A canção que Raul Seixas gravou "por brincadeira", mas que seria cancelada hoje em dia
Por Bruce William
Postado em 02 de março de 2025
Raul Seixas sempre transitou entre o lúdico e o provocativo, misturando referências que iam da filosofia à cultura pop. Mas uma de suas músicas, lançada no álbum "Abre-te Sésamo" (1980), provavelmente causaria uma grande polêmica nos dias de hoje. "À Beira do Pantanal" traz uma letra que descreve o assassinato de uma mulher como um "gesto sagrado de amor", um tema que, analisado sob a ótica atual, se encaixa na tipificação do feminicídio.
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A canção narra: "Foi lá na beira do Pantanal, seu corpo tão belo enterrei. Foi lá que eu matei minha amada... Assassinei quem amava num gesto sagrado de amor. O sangue que dela jorrava, a sede da terra acalmou. E lá onde jaz o seu corpo, cresceu junto com o capim, seus lindos cabelos negros que eu regava como um jardim." O trecho sugere um lirismo fatalista, onde a morte da amada simboliza o fim de um amor, mas, interpretado de forma literal, se torna uma representação brutal e inaceitável.
O que muitos fãs talvez não saibam é que "À Beira do Pantanal" é uma adaptação de "Down in the Willow Garden", uma murder ballad tradicional do século XIX, gravada por diversos artistas, incluindo os Everly Brothers. Na versão original, o narrador envenena, esfaqueia e joga o corpo da mulher em um rio, arrependendo-se depois. Raul Seixas fez alterações na narrativa, mantendo o crime, mas dando voz à mulher assassinada em alguns trechos.
Em seu livro "Não Diga Que A Canção Está Perdida" (Amazon), o biógrafo Jotabê Medeiros comenta que a gravação da música começou como uma brincadeira entre Raul e Kika Seixas, sendo feita em um gravador caseiro. No entanto, a decisão de incluí-la no álbum do jeito que foi feita sem dar créditos à canção original fez com que Raul fosse criticado por se apropriar da composição sem reconhecimento.
Hoje, uma música com essa temática provavelmente enfrentaria um forte repúdio. O tratamento da violência contra a mulher mudou drasticamente ao longo das décadas, e letras que romantizam esse tipo de crime tendem a gerar grande indignação. Na época, o contexto das murder ballads não era tão debatido, mas atualmente, canções que abordam feminicídio sem um olhar crítico dificilmente passariam despercebidas.
Raul Seixas nunca teve medo de desafiar convenções e explorar temas polêmicos, mas "À Beira do Pantanal" é um exemplo de como algumas composições podem ser interpretadas de maneiras muito diferentes dependendo do contexto histórico. Se lançada hoje, a música certamente geraria um grande debate e, sem dúvida, muitas críticas.
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