
Postado em 28 de maio de 2024
O talentoso grupo norte-americano de Metal Progressivo Dream Theater se tornou mundialmente conhecido por conta de suas obras repletas de técnica e feeling. Uma dessas obras, que figura entre as composições mais épicas da banda, é a magnífica "The Count Of Tuscany".
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Ao longo de seus 19 minutos, "The Count Of Tuscany" entrega tudo o que o fã do Dream Theater gosta: melodia, peso, várias mudanças de andamento e aquela sensação de que a música é a trilha sonora de um filme. Pois bem, "The Count Of Tuscany" poderia mesmo ser a trilha de uma produção cinematográfica, uma vez que sua letra narra a história que se assemelha ao roteiro de um longa-metragem.
"Several years ago, in a foreign town…"
O guitarrista John Petrucci, um dos fundadores do Dream Theater, falou sobre a composição de "The Count Of Tuscany" em 2009, durante entrevista concedida a Ivan Chopik, colaborador do site Guitar Messenger.
Segundo Petrucci, "The Count Of Tuscany" começou a tomar forma quando ele, o baixista John Myung e alguns amigos estavam na Toscana (Itália) e foram até uma vinícola.
"Meu amigo Mark [Snyder], que constrói meus racks e tudo mais, e o técnico de bateria do Mike [Portnoy] na época e John Myung - fomos todos a uma vinícola na Toscana. Meu amigo Mark, na verdade, importava vinhos e estava interessado nessa vinícola, e o conde da família, um rapaz jovem, nos levou para conhecer o castelo. O cenário era uma espécie de combinação de colinas do Velho Mundo e alojamentos de pedra para os empregados, animais andando pelo castelo antigo, mas também uma vinícola moderna com cubas de aço inoxidável e outras coisas.
Portanto, [a letra da música] trata-se de toda a experiência pela qual passamos, e foi tão bizarro que, toda vez que encontrávamos algo, olhávamos um para o outro e dizíamos: ‘Ok, foi bom conhecer vocês!’. Entrávamos em um porão escuro e o John [Myung] dizia: 'Ah, olhe para aquele canto. Coloque sua cabeça naquele canto'. E você dizia: 'Ok'. Tudo era inocente, mas era muito engraçado", relatou Petrucci.
Quem é o "Conde da Toscana"?
Pois bem, quem é o conde citado por Petrucci? Depois de uma longa pesquisa pela Internet, descobri que o conde é o italiano Sebastiano Capponi e a vinícola onde a história aconteceu é a Villa Calcinaia.
"A Villa Calcinaia (pronuncia-se "Kal-chin-aya") está situada no centro de Chianti Classico, perto da cidade de Greve-in-Chianti. Essa propriedade histórica tem sido o lar dos Condes Capponi desde 1524 e é mantida por Sebastiano Capponi e seu irmão Niccolò. Calcinaia é o coração da família Capponi e cada geração dá nova vida aos campos, bosques, vinhedos e adegas. Esses vinhos expressam o amor da família por sua terra; a cada safra, eles compartilham as esperanças, as preocupações, o orgulho e o cuidado que acompanham a produção de vinhos honestos. A agricultura orgânica tem sido o padrão na Villa Calcinaia desde que Sebastiano assumiu a administração da propriedade em 1992", diz texto publicado no site da importadora de vinhos/agência de marketing The Marchetti Company.
Niccolò, o historiador barbudo
A letra de "The Count Of Tuscany" fala sobre o irmão do conde, que no caso, se chama Niccolò, é historiador e é descrito na música como um "homem barbudo", de sotaque distinto e que curtia fumar um cachimbo.
"Acho que o que nos motivou foi o fato de o conde [Sebastiano] ter nos contado que o personagem que [o ator] Anthony Hopkins interpreta em ‘Hannibal’, em que ele é o curador da biblioteca da família, é baseado em seu irmão [Niccolò] e aquela era a casa onde eles cresceram. Então eu pensei: 'Oh, isso é realmente ótimo. Vamos ver Hannibal’", relembrou Petrucci, que ficou assustado com a situação.
"Então, isso meio que preparou o clima para as coisas serem estranhas, mas foi basicamente isso. Provamos alguns vinhos muito antigos, tão antigos que chegavam a ser ridículos, e em uma sala havia barris de carvalho gigantes do chão ao teto, e ele [Sebastiano] nos contava como o irmão fumava em seu cachimbo e tudo mais: 'Ah, sim, durante a guerra os soldados vinham se esconder dos alemães, mas alguns deles nunca escaparam e ainda estão nos barris'. E pensamos: ‘Tudo bem, vamos ficar em um barril, é assim que vamos morrer!’. Portanto, foi a minha licença criativa para abordar essa experiência", acrescentou o guitarrista, que sobreviveu ao passeio, apesar do clima tenso e amedrontador citado na letra da música que é o tema desta nota.
