Porque o Astronauta do Nenhum de Nós era de mármore, e o que David Bowie tem a ver com isso
Por Bruce William
Postado em 22 de março de 2025
Uma das músicas mais conhecidas do Nenhum de Nós, "Astronauta de Mármore", é uma versão de "Starman", clássico de David Bowie lançado em 1972. A adaptação em português, feita por Thedy Corrêa, Carlos Stein e Sady Homrich, se tornou um fenômeno nas rádios em 1989, muito além do que a gravadora imaginava. A música foi parar na sétima faixa do álbum "Cardume", que só ganhou força quando um DJ decidiu tocá-la por conta própria. O público abraçou, e não largou mais, relata matéria do O Globo.

O curioso é que "Astronauta de Mármore" não tenta ser uma tradução literal da original. Em vez disso, a banda se propôs a criar uma nova narrativa. A ideia era desenvolver um terceiro capítulo para a saga do Major Tom - o personagem espacial que aparece em "Space Oddity" e depois, já em declínio, em "Ashes to Ashes". Em português, a história é de redenção: o astronauta retorna ao planeta mais puro, pronto para tentar viver sem dor.
O termo "mármore" intriga até hoje. O jornalista e pesquisador Júlio Ettore sugeriu que poderia ser uma metáfora para drogas, especialmente a cocaína. E recebeu uma resposta direta do guitarrista Carlos Stein, que confirmou: "Que me lembre, é mais uma referência ao pó branco da pedra." A imagem do mármore, cujo pó é usado eventualmente para adulterar cocaína, sendo misturado à droga para aumentar o volume antes da venda, reforça o aspecto lírico da superação do vício.
A sonoridade da versão brasileira também teve escolhas bem específicas. A voz e os violões buscavam o clima das gravações sessentistas de Bowie. O violino que aparece nas passagens entre os versos veio da faixa "Hurricane", de Bob Dylan, outro nome constante no imaginário musical do grupo.
Em 1990, Bowie fez uma série de shows no Brasil. Durante as apresentações, começou a anunciar "Starman" com uma frase que deixava o público em euforia: "Vou tocar uma música que vocês conhecem em português." Aos 22 minutos e 40 segundos de um dos registros em áudio amadores da turnê disponível no youtube, é possível ouvir esse momento.
A aprovação da versão exigiu um processo formal. A letra traduzida foi enviada à editora BMG Publishing, que demorou meses para dar o sinal verde. Depois que a autorização foi concedida, Thedy Corrêa viajou a Londres e levou presentes para agradecer à funcionária que havia intermediado tudo, entre eles, flores e bombons brasileiros.
Com o sucesso estrondoso da faixa, "Cardume" acabou vendendo mais de 210 mil cópias, ganhando Disco de Ouro. Mas o Nenhum de Nós também teve que lidar com críticas. "Nos chamavam de banda de um hit só, sendo que 'Camila, Camila' já tinha estourado dois anos antes", recorda Thedy. Sobre as críticas à liberdade poética da versão, ele rebate: "Assassinamos? O cara autorizou, mencionou no show, deu o aval. Hoje está claro quem ganhou essa briga."
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