A canção de Frank Zappa que foi finalizada por Gene Simmons, do Kiss
Por Bruce William
Postado em 08 de junho de 2025
Frank Zappa provavelmente não era o tipo de músico que colocaria um disco do Kiss para relaxar. Mas em algum lugar entre o escracho performático de Gene Simmons e o fascínio de Zappa por tudo que era absurdo e excessivo, talvez houvesse alguma interseção. O próprio Gene alega que sim — e chegou a afirmar que finalizou uma composição inacabada de Zappa, tocando todos os instrumentos.
A história, contada por Simmons em entrevista à Classic Rock (via Far Out), tem variações. Em uma versão, ele afirma que chegou a se aproximar de Frank Zappa pouco antes da morte do músico, em 1993. Em outra, mais plausível, diz que conheceu o filho Dweezil Zappa nos anos 1970, e que manteve contato com a família após a morte do patriarca. Foi nesse contexto que, segundo ele, surgiu a oportunidade de concluir um trecho deixado por Frank.

A faixa em questão se chama "Black Tongue" (youtube), e segundo Gene, o título já era do próprio Zappa. O que havia de material era uma gravação de 30 segundos, em forma de loop. A partir disso, Simmons afirma ter construído toda a música, tocando ele mesmo todos os instrumentos e reunindo os membros da família Zappa para cantar juntos em um mesmo microfone — algo que, segundo ele, nunca havia acontecido antes.
O lançamento ocorreu em 2004, como parte do projeto "Asshole", álbum solo de Gene Simmons. Dweezil Zappa confirmou sua participação na faixa, e os créditos também incluem Ahmet, Moon e Gail Zappa. Ainda assim, não há como evitar uma certa pulga atrás da orelha: não existe documentação clara de que Frank tenha realmente deixado a ideia ou expressado vontade de que ela fosse concluída. Tudo parte da palavra de Simmons.
Considerando o histórico de Gene como contador de causos, não faltam motivos para olhar a história com reservas. Ele já se colocou como pivô de descobertas musicais milagrosas, aproximou-se de ídolos na base do "eu tava lá" e não costuma economizar em autopromoção. Em outras palavras: se alguém disser que ele encontrou um riff num guardanapo e o transformou em sinfonia, é bom pedir fotos, vídeos e três testemunhas.
Mas o que chama atenção mesmo é a ideia de que Frank Zappa — um dos músicos mais exigentes e idiossincráticos do século 20 — teria deixado, ainda que informalmente, seu legado nas mãos do frontman de uma banda que sempre flertou com gosto estético e musical considerado duvidoso como estratégia de marketing. Pode até ter sido uma boa jogada publicitária. Mas soa como o tipo de narrativa que faria o próprio Zappa revirar os olhos — ou, quem sabe, rir da ironia.
Seja como for, "Black Tongue" existe. E com ou sem aval do autor original, ela virou uma colaboração póstuma entre duas figuras que talvez não tivessem tanto em comum quanto Simmons gostaria de fazer crer. Em termos de gosto musical, Zappa era mais Stravinsky do que arena rock. Mas, se houve mesmo alguma admiração de sua parte, só ele saberia dizer — e ele não está mais aqui para desmentir.
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