A história contada pelos dois irmãos
Os irmãos Capponi, que são personagens centrais de "The Count Of Tuscany", falaram sobre a música em um artigo de 2011, publicado no site do restaurante Vino da Burde.
"O contato veio por meio de um grande amigo meu em Nova York, Mark Snyder, que era o técnico de guitarra deles. A propósito, há um artigo sobre ele na edição de agosto da revista Guitar Aficionado. Mas a circunstância mais engraçada foi que foi meu contador que me alertou sobre o fato e me ligou para perguntar se eu conhecia o Dream Theater. Depois de um momento de surpresa inicial, já que os contadores, quando ligam para você em junho, não querem falar sobre Rock Progressivo, mas sim sobre impostos, respondi afirmativamente e ele me disse que tinha a letra da música diante dos olhos e que não havia dúvida sobre quem eram os protagonistas da música, além de eu e meu irmão", relatou Sebastiano.
Niccolò, por sua vez, foi mais detalhista ao falar sobre o encontro com o guitarrista do Dream Theater (e demais visitantes).
"Você pode, ou não, conhecer uma banda de metal progressivo chamada Dream Theater; caso contrário, não há motivo para se envergonhar, pois minha própria cultura musical termina com Francesco Landini (Século 14 - uma piada, na verdade. Gosto bastante de Cole Porter). De qualquer forma, o grupo acima lançou recentemente um álbum chamado ‘Black Clouds and Silver Linings’, que, pelo que sei, tem feito bastante sucesso.
A pergunta que você pode estar fazendo é: por que diabos deveríamos nos importar, já que seu gosto declarado por gêneros musicais saiu recentemente de um sarcófago? Bem, pela primeira vez, decidi deixar de lado Rossini, Sibelius e Gershwin; e por um motivo muito específico.
O álbum contém uma música em particular - bem longa, para ser sincero, intitulada ‘The Count of Tuscany’. A letra é um tanto sinistra, se preferir; a menos que você conheça a gênese dessa peça musical em particular. Ela se refere à Villa Calcinaia, a mim e, em particular, ao meu irmão Sebastiano.
Há alguns anos, meu irmão perguntou se eu estava disposto a ir até a Villa e conhecer os membros de uma banda de Rock. Inicialmente, eu hesitei, devido aos meus meus gostos musicais acima mencionados e a necessidade de terminar de escrever um livro. No entanto, por insistência de Seb, cedi. Chegando ao porão, encontrei um grupo de pessoas que se encaixavam perfeitamente na imagem popular dos roqueiros: brincos, rabos de cavalo, tatuagens e tudo o mais.
Bem, você pode imaginar minha surpresa ao descobrir que aqueles indivíduos não eram uma gangue do ‘sexo, drogas e rock-&-roll’, mas sim quadrados como cubos, homens de família, totalmente profissionais, com um senso de metafísica e, de fato, muito cultos musicalmente.
Seb e eu os levamos para conhecer as adegas, os vinhedos e a propriedade em geral, eu estava fumando, como sempre. Aparentemente, nós os assustamos completamente - era de se esperar o contrário - já que no refrão da música eles enfatizam um medo persistente de não conseguir sair da propriedade (...). No entanto, eles conseguiram sair, caso contrário, eu não estaria escrevendo este artigo", escreveu Niccolò, que curiosamente, sugeriu a criação de "The Count Of Tuscany".
"Uma observação final: durante a refeição, conversamos sobre ópera e sugeri que eles deveriam escrever uma. Talvez com o ‘Conde da Toscana’ como protagonista principal. Ou, melhor ainda, com os vinhos da Villa Calcinaia, já que foram eles que nos levaram a essa ideia."
"The Count Of Tuscany" é a sexta (e última) faixa de "Black Clouds & Silver Linings", décimo disco de estúdio do Dream Theater, lançado em junho de 2009. O álbum foi gravado por James LaBrie (vocal), John Petrucci (guitarra), John Myung (baixo), Mike Portnoy (bateria) e Jordan Rudess (teclado).
Agora que você já conhece melhor a história dessa grande música do Dream Theater, é hora de curtir um som. Aperte o play e viaje ao som de "The Count Of Tuscany".
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