O conceito de "legitimidade genética" que Paulinho da Viola usou para defender Rita Lee
Por Gustavo Maiato
Postado em 17 de junho de 2025
Em entrevista ao portal Terra, concedida no dia seguinte ao velório de Rita Lee, Paulinho da Viola falou sobre a perda da cantora e também sobre a diversidade musical brasileira. Entre lembranças e reflexões, o sambista rejeitou a ideia de que gêneros musicais devam respeitar fronteiras de origem — e usou a própria história para provar isso.

"Eu jamais criaria uma celeuma por isso", disse Paulinho ao comentar a noção de que o artista só seria legítimo se nascesse dentro de uma tradição musical específica. "Muita gente defende a legitimidade genética daqueles que representam certos gêneros musicais. Ou seja: se és brasileiro, não se atreva a cantar rock. Se és norte-americano, não se atreva a tocar choro", comentou o entrevistador, provocando uma resposta direta do músico: "Uma vez, em 1986, fui ao Japão apenas com o pandeirista Celsinho Silva. Os outros músicos seriam todos japoneses. E foram shows incríveis."
Paulinho ainda recordou uma de suas primeiras viagens ao Nordeste. No Recife, no fim dos anos 1960, conheceu um suíço apaixonado por jazz. "Foi assim que conheci um dos álbuns mais marcantes de minha vida. The Prophet, do Thelonious Monk. Você não imagina como aquilo mexeu comigo." A lembrança serviu para reafirmar que a música, em sua essência, transcende origens.
A conversa, feita por telefone de sua casa no Rio, ocorreu dias antes do show gratuito que o artista faria no Parque Villa-Lobos, em São Paulo, no encerramento do Mimo Festival. A apresentação teve a participação da filha, Beatriz Rabello, e foi descrita por ele como "linda". "Vou levar a Beatriz", disse. "Vai ser lindo."
Paulinho também falou da admiração por Rita Lee, afirmando que ela não apenas pertencia ao rock, mas rompia as fronteiras entre os estilos. "Ela era a transgressora que dizem, mas no melhor sentido da palavra", declarou. "Adoro aquele disco do Tutti Frutti." Quando corrigido — "Fruto Proibido?" — ele confirmou com leveza: "Gosto. Ou melhor, gosto dessa também."
Para ele, tanto o samba quanto o rock têm seus transgressores. "O samba também foi e pode ser transgressor. João da Baiana, Donga, Garoto, Radamés, Laércio de Freitas, Esmeraldino Salles, Valdir Azevedo, Canhoto da Paraíba, Pixinguinha, Lupércio Miranda... todas essas pessoas foram transgressoras dentro da linguagem do choro."
Aos 80 anos, na época, Paulinho rejeitou a ideia de aposentadoria. "Agora que eu não posso parar mesmo", disse, rindo. E, ao mesmo tempo em que se mostra reticente com as novas formas de distribuição musical — "Não sei lidar com esse negócio de lançar uma música por vez no Spotify" —, também reafirma o desejo de seguir em frente. "Vou seguindo até quando der."
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