Quando Eric Clapton irritou os punks e passou a temer pela própria segurança
Por Bruce William
Postado em 17 de maio de 2025
"Eu estava com medo. Estava preocupado em encontrar alguns deles. Havia um antagonismo muito forte." Foi assim que Eric Clapton descreveu, anos depois, a tensão que sentiu com a ascensão do punk. A fúria do novo movimento parecia mirar diretamente nele — e não apenas por conta de suas escolhas musicais.
Tudo começou numa noite de agosto de 1976, relembra o The Guardian, quando Clapton, bêbado e irritado, fez um discurso em apoio a Enoch Powell, político conservador famoso por declarações racistas. Diante do público no Odeon de Birmingham, disparou: "Enoch estava certo. Acho que deveríamos mandar todos eles de volta." Powell havia ganhado notoriedade em 1968, quando fez um inflamado discurso alertando que o Reino Unido enfrentaria "rios de sangue" se continuasse permitindo a entrada de imigrantes, especialmente vindos das antigas colônias britânicas. As palavras de Clapton soaram ainda mais provocativas por terem sido ditas a poucos metros do local onde Powell havia feito essa pregação: o Midland Hotel, em Birmingham.

A reação veio rápido. Red Saunders, fotógrafo e ativista, publicou uma carta aberta nos principais veículos da imprensa musical britânica. Nela, criticava duramente Clapton: "Assuma, Eric... Metade da sua música é negra. Você é o maior colonizador do rock." O texto, assinado também por Roger Huddle e outros, deu origem ao movimento Rock Against Racism (RAR), que promovia shows com bandas de reggae e punk para combater a influência do National Front, grupo de extrema-direita que ganhava força no país.
O movimento cresceu rápido. Em poucos meses, começaram a surgir células do RAR por toda a Inglaterra, organizando eventos que uniam nomes como Steel Pulse, Misty in Roots, The Ruts, The Slits e Elvis Costello. Para os organizadores, não bastava tocar: era preciso tomar posição. O lema "Love Music, Hate Racism" estampa até hoje camisetas, faixas e cartazes ligados ao movimento. A ideia era simples: se a juventude se identificava com a música, então a música poderia ser usada como arma contra o ódio.
Clapton, que havia gravado recentemente "I Shot the Sheriff", de Bob Marley, tornou-se símbolo da contradição. Sua carreira inteira havia sido construída sobre o blues norte-americano e estava agora adotando o reggae jamaicano, ambos gêneros criados por artistas negros. Ao apoiar Powell, ele alimentava o discurso contra as mesmas pessoas que moldaram sua arte. Para muitos jovens fãs de música, especialmente punks em ascensão, era inadmissível.
O auge da mobilização aconteceu em abril de 1978, com uma marcha que levou milhares de pessoas de Trafalgar Square até o Victoria Park, em Londres. O show gratuito reuniu bandas como The Clash e Tom Robinson Band, com um público estimado em 80 mil pessoas. Aquele dia ficou marcado como um divisor de águas — tanto para o RAR quanto para a resistência à extrema-direita no Reino Unido.
Décadas depois, Clapton falou abertamente sobre como se sentiu naquele período. Em entrevista à PopMatters, reconheceu o clima de hostilidade: "Fui um dos alvos de 'assassinato' simbólico, junto com Phil Collins e outros. Fiquei com medo. Nunca quis encontrar Johnny Rotten. Não queria confronto onde eu fosse considerado um homem morto." Mesmo assim, seguiu em frente com sua carreira: "O negócio era continuar fazendo o que eu amava."
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Novo disco de Tony Iommi mantém acesa a chama do Sabbath, segundo resenha da Classic Rock
Devido à demanda, U2 anuncia data extra no Brasil
Moyses Kolesne manda recado a quem reproduz discursos de Lemmy sobre política
Overkill é anunciado como headliner do Overload Beer Fest, que será realizado em março
Como Jason Newsted criou o riff de "Blackened" do Metallica e a reação de James e Lars
"Nevermind" (Nirvana) ultrapassa "Back in Black" (AC/DC) e "Dark Side..." (Pink Floyd) em vendas
O roqueiro brasileiro que se queimou com Jô Soares após falar mal de Ayrton Senna
Dirk Verbeuren, do Megadeth, agradece Pete Sandoval por ter inspirado "legiões de bateristas"
Rod Smallwood desconversa ao ser perguntado sobre planos futuros do Iron Maiden
A música do Iron Maiden que influenciou o Big Four do thrash metal, segundo o Ultimate Guitar
A música dos Ramones que provavelmente seria "cancelada" nos dias atuais
Marko Hietala arrisca palpite sobre o que levou Floor Jansen a sair do Nightwish
O lado mais egoísta da humanidade inspirou a história de um dos maiores clássicos de Dio
Phil Lewis (L.A. Guns) considera Robert Plant mais inteligente que Ian Gillan
As 5 melhores músicas do Iron Maiden com Paul Di'Anno nos vocais, segundo o Ultimate Guitar

O álbum que Eric Clapton levou quase 30 anos para ter coragem de gravar
Os 30 melhores álbuns do blues rock britânico segundo a Classic Rock
O melhor show que Ringo Starr dos Beatles viu em todos os tempos, segundo o próprio
Quando George Harrison e um Ringo bêbado salvaram Eric Clapton de uma saia justa no Cream
A banda que Eric Clapton sabia que não precisava de um guitarrista como ele
Quando Eric Clapton viu pela TV o que era ser um verdadeiro músico de verdade
A veterana e famosa banda detestada por Keith Richards, Eric Clapton e Gene Simmons
A banda considerada por Eric Clapton o "ambiente perfeito" para ele: "É o Paraíso!"


