A música de Raul Seixas que faria ele ser "cancelado" nos dias de hoje
Por Bruce William
Postado em 13 de janeiro de 2026
É bem provável que, se certas músicas fossem lançadas hoje exatamente como foram gravadas décadas atrás, elas não passariam nem pela primeira triagem de "o que vai dar de problema". Não porque o passado era "melhor" ou "pior", mas porque a forma de escutar mudou: contexto, sensibilidade, redes sociais e a velocidade do julgamento transformaram a recepção. O que ontem era encarado como sátira ou exagero (pensa em casos como Mamonas, por exemplo) hoje costuma ser lido com lupa - e com pouca paciência para nuance.
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No caso de Raul Seixas, existe uma faixa que encaixa perfeitamente nessa discussão: "À Beira do Pantanal", lançada no álbum "Abre-te Sésamo" (1980) (youtube). O tema central é violento e, do jeito que a letra organiza as imagens, a narrativa pode soar como romantização de um crime contra uma mulher - algo que, na leitura atual, inevitavelmente entra na discussão de feminicídio e romantização de violência.
A letra é explícita no enredo e usa um tom de lirismo sombrio para embalar a história. Sem reproduzir a letra inteira, dá pra resumir o essencial: o narrador descreve ter matado e enterrado a companheira, e o texto tenta "poetizar" essa ação. É justamente esse choque entre forma (poética) e conteúdo (crime) que faz a música parecer ainda mais radioativa em 2026 do que soava em 1980.
Não justificando, mas contextualizando: "À Beira do Pantanal" não nasce do nada. Ela é tratada como uma adaptação brasileira de uma "murder ballad" tradicional, "Down in the Willow Garden", gravada em versões famosas (inclusive por nomes do pop/rock clássico). Ou seja: Raul está puxando um tipo de narrativa antiga, de tradição oral/cantada, em que crimes aparecem como enredo - o que não significa "aprovação", mas ajuda a entender de onde vem a estrutura.
A própria história da gravação também é parte do "pacote" que alimenta o debate. Segundo o biógrafo Jotabê Medeiros, o registro começou como uma brincadeira entre Raul e Kika Seixas, feito num gravador caseiro, e acabou entrando no disco praticamente daquele jeito. A decisão de incluir a faixa sem creditar a canção original também rendeu críticas de apropriação.
O ponto é que, hoje, a discussão não pararia só em "é uma história cantada" ou "é uma tradição antiga". A reação provavelmente iria direto para o impacto social do tema e para a forma como ele é narrado - porque, quando o assunto é violência contra a mulher, o espaço para ambiguidade diminui. E aí a música vira um daqueles casos em que o debate engole a obra antes de qualquer tentativa de contextualização.
Talvez a ironia seja essa: o Raul que muita gente vende como "provocador profissional" não precisaria fazer esforço extra aqui. Se vivo fosse, bastaria relançar a faixa como ela é - e a polêmica já estaria pronta, com explicações, threads e julgamento rápido, como costuma acontecer quando a lente do presente cai em cima de escolhas do passado.
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