Como Jimmy Page quase estragou o solo de guitarra de "Aqualung", do Jethro Tull
Por Bruce William
Postado em 29 de agosto de 2025
Lançada em 1971, "Aqualung" é uma das canções mais marcantes do Jethro Tull. Com riff poderoso e letra que mistura crítica social e personagens realistas, tornou-se o grande destaque do álbum homônimo. Para Ian Anderson, sua mensagem não perdeu força: "Acredito que os sentimentos da música são tão óbvios agora quanto eram em 1971, porque a questão dos sem-teto não desapareceu", explicou o vocalista.
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A inspiração veio de uma série de fotos feitas por Jennie Anderson, então esposa de Ian, que registrou pessoas em situação de rua em Londres. A partir dessas imagens, ele criou o personagem Aqualung, um retrato fictício, mas carregado de referências à realidade. "É uma música carregada de culpa e confusão sobre como lidamos com mendigos, com os desabrigados", disse o músico, apontando para o desconforto e a indiferença com que a sociedade encara essa situação.
Anderson ampliou a reflexão ao falar sobre como o mundo moderno contribuiu para a alienação. "Você vê alguém claramente precisando de ajuda, seja algumas moedas ou todo o dinheiro da sua carteira, mas simplesmente finge que não viu. Quanto mais você se afunda nesse mundo movido pelos negócios e pelo consumo, mais você se torna indiferente." Assim, o tema central da música não se limita ao personagem, mas atinge também o comportamento de quem o ignora.
Musicalmente, a faixa surge em um período em que a guitarra havia conquistado protagonismo absoluto. Dos anos 60, com Eric Clapton, Jimi Hendrix e Jimmy Page, até a década seguinte, os solos se tornaram marca registrada do rock, ocupando minutos inteiros em faixas épicas como "Free Bird", do Lynyrd Skynyrd, ou "Dogs", do Pink Floyd. Até o Television, expoente do punk nova-iorquino, apresentou longos solos em "Marquee Moon".
Nesse contexto, o solo de Martin Barre em "Aqualung" entrou para a história como um dos mais emblemáticos do início dos anos 70. O que poucos sabem é que ele quase foi atrapalhado justamente por Jimmy Page: "O solo de 'Aqualung' foi todo feito na hora, acho que no segundo take - até porque, se eu não tivesse feito em dois takes, teria entrado um solo de flauta. Quando eu estava no meio do solo, foi aí que Jimmy Page apareceu na janela da sala de controle, acenando loucamente. Como eu estava no meio do solo, pensei: 'Foi mal, não posso parar'. E não parei. Simplesmente virei as costas, o que foi meio grosseiro. E esse foi o solo de 'Aqualung'."
O episódio ocorreu no Basing Street Studios, em Londres, onde o Led Zeppelin também trabalhava. Page, curioso e descontraído, interrompeu o momento sem querer, mas acabou deixando Barre em uma situação inusitada: tocar um dos solos mais importantes de sua carreira enquanto ignorava a saudação de um dos maiores guitarristas da época.
Apesar da tensão durante as sessões, o resultado foi marcante. Em entrevista posterior à Guitar World, Barre lembrou que a gravação não foi simples: "Foi um álbum difícil de fazer. Tivemos dificuldades para gravar porque as coisas não paravam de quebrar no estúdio, o que gerou uma tensão na banda [...] O pessoal se interessa pelo lado lírico do álbum, bem como pela diversidade das músicas nele contidas. Passamos muito tempo gravando ele."
No fim, o esforço valeu a pena. "Aqualung" se tornou o álbum mais popular do Jethro Tull e consolidou a imagem da banda entre os grandes nomes do rock progressivo. E se o solo de guitarra entrou para a história, é curioso pensar que ele poderia ter sido interrompido justamente por outro gigante das seis cordas.
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