Regis Tadeu questiona: Raul Seixas foi vítima do próprio personagem?
Por Bruce William
Postado em 28 de junho de 2025
Se ainda estivesse entre nós, Raul Seixas completaria 80 anos no sábado, 28 de junho de 2025. Mas como morreu em agosto de 1989, aos 44 anos, é possível hoje olhar com distanciamento para seu legado e sua influência, não só no rock, mas na música brasileira como um todo. No vídeo publicado em seu canal oficial do youtube sob o título "Raul Seixas - Foi Vítima do Próprio Personagem?", é justamente esse o objetivo da análise que Regis Tadeu propõe: encarar Raul para além do mito, do folclore e do culto que se construiu ao redor de seu nome.
Para Regis, não há dúvida de que Raul foi um artista importante. "Um artista cuja influência impactou gerações, gêneros e até mesmo teve um impacto imenso ao expandir fronteiras culturais." Mas há também uma dose de crítica ao endeusamento: "Os fãs, esses eternos abobalhados, o consideram como o pai do rock brasileiro, o que é uma bobagem e é uma tremenda cascata ao mesmo tempo." Ainda assim, ele reconhece que Raul foi essencial para consolidar o rock no Brasil e que sua fusão de estilos e ideias ajudou a transformar a própria MPB.

O ponto mais complexo da análise está na diferença entre o artista e a persona. Regis aponta que "a persona do Raulzito, o rebelde místico e caótico, muitas vezes ofuscou o homem Raul Seixas", criando um mito "tão fascinante quanto complexo". Segundo ele, essa dualidade gerou bastidores turbulentos que, mesmo nos momentos mais tristes, alimentaram a aura mística em torno do artista - uma figura que contava histórias, criava personagens e misturava "o profeta, o palhaço e o rebelde" em performances carregadas de teatralidade e exagero.
Na parte musical, Raul se destacou por criar uma linguagem própria. Misturou rock com baião, chachado, forró, psicodelia, MPB, tropicalismo e o espírito da contracultura dos anos 60, sempre falando com uma linguagem acessível, mas "nunca simplista, nunca simplória", como Regis faz questão de frisar. Essa forma de comunicação direta com o "povão" foi uma das marcas mais fortes do artista. E parcerias como a que teve com Paulo Coelho acrescentaram ainda um viés místico e filosófico às composições, mesclando esoterismo e individualismo com críticas à sociedade conservadora.
Mas a pergunta que não quer calar está no fundo dessa análise: até que ponto Raul Seixas se perdeu no personagem? Regis acredita que sim, houve uma ruptura entre o homem e o mito. "O Raulzito era o personagem carismático, provocador e místico que aparecia nos palcos e nas letras. Já o Raul Seixas, pessoa física, era uma figura marcada por contradições, fragilidades e uma vida pessoal caótica." Segundo ele, essa tentativa de equilibrar os dois lados nunca se concretizou - e o personagem acabou tragando o artista.
Mesmo com o fim trágico, Regis enxerga a obra de Raul como um "tesouro da cultura brasileira", cuja relevância segue firme décadas após sua morte. As letras continuam atemporais, por tratarem de temas como o sentido da vida, opressão, individualidade e resistência. "As músicas eram mensagens de perseverança que celebravam e celebram autenticidade, que vai continuar a inspirar gerações de ouvintes e artistas para sempre."
Por fim, Regis lembra que Raul Seixas vem sendo estudado academicamente em áreas como sociologia, literatura, filosofia e musicologia. E que suas letras - repletas de referências culturais, filosóficas e espirituais — oferecem material fértil para pensar a identidade brasileira e sua vocação para fundir estilos. No entanto, nada disso anula a questão que paira no ar: ao criar o Raulzito, Raul selou sua genialidade - mas também pode ter assinado a sentença que o afastou de si mesmo.
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