O guitarrista desconhecido idolatrado por Frank Zappa e John Frusciante
Por Bruce William
Postado em 16 de dezembro de 2025
Tem uma coisa curiosa quando você junta Frank Zappa e John Frusciante na mesma conversa: são duas cabeças de épocas, cenas e prioridades bem diferentes, mas que apontam para o mesmo nome quando o assunto é guitarra. E não é aquele "top 5" que todo mundo cita no automático.
A pista começa lá atrás, nos anos 1950, quando a regra era música curta, redondinha, feita para rádio, sem espaço para seções instrumentais longas. Solo de guitarra dentro de um single de rock ainda não era exatamente um "item obrigatório" do formato. Mesmo com guitarristas marcantes na época, a linguagem do rock ainda não tinha aberto essa avenida do instrumento virar protagonista no meio da canção.

Só que um cara resolveu puxar o tapete dessa lógica cedo. Em 1954, ele lançou o single "Space Guitar" e a gravação soou tão fora da curva que, na época, a própria Billboard teria registrado a resenha com "??". Blues tinha, ritmo tinha, mas a guitarra elétrica vinha à frente, esticando acordes tradicionais para um território que o rádio ainda não sabia bem como classificar.
Aí entra o nome: Johnny "Guitar" Watson. Para o Zappa, ele não foi um "herói técnico" no sentido de ginástica, e sim alguém que fazia as notas significarem alguma coisa dentro do contexto certo. Zappa resumiu assim: "Bem, meu guitarrista preferido originalmente era Johnny 'Guitar' Watson. Não da perspectiva técnica, mas de ouvir ao que as notas dele queriam dizer no contexto em que eram tocadas. E também ele foi o primeiro guitarrista que eu ouvi usando distorção - e isso lá nos anos 50! De um jeito estranho, eu acho que provavelmente muito do meu estilo deriva de sua abordagem à guitarra, por seus solos que eu ouvia na época."

Anos depois, Frusciante cai no mesmo ponto por outro caminho. Numa lista de favoritos dele, aparecem nomes "esperados" como Hendrix, Page, Beck e Van Halen, mas também entram três escolhas menos óbvias - e Watson está nesse grupo. À Guitar Player, Frusciante citou "Too Tired" como uma de suas músicas preferidas e elogiou o jeito "muito sinistro" de Watson tocar, cravando: "Eu não acho que alguém antes dele tenha chegado perto daquilo".

O que amarra tudo é que Watson aparece como um sujeito que já estava mexendo em timbre e linguagem quando o rock ainda estava se entendendo como gênero. E, olhando em retrospecto, faz sentido que pouco depois disso o rock abrisse mais espaço para solos e riffs: em 1956, por exemplo, Chuck Berry lança "Roll Over Beethoven" com solo de guitarra, e Elvis também incorpora esse tipo de seção em faixas como "Jailhouse Rock". A partir daí, a porta fica escancarada para todo mundo que veio depois.
No fim das contas, Watson acaba virando aquele tipo de referência que não fica no cartaz principal, mas reaparece sempre que o guitarrista começa a falar sério sobre origem de timbre, ideia de solo e "o que a nota está dizendo". E quando dois caras como Zappa e Frusciante param para apontar para o mesmo lugar, dá para desconfiar que tem coisa aí que vale ouvir com atenção.
